A dona do verso da praia - por Maria Dilmar

A dona do verso da praia - por Maria Dilmar

A dona do verso da praia

 

Teu verso ficou em mim. Teu sorriso também. Era tempo de verão, quentura, suor e vida boa nas ondas gostosas daquele belo mar.

Nada para fazer. Tudo para viver sentir e desejar. 

Corpos em alta, sentimento, liberdade e leveza. Pra que mais? Música na noite e ternuras expostas em sorrisos piscados e acenos descontraídos.

Passeando eis que dou de cara com aquele verso escrito nas areias

“Queres me consumir? Então devora-me

Já não suporto imaginar que me procuras

Quando estou bem aqui diante de ti.

Que faço? Fujo ou te espero?”

Aquilo mexeu demais comigo. E se fosse eu o devorador? Valeria a pena? Olhei de um lado para outro tentando identificar a dona dos versos. 

Cheguei bem perto, fiz rabiscos ao redor. Olhei para todos os lados. E se não fosse uma mulher? Um homem escreveria daquela forma? Algo me falava que era uma mulher. E deve ser linda de qualquer jeito! Está a minha procura, garanto. Que ideia? Porque estaria? Deve ser alguma sonhadora metida a artista que quer chamar atenção para sua arte. 

A curiosidade me atiçava. Minha imaginação tomou um rumo incontrolável. Encheu-me de devaneios. Desnorteou-me. E nesse dia nem tinha lua! Mas quem disse que naquela seara uma lua faria diferença? Luzes por toda parte. De repente fui tomado por um sentimento de espanto! Seria ela ali caminhando na direção do verso? A água estava também tão próxima! Alguém andou pisando sobre algumas palavras. Será que ela iria reescrevê-las ou apenas reascendê-las? Parado em total aflição e frenesi. Quando vi uma bela escultura feminina se aproximar do verso. Ela para, olha para o verso, depois para o mar. Então é mesmo a dona do verso? Fiquei em louca agonia. O que estava acontecendo comigo? Por causa de um verso escrito na areia da praia? O que aquilo tinha mesmo a haver comigo? Quem seria com certeza a razão da inspiração daquele verso! Ela então podia muito bem ser a minha escolhida. A minha musa. Aquela que me tiraria o sono, o fôlego e todas as minhas dúvidas. 

E se eu fosse lá também escrevesse um verso na areia? Seria um bom começo. Mas eu poeta? Sim diante de todas as conjecturas. Eis-me poeta, apaixonado por uma mulher dona de um verso que me procura. E ela estava ali.

Tomo uma decisão intempestiva. Pego uma caneta esferográfica. Chego bem próximo do verso. Nossa! Como ela é linda! Fito-a enternecido. Meu instante de louco é um caos. Nada funciona. Fico mudo. Travado. Nem uma palavra! Nenhuma ação. 

A água se joga na direção do verso. Tento impedir que destrua-o. Mas quem sou eu? Um verme mudo, lento e incapaz de um gesto heroico na defesa de um pobre verso.

Ela me olha enquanto o verso se desmancha. Balbucio alguma coisa. E me olha. Ensaia um sorriso e eu? Nada. Petrificado.

Penso: Não fujas mais oh amada linda!

Eu sou finalmente aquele que procuras

Tu também és a razão dos versos que não fiz

E que te ofereço antes que me pertençam.

Sigo na direção dela. Sorrio, possuído de encantamento e lhe estendo a mão. O verso é seu? Belo! Guardei-o na memória. Meu nome é Lucas e o seu? Ah! E esse verso rendeu quase a história da minha vida toda.

 
 

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