A Face - por Anchieta Antunes

A Face - por Anchieta Antunes

A     F A C E

 

            Faz tanto tempo que moro no mesmo lugar, que adquiri sua fisionomia. Sinto-me parecido com a velha rua calçada, com a casa precisando de uma pintura nova para disfarçar sua idade provecta; pareço-me com a bodega de seu Almeida, despachando seus fregueses e anotando na caderneta.

            Percebo que adquiri o feitiço do bairro, o andar das caboclas dengosas, o cheiro de “Leite de Rosas”, o  encanto e o enlevo do arrabalde onde todos se conhecem. Quando me olho no espelho vejo a cara das cercanias, dos amigos, dos cachorros latindo sem morder, só para avisar que eles também fazem parte da comunidade.

            Já gastei tantos solados de sapatos pisando nas pedras polidas pelo tempo, que elas tornaram-se minhas amigas e recebem o meu peso com a gratidão de minha presença em seu espaço. Como quem sabe para onde vou, ensinam-me o caminho como se fosse o meu cajado. Todas as tardezinhas quando me recolho, levo para minha velha casa de telhado sem forro todas as lembranças do dia que finda. Quero guardar viva em minha memória todos os acontecimentos da jornada de trabalho. Quero conservar na lembrança o brilho do sol, o aceno da vizinha, o cumprimento do barbeiro, a maciez do calçamento, os buracos das calçadas, o cafezinho na lanchonete do Rodrigão, o flerte de Lindalva, aquela morena linda e provocante (ainda vou terminar casando com essa menina), todas as manhãs bem cedo. Acho  que ela madruga só para me ver passar. Será que sou vaidoso?

            Faço um trabalho gasto pela repetição, pelo enfado do conhecido, um trabalho no qual não se precisa pensar, as mãos agem sozinhas como se tivessem vida própria, independente de minha vontade. Nem sei mesmo o que estou fazendo, apenas preciso de meu salário para sobreviver e paquerar com a Lindalva. Tenho vergonha de chegar junto a ela e propor uma saidinha. Sou tímido em excesso. Tem um cinema aqui perto, podíamos ir, mas para isto preciso convidá-la. E a coragem? Pô! Já estou com 25 anos, não posso cultivar minha timidez; será que existe chá ou reza forte para me curar para sempre? Tem que ser nesta sexta-feira! Se “Cupido” não fosse lenda, ia pedir a ajuda dele. Que nada! _Coragem, meu amigo, digo pra mim mesmo.

            O cinema é antigo, as cadeiras de madeira sem estofamento, e cheias de percevejos, a gente sai de lá com as pernas ardendo, mas fazer o quê? O do centro da cidade é longe e caro. Dá pra mim não! Depois ainda tem o sorvete na pracinha e talvez um saquinho de pipoca. Vai estourar meu orçamento! Não sei como ainda penso em casar! Será que Lindalva trabalha? Vou averiguar.

            Meus colegas de trabalho fazem a mesma  coisa que eu, só muda o carimbo e o documento. Também vivem reclamando da vida. Eu reclamo pouco porque já estou acostumado, também não adianta nada, pra que perder tempo?

            Todo sábado à tarde jogo uma peladinha com o pessoal da fabrica, depois vamos tomar uns goles de cerveja. È nossa grande diversão. Tomar cerveja e jogar “porrinha”  - aquele joguinho com três palitos de fósforo. No jogo consigo fazer uns gols, e de vez em quando tomo uma cerveja de graça. Isto acontece quando ganho na porrinha. É bom demais!!!

            Moro com minha mãe que toma conta de minhas coisas,  como roupa, comida e o eterno zelo de mãe. Terminei o 2º grau na marra. Jamais gostei de estudar. Pra fazer o que faço tá bom demais. Sei ler e escrever, pra que quero mais? Ouvi falar que inventaram um tal de  computador, não sei pra que serve, mas dizem que vai revolucionar o mundo. Que será isso? Só espero que não seja guerra, com essa estória de revolucionar!

            Faz dois dias que  só penso na sexta-feira, tô torando um aço arretado! _Você é um homem ou um saco de batatas? Pergunto pra mim mesmo.

            Fui salvo pelo gongo! No começo do mês comentava com minha mãe, a vontade que tenho de namorar Lindalva. Ela  ouviu calada e calada ficou. Hoje estourou a bomba. Quando fui pra casa almoçar, ela me contou.

            _Meu  filho, você pulou uma fogueira, Lindava trabalha na tecelagem e está grávida. O cara  que engravidou a coitada pediu demissão da fabrica e foi embora, dizendo que não quer  saber de Lindalva nenhuma, nem sabe se é ele mesmo o pai. Dizem que ela dá pra todo mundo lá no trabalho. Você ia ser o primeiro homem a começar um namoro já com um chifre na testa. Que tristeza!

            _Como foi que a senhora descobriu essa resenha toda? Perguntei admirado com a detetive que tenho em casa e não sabia.

            _Faz um tempão que você me disse que queria namorar a mocinha. Caí em campo e fui perguntando a todo mundo quem era de fato sua pretendente. Descobri tudo,  ainda bem!

            _Obrigado mãe. Ainda bem que não gastei meu rico dinheirinho com cinema e sorvete! Vou procurar outra menina que não trabalhe em fabrica, melhor ainda,  “que não trabalhe” . Este mundo tá virado. Não se pode confiar mais em ninguém.

            Dizem que os casais ficam se parecendo mutuamente com o passar do tempo. A bicicleta adquire nossa personalidade, a cama tem o nosso jeito, o cachorro a nossa cara e a  cidade ou o bairro também fica parecido com gente. Neste caso estas ruas e construções ficam parecidas com as caras de um montão de gente, mas só com os moradores antigos. Os novos têm que ficar antigos para entrar no nosso rol de parecença. Não sei se o titulo desta crônica deve ser mesmo – face -  ou semelhança, bairro, Lindalva a prenha, ou  ainda, ruas velhas.

 

            Anchieta Antunes

            1º/08/11.

 

 

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