A Cidade - por Christina Hernandes

A Cidade - por Christina Hernandes

A CIDADE

 

Cidade pequena. Ruas estreitas de chão batido. Casas simples, todas encarreiradas. Vizinhos amigos, velhos companheiros daquelas brincadeiras de infância... Inocentes brincadeiras, como pique, pega-pega, taco, ciranda e tantas outras. As travessuras: subir nas árvores – as mais altas e frondosas –, nadar no rio lá de baixo, que tem aquela correnteza brava. Deitar na grama olhando para o azul do céu e falar da vida, dos planos, dos sonhos...  Nossa! Do futuro! E que futuro!

 

Na única praça, a igreja do padre Juventino – bom e velho confessor – estava na cidade desde que esta foi fundada. Era rodeada por aquilo que é mais precioso para a sociedade: a ordem, representada pela delegacia do dr. João, o justo, delegado que não cometia injustiças e ponderava antes de tomar decisões; a saúde, presente na farmácia do sr. Heleno, aquele que cura todo mundo da cidade e sabe o remedinho certo para todas as dores, até aquelas da d. Marye, que diziam ser muito fogosa; a subsistência, proporcionada pela venda de d. Mariquinha, viúva, mas mulher muito honesta, que não quis mais saber de marido. (Dizia que homem é um só.) Ela vendia de tudo, desde alimento, fonte da nossa vida, até ferramentas para o trabalho no campo.

 

Ah! Havia também o sr. Quim, aquele que andava por toda a cidade com seus fiéis amigos e companheiros de trabalho: o burro Tácio e o vira-lata Duque.

 

Hospital, bem, somente aquele que ficava na cidade vizinha. É lógico que tinha de tudo, desde o médico, dentista, enfim, tudo o que a gente precisava. Era bom e não era tão longe assim.

 

Nossa! Estava-me esquecendo da prefeitura do dr. Felisberto, que, além de guardião da chave da cidade, era o paizão que resolvia todos os nossos problemas, a quem ficávamos gratos para sempre.

 

Um ajudava o outro, os rancores eram relevados. Todos trabalhavam em benefício do bem comum. Os estranhos eram recebidos sem cautela, afinal, com certeza, deveriam ser homens de bem.

 

Que cidade! Que saudade!

 

Tornara-se cidade média. Suas ruas antigas eram estreitas e de chão batido. As mais largas, modernas, chamadas de “avenidas”, eram calçadas com paralelepípedos.

 

Os vizinhos já não se conheciam tanto, muita gente de fora viera formar a nova população e era difícil conhecer todos. A não ser aqueles que logo ao se mudarem vinham-se apresentar, mas isso não era muito comum. Portanto, a pessoa que morava ao nosso lado, que colocava o lixo na mesma esquina onde o lixeiro iria pegá-lo, era estranha.

 

Bem, a praça já não abrigava mais os prédios importantes dos amigos: delegacia, prefeitura, igreja, farmácia, venda, a casa de dona Maricota –   aquela que tinha a mesma idade da cidade na nossa lembrança –, mas pessoas que as vezes eram conhecidas e outras vezes tão estranhas que nos punham medo. Sabíamos que estavam lá, mas não sabíamos muito bem quem eram. Acreditávamos serem pessoas de bem.

 

Criavam-se tantas praças novas que começávamos a perder a referência. Os companheiros das brincadeiras divertidas do passado já estavam ficando distantes, só se viam em ocasiões especiais: velórios, casamentos ou se encontravam por acaso nas ruas novas, para nós tão desconhecidas, as avenidas. Sabíamos que estavam lá, mas começavam a ficar também distantes, como o retrato de nossa cidade, sem vida e sem brilho. Do nome deles não conseguia me lembrar mais.

 

Que cidade? Ficou desconhecida.

 

Cidade grande! Moderna, dividida em bairros, jardins, bosques, vilas com seus milhares de ruas pavimentadas, mas agora com asfalto. Não eram mais só chamadas de ruas ou avenidas, mas alamedas, travessas, becos. As vezes, minha cabeça ficava confusa, pois surgiram muitos nomes para designar a mesma coisa: ruas.

 

Nas praças, não se viam igrejas, delegacias, farmácia, venda. Tudo se distanciou, nem sei ao certo quem é o padre, o prefeito, o farmacêutico, a venda. Hum... Cadê? Virou supermercado! Shopping! Nossa, quanta mudança!

 

São tantas farmácias e tantos farmacêuticos, tantas delegacias e delegados, tantas igrejas e tantos  padres, pastores, rabinos... Hum... Supermercados... Enfim, é impossível saber de quem são; só sei que são prédios com arquitetura diferente, em que se misturam tudo quanto é tipo de estilo. Sei também que há gente que trabalha lá dentro.

 

As pessoas não mais se conhecem pelos nomes, pelos apelidos, pelas famílias, pelas tradições. Reúnem-se em pequenos grupos e enaltecem suas crenças, não para o bem de todos, mas para o dessas minorias que acreditam ser o seu deus melhor que o do outro. Ficamos sempre estranhos, mesmo dentro de nossas crenças.

 

Uma palavra aparece como salvadora de todos os males que surgiram no universo e entre os homens: “tecnologia”. Mesmo tanta gente não sabendo bem o que é isso, todos falam dela enchendo a boca e com toda a propriedade, digna do melhor cientista. Ah! A tecnologia serve para o desenvolvimento da vida nas cidades. Mas que cidades? Daqui a pouco, não existirão mais.

 

A palavra mais conhecida por todos os indivíduos que moram em todos os lugares da cidade é “violência”. Todo mundo sabe o que é, mas ninguém consegue enxergar o seu significado. Criam-se vários órgãos, várias pessoas bem intencionadas procuram ajudar os violentos, que, óbvio, não somos nós! É sempre o outro e portanto não precisamos pensar no significado.

 

Pobres cidades! Sem significados...

 

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