A Boemia do Recife no século XX - por Eduardo Garcia

A Boemia do Recife no século XX - por Eduardo Garcia

A BOEMIA DO RECIFE NO SÉCULO XX

 

Noites e noites a beber na maior vadiagem”. Assim era o Café Flor da Noite, pelo menos na descrição feita pelo Jornal do Recife em outubro de 1926.
A vida noturna na capital que se dizia moderna, era vista com desaprovação por aqueles que defendiam a moral, os bons costumes e os valores da família.
Na segunda década do século XX, a cidade aparecia como um dos mais importantes centros políticos e econômicos do país, em virtude das suas exportações de açúcar e a suas lideranças políticas. Com a influência cultural europeia, sobretudo de Paris, a capital pernambucana teve melhorias urbanísticas como ocorria no Rio de Janeiro. Reformas no porto e em bairros, demolição de casarões, calçamento de ruas, implantação de um sistema de saneamento, reforma de praças e construção de mercados públicos, mudavam Recife.

Cidade portuária, entrada da Europa, com o seu belo litoral tinha que ser um paraíso para os boêmios. Cafés, bares, botequins, pensões e cabarés atraíam a clientela com shows artísticos e musicais, prostituição e a jogatina. Havia os cafés” estilistas, e os populares – os “cafés-cantantes” ou cafés-concerto” –, porém à noite não haviam diferenças sociais. Cafés elegantes eram também frequentados por prostitutas, destaque negativos nas colunas policiais, e pessoas que ganhavam a vida com atividades ilegais. A sociedade de respeito passava as madrugadas nos cafés, misturando-se aos que segundo eles eram “desordeiros”, “malandros” e “mulheres da vida”. Os jornais da época recriminavam essa sociedade que passava a noite a beber, com suas roupas elegantes em meio à prostituição, jogos e bebidas.


Haviam reclamações constantes contra os cafés e pedidos de providências por parte das autoridades. Para a época, o barulho, brigas e discussões não era um comportamento adequado para a sociedade. Dessa situação nascia a promiscuidade, delinquência e consumo de drogas, já naquele tempo já havia a venda de cocaína. Em julho de 1922, o Café Chile, na Praça da Independência, sofreu uma batida policial que flagrou a venda de cocaína em sua tabacaria.

Manchete nas páginas do Jornal do Recife, o proprietário a vendia ao meretrício, que era repassado por elas aos jovens da época.


Já se discutia entre a sociedade os problemas das drogas, cocaína, morfina, éter, ópio, etc., o dono da tabacaria respondeu vários inquéritos.


O Chile, o Café Continental, localizado na esquina da Rua do Imperador com a 1° de Março conhecido como “a Lafayette” ou “Esquina da Lafayette”, por estar vizinho à Fabrica Lafayette, charutaria. De público diverso conviviam o popular e a elite, arte literatura, política, negócios, escrever versos, conversar. Próximo as redações dos principais jornais da cidade – Diário de Pernambuco, Jornal de Recife, Jornal do Commercio, Jornal Pequeno, entre outros –, ao Continental comparecia a intelectualidade local.


Câmara Cascudo, José Lins do Rego e Gilberto Freyre.


Mulheres não passavam nem perto da calçada do Lafayette, precursora, a escritora Rachel de Queiroz, levada pelo marido, José Auto, compareceu a algumas reuniões dos intelectuais na Esquina da Lafayette no início dos anos 1930.
Conviviam pessoas de mundos diferentes... Senhores comportados, bêbados, estudantes, prostitutas, atrizes, jogadores, encontravam-se nos cafés. A sociedade os separava e a noite, os aproximava.

SAVOY

Bar Savoy, pelas suas mesas passaram, Gilberto Freyre, Ariano Suassuna, Mauro Mota, Renato Carneiro Campos, Marcus Accioly, Mário Hélio, Alberto da Cunha Melo, Jaci Bezerra, Ascenso Ferreira, Edson Nery, Vicente do Rego Monteiro, Ledo Ivo, Francisco Brennand, Osman Lins, Reinaldo Fonseca, Lula Cardoso Ayres, Eduardo Portella, Jorge Amado, Antônio Calado, Alberto Cavalcanti, Roberto Burle Marx, Heitor Villa-Lobos, Roberto Rossellini, Aldous Huxley, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre e Capiba, entre outros. O poeta Carlos Pena Filho foi o frequentador mais assíduo, ele disse: “Nas mesas do Bar Savoy/o refrão tem sido assim:/são trinta copos de chope/, são trinta homens sentados,/  trezentos desejos presos,/trinta mil sonhos frustrados.

Localizado na Avenida Guararapes, nº 147, no centro do comércio da cidade, foi fundado em 1944 e teve na década de 60 o seu auge, Fechado em 1992,  com o advento dos Shoppings Centers o comércio deslocou-se para outras áreas do Recife, o Bar Savoy encerrou a suas atividades.

No projeto, reabri-lo como um espaço cultural contendo memorial e cafeteria, uma parceria entre o Instituto Maximiano Campos, o Instituto Maurício de Nassau, o Instituto do Frevo e a Faculdade Joaquim Nabuco

 Carlos Pena Filho imortalizou-o em versos no Guia Prático da Cidade do Recife:

Nas mesas do Bar Savoy
O refrão tem sido assim:
são trinta copos de chope,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.
Ah mas se a gente pudesse
fazer o que tem vontade
espiar o banho de uma
a outra, amar pela metade
se daquela que é mais linda
quebrar a rija vaidade.
Mas como a gente não pode
fazer o que tem vontade,
o jeito é mudar a vida,
num diabólico festim.
Por isso no Bar Savoy
o refrão é sempre assim:
são trinta copos de chope,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.

 

Da morte de Carlos Pena, o poeta Mauro Mota escreveu:

São agora vinte e nove
Os homens do bar Savoy.
Vinte e nove que se contam.
Falta um para onde foi?
Vinte e nove homens tristes
Dentro deles, como dói
A ausência do poeta Carlos
Na mesa do bar Savoy.

Os versos fazem parte de uma placa afixada em 20/12/1960, que é parte da memória do Bar Savoy.

Não esqueçamos do Edifício Chanteclair, na avenida Rio Branco, ponto de encontro na época, não menos famoso, Hoje fechado, acabou de ser feita a sua reforma mas sem um futuro definido.                                                                                                                 

 O site Paço Alfândega publicou: O edifício "Chanteclair", é um conjunto arquitetônico, do final do século 19, tombado pelo Patrimônio Histórico. Dividido entre moradia e comércio era constituído por um conjunto de seis edifícios amarrados por um ornamento externo comum. Essa singularidade o distingue dos demais, em nível nacional, e lhe confere a aparência de ser uma única construção.

 

Fontes:

http://cenasecoisasdavida.blogspot.com.br/2011/03/artigos-retalhos-de-lembrancas-vida.html

http://www.institutomauriciodenassau.com.br/blog/o-renascimento-do-savoy/

http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos-revista/recife-brilha-a-noite

http://pacoalfandega.com.br/pagina/chanteclair/6

 

Pesquisa e Textos

Luis Eduardo Garcia Aguiar

 

 

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