A bela flor de algodão - por Maria Dilmar

A bela flor de algodão - por Maria Dilmar

A bela flor de algodão

 

Linda como as ninfas encantadoras dos quadros de Renoir.  Alta, magra, elegante e com a pele aveludada que lembrava as princesas daqueles livros dos contos de fadas. Ela era mesmo, dona de uma beleza angelical.

Contudo, havia por trás daquela linda e maravilhosa jovem, uma doença que se manifestara ainda na infância. Quase sempre, uma vez por mês, o desmaio, os espasmos e um corpo se debatendo incontrolavelmente sem que se pudesse fazer nada, a não ser proteger sua cabeça de pancadas muito fortes e ainda, abrir com força sua boca para que não sucumbisse sufocada pela gosma produzida em consequência das contrações involuntárias que aquela coisa provocava.

Era penoso quando ela voltava a si. Sua família tentava aparentar tranquilidade, mas as marcas do embate deixavam algumas manchas em seu corpo e sua mente. Parecia que havia feito uma viagem estranha, pois sentia-se cansada, com sede, sono e uma incômoda sensação de angústia no peito.

Só no dia seguinte tudo ia entrando nos eixos e para espairecer, se refugiava naquelas revistas de fotonovelas sua paixão. Lia todas! Amores, sonhos, desejos e lugares lindos. Era assim que ela queria ser feliz.

Será que podia? Sentia que alguns parentes e pessoas conhecidas a fitavam com uma certa curiosidade. Por que justo com ela aquilo acontecia? Será por isso que alguns rapazes, apesar de achá-la bonita não se aproximavam como ela gostaria? Será que ele, seu amor secreto, também pensava assim?

Essas conjecturas são todas fruto da minha imaginação de hoje. Porque aquele rosto, aquele sorriso e aquele andar altivo ficou gravado nos meus olhos de criança. Como também, aquele cinzento e desesperador fim de tarde, que serviu de cenário para a despedida dela, a flor de algodão. Penso que planejou tudo. Já que seu amor era impossível. Sua vida era um drama. Ninguém a compreendia e nem tão pouco se interessava pelo que se passava no seu coração. A melhor coisa a fazer era ir sonhar noutro lugar. E assim despediu-se da vida tal qual a história daquela fotonovela que foi encontrada entre os seus pertences.

Lembro do choro de muita gente. Do olhar de incredulidade das pessoas daquele sertão. Surpresa geral!

Dor, lamento e desespero.

Dizem que havia uma carta.

Eu criança, nunca soube direito os detalhes. Apenas lembro do cortejo passando pela frente da minha casa.

Sei lá! Quando uma tragédia assim acontecia naquele tempo, na minha cidade, parece que tudo entristecia. O sol ficava vermelho, o céu ficava sombrio e as tardes se acinzentavam como se solidarizasse com a dor e a tristeza daquele povo. 

 

 

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