A Ciganinha - por Glauce Leite

A Ciganinha - por Glauce Leite
A Ciganinha
 
 
Os pais casaram-se pela segunda vez após a viuvez, ambos já tinham quatro filhos e da nova união surgiram mais quatro. Ela era a caçula e havia onze irmãos mais velhos para cuidá-la. Sua infância foi ótima, brincava com os irmãos e era paparicada pela avó que por várias vezes a enrolava em sua saia enorme para protegê-la de qualquer acusação falsa ou não. Os pais eram distantes dela, faziam o sem perceber talvez por estarem envolvidos com os assuntos mais graves dos mais velhos. Eram pobres, a luta era diária e já não eram jovens.
 
Aos sete anos o pai morreu e aos doze tornara-se órfã de pai e mãe, mas os irmãos já casados acolhiam-na durante temporadas em suas casas. Às vezes ela se mudava para casa de outro e de outro devido a pequenos desentendimentos ou simplesmente por perceber que acabava incomodando, sendo apenas uma cunhada caçula que precisava de um lar. Houve uma época de sua juventude que encantou-se tanto com um grupo de ciganos que instalara uma enorme tenda na vizinhança que chegou a pensar em seguir com o grupo mundo a fora. Só não o ocorreu, pois o irmão cujo qual a acolhia na época, proibiu-a de freqüentar a tal tenda, talvez por ter percebido a irmã.
 
Tal fato não a tornara uma pessoa problemática, complexada, mas carregava no olhar uma esperança triste de sentir-se de fato amada.
 
Cléa estava com vinte anos, era uma moça cheia de graça ao falar e sorrir. Tinha corpo de mulher, era magra e a pele morena era sempre exibida pelos ombros à mostra através de blusinhas charmosas que comprava com o salário que ganhava em uma fábrica de fitas cassetes. Nessa época estava morando com a irmã mais velha que tinha um filho lindo de dois anos, logo a presença de Cléa na casa era lhe conveniente, pois além de cuidar do sobrinho, ato que não lhe exigia nenhum sacrifício, pois adorava a criança, ela ajudava nos afazeres domésticos.
 
O marido da irmã era jovem e trabalhava por conta, logo a família contava com o apoio do pai dele, calado e cheio de orgulho besta. Moravam em uma casinha dos fundos do homem severo, que às vezes recebia a visita do irmão mais novo, que não era tão novo assim. Bento já estava beirando os quarenta, tinha um emprego na cidade grande e uns casinhos também. Nada que lhe despertasse o desejo de se casar e formar família. Até o dia em que botou os olhos na cunhada do sobrinho. Cléa que estava acostumada a paquerar d e sua idade, nem levava a sério as brincadeiras que Bento lhe fazia, convites para cinema e até uma ameaça de seqüestro que ele um dia fez levando os dois a trocarem olhares mais intensos.
 
Um dia aceitou o convite para um cinema e daí iniciaram um namorico que em seis meses tomou proporções gigantescas. Ela nem teve tempo para entender o que estava acontecendo, que sentimento novo era aquele, atração, respeito, admiração e muita, mas muita segurança. Esse último nem se lembrava que existia desde a morte de sua avó. Bento e Cléa planejavam e sonhavam a vida de casados na cidade grande quando ele estivesse de posse de uma boa casa que financiara com o governo.
 
Chegou o grande dia, ele dissera a ela que se tocasse a buzina do fusca e se recusasse a descer do carro era um sinal de que a casa estava esperando os pombinhos. Cléa já morando na casa de outra irmã, ouviu a buzina e saiu correndo para ver se o príncipe daria o sinal. Foi o dia mais feliz de sua vida. Esqueceu-se do fato de estar enrolada em uma toalha apenas e correu para os braços daquele que significava um recomeço, um lar de verdade, alguém que não lhe negaria amor e que a fizesse sentir protegida novamente.
 
 
 

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