A Estrelinha - por Anchieta Antunes

A Estrelinha - por Anchieta Antunes

A     ESTRELINHA

 

            Estava eu assentado firmemente em minha plataforma terrestre, em uma noite em que a lua havia dormido até mais tarde, quando, num gesto involuntário, olhei pra cima, para o firmamento repleto de pirilampos piscando suas luzes difusas e vi uma estrelinha diminuta e persistente, piscando seus olhinhos para mim, com a cumplicidade de uma amiga embevecida. Não pensei duas vezes, transformei-me em flecha incandescente devido à velocidade imprimida pelo meu arroubo de urgência, de confabular com minha mais nova amiga distante, e sai rompendo o véu noturno, riscando de fogo meu caminho cheio de nuvens, de campos de asteroides, de chuva de meteoritos. Ia abrindo à força, tudo que se colocava à minha frente com minha indômita vontade de realizar meu desejo de abdução estelar.

            Atravessei espaços infindos, e rufião que sou, dominei todos os astros, estrelas e continentes líquidos e invisíveis. No último instante desviei-me da lua, com a qual iria me chocar e deixar marcada mais uma cratera lunar. Naveguei pelo lado escuro dela e pude ver as instalações multicoloridas e iluminadas como um dia, dos extraterrestres que têm ali uma de suas bases, de onde vêm para nos visitar quando a noite estende seu véu soturno. Atravessei galáxias, e extensões infinitas de poeira de estrelas, gases infectos, chapadas diamantinas, e buracos negros.  Cheguei onde ela permanecia quieta, apenas com seu pequeno pestanejar em minha direção, pedindo para que eu a levasse a passear por outras paragens. Minha estrelinha encantou-me com seu sorriso beatificado, titã de meus sonhos pueris, minha deusa heroína dos altos de Deus.

            Instantaneamente eu a amei solene e irremediavelmente. O encantamento foi estabelecido à nossa revelia, com a vontade própria do amor verdadeiro. Era um amor antigo e eu não tive a sensibilidade necessária para reconhecer o passado sublime e cheio de devaneios.

            Eu a coloquei no regaço de minha mão, bem aconchegada, escondida dos olhares alheios e cobiçosos, longe das ambições e da perfídia. De punho cerrado juntei-a ao meu coração pra que pulsassem em uníssono. Como um raio determinado dei meia volta e larguei-me veloz para meu caminho de retorno em direção ao continente conhecido. Atravessei célere o campo vazio, os espaços cheios de espuma de gelo para arrefecer minha pele ardente, meu corpo em chamas devido ao atrito da velocidade, e vi-me novamente como sou, apenas um homem pequeno em forma de flecha, descendo vertiginosamente para minha plataforma terrestre.

            Chegamos vigorosos e contentes, com a arrogância dos vencedores e ela, minha estrelinha, sorrindo nas linhas da minha mão pediu um lugar para deitar-se e contemplar a imensidão do céu e da terra.

            Havia chovido e formado algumas poças d’água na minha rua quase deserta. Do bolso retirei meu seixo côncavo que havia recolhido das margens do rio. Deitei-a delicadamente em seu berço macio, e o levei para sob a lâmina da chuva que ainda emanava eflúvios de eternidade, suspensão e mistério. Ali a deixei observando o firmamento, seu berço natural, distante e saudoso. Ela ria para mim o riso dos astros, a felicidade da inocência, a fantasia da constância perene e natural. Éramos cumplices de uma vida só nossa, escondida de olhares humanos, da curiosidade desta raça de predadores. Tínhamos um segredo: o segredo da elegância em existir em cima ou em baixo, distante ou próximo, mandante ou mandado, senhor ou servo. O segredo da humildade complacente.

            Ela brilhava por si só e eu refletia seu fulgor, como se um espelho fora. Ela, no remanso de seu pequeno lago pluvial, ditava pra mim lições de vida, de comportamento e inteligência comportamental. Eu queria aprender todas as lições do imponderável, os ensinamentos da eternidade contida em sua pequena esfera brilhante e secular. Queria que meu coração brilhasse pra mim como ela brilhava para os mundos a seus pés, quando cintilava lá nas alturas intangíveis.

            A minha pequena estrela era a conjugação do meu verbo viver, ser, existir e amar. Pertinho de mim, sentia seu calor colorindo minha mente de sonhos querubins, bafejando minha alma com sua candura e compaixão pela metafisica da universalidade da vida incompreendida pelo homem que ainda nada sabe.

            A minha estrelinha regalou minha alma de modéstia, de indulgencia e sensibilidade. Afrouxou os cordões de minha intransigência epistolar, calçou-me pantufas de paciência e me serviu o chá da tolerância. Nunca mais quero perde-la, nem vê-la longe de meus cuidados, de minha vista limitada e bisonha. Quero-a sempre ao meu lado, todos os dias, todos os momentos de alegrias ou de presunção de felicidade. Sei que um dia vou perdê-la, pois aqui ao meu lado não é seu lugar. Seu lar é no infinito do universo, na distancia do firmamento, quando ela fica olhando pra mim e piscando faceira para minha satisfação em saber que tenho longe do alcance de quem quer que seja, uma cumplice que me enternece e me aconchega nas noites insones.

            Minha estrela, minha mãe que se foi quando Deus a chamou para seu lado, e ela de longe cuida de mim como seu filhinho que sou em corpo e espirito. Quando enfartei ela ficou dando massagens em meu coração até que os médicos chegassem para intervir em meu beneficio. Por isto aguentei três horas de dores e tremores.

            Minha estrelinha continua sorrindo pra mim lá de cima, como se estivesse deitada ao meu lado, cuidando de minha perna engessada. Ah! Como eu a amo!!! E como preciso dela, cada dia mais...

            Minha mãe simplesmente insubstituível. Minha eterna protetora. Meu eu feminino, que a ela um dia, ou no meio de uma noite de trovões longínquos chegarei a ela novamente, para nossa felicidade espiritual.

 

Anchieta Antunes  - -  Gravatá – 25/10/2015

Hoje, dia 25/10/2015 ela estaria completando 115 anos.

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