A Família das Artes - por Maria de Fátima Soares

A Família das Artes - por Maria de Fátima Soares

 

Há muito, muito tempo, logo que o tempo começou a ser chamado de tempo e as pessoas começaram a querer ocupar o tempo com outras coisas, pois não fazerem nada era o tédio e o vácuo completo, apareceram no mundo as artes! Não se sabe ao certo qual apareceu primeiro, se foi a pintura por alguém aborrecido riscar o ar, uma parede ou o chão. Se a música por haver um ou mais, que tamborilassem os dedos numa mesa, ou dessem por si a assobiar. A dança, naqueles dias, em que até o som da chuva mexe connosco. Ou a escrita, que parece vir sempre no fim. Talvez fosse esta, a primeira que nascesse na alma e povoasse o coração.  Fosse a causadora de se pintarem quadros, dançar sem motivo e se encherem lindas pautas com música, sei lá! Seja como for, poderia dizer-se que todas nasceram família. Irmãs umas das outras, por que não? Completando-se e integrando. Protegendo-se. Mas nestas coisas de família sabemos que há sempre uns mais ambiciosos que outros. Aqueles que d’entre todos têm um feitio mais vincado. São empreendedores e livres. Tão livres que procuram a independência do resto.
Na minha história, porque é de uma história que se trata, estas irmãs tomaram conta do quotidiano do mundo. Esse pequeno mundo inicial que começou a ficar pequeno de mais para algumas, que resolveram emancipar-se das outras. Assim, a música entendeu partir para a Áustria. A pintura seguiu-lhe os passos e mudou-se para França. A dança? Bem a dança ficou a fazer contas à vida, ponderar no que gostava da música. Nas saudades que sentia, porém acabou depois de resistir um pouco, por decidir-se pela Rússia e lá foi. A escrita ficou sozinha. Metida consigo, fechada a maior parte do tempo num quarto sombrio, a sonhar e a buscar inspiração na falta das irmãs, ou na sua própria sina. Total impossibilidade de ser como elas. E sempre que as irmãs lhe telefonavam, pediam para as visitar, ela lá ia contrafeita, mas enquanto ficava era redondamente feliz. A dança e a pintura gostavam muito de ela.  Tratavam-na muito bem, mas…

Esqueci-me de dizer que ela e a música tinham nascido gémeas. Cada uma sem a sua “metade” sentia-se vazia. Portanto sempre que a escrita ia à Áustria era um castigo para a outra a deixar vir embora. Fazia-lhe ver como dependia de ela para as letras das suas composições musicais, embora o solfejo seja muito diferente da escrita com letras. Contudo? Uma sem a outra, não funcionavam tão bem como unidas. Na verdade a escrita adorava escrever com um fundo musical, clássico ou não. A outra entoar-se sozinha, ou cantada na voz de algum artista era-lhe igual. Só que a escrita não se habituava aquela vida um pouco boémia que a música levava, sempre até altas horas na rua. A ouvir-se em qualquer bar ou clube. Salão ou teatro. A ela bastava-lhe ficar a um canto a contar histórias, fazer versos, criar mundos inimaginados e personagens ilimitadas. Se ia aos concertos da irmã à outra era dado todo o crédito, poucos se preocupavam com as letras, queriam saber, sim, dos acordes. Ela entristecia-se. A música compreendia e ao mesmo tempo não aceitava como em todo o mundo, havia tanta pessoa a escrever bem, mas passava sempre despercebida, ao passo que se tocasse tinha mais hipótese. Se dançasse era logo agraciada doutra forma. Tida como especial! Até quando pintavam, o podiam fazer num canto qualquer da rua, sem condições nenhumas que “arrecadavam” público. Eram feitas aquisições por vezes de quadros, que eram mimados como obras de arte, que no fundo eram mesmo. Os livros? Não! Ninguém queria saber deles. Das folhas que os completavam. Muitas nem saiam das gavetas. Acabavam no lixo, nunca chegando a serem compiladas, agrafadas, coladas ou cosidas, para alguém mais tarde as ler. E a literatura em vez de reivindicar, encolhia-se e resignava-se. Até quando era rejeitada! Desacreditada por quem a podia divulgar, se calava. Seria sempre assim. Embora houvesse alguns que a elevavam a sítios, donde jamais poderia regressar. Se falassem de nomes que a honravam e deixavam para uma história, de que todas as irmãs constavam, duma forma igualmente meritória. Mas nunca parecia haver tanto desgosto, quando morria um escritor como outra pessoa qualquer. Para ser justa com todas, também ninguém parecia importar-se muito, quando desaparecia um pintor ou músico. Nem se acabava um grupo de ballet e a dança ficava posta de lado. No fundo as pessoas gostavam das artes, mas quando entretanto foram surgindo outros entretenimentos elas foram um bocado relegadas para segundo plano, com um brinquedo usado. Acontecia com o futebol, o cinema, a política. A internet.

 A ciência que entretanto se desenvolvera, também se queixava quando se reuniam todas. Cientistas então eram tidos como loucos, ninguém lhes dava muito crédito. Na verdade o mundo ficara ingrato, para quem tinha criado. Não tratando condignamente as artes, fossem elas quais fossem. A escrita, como parente pobre. Por mais movimentos organizacionais que houvesse a reivindicar melhor tratamento e também verbas, para que pudessem manter-se e evoluir, muitas subsistiam com graves dificuldades. Muitas ameaças. Enfim…

Nunca perceberei porque na minha história podendo dar um final feliz a isto, não consigo, mais, que apontar a verdade. Não, há zelo. Nem respeito! Não, há! Enquanto as pessoas não forem gratas pelas coisas, até ficarem sem elas. E nunca serão. Afinal eu estou só a escrever e como vos contei, a escrita faz-se solitariamente a um canto. Com música de fundo, ou não, mas sempre… Sempre resignada, calada e incompreendida.


Publicado em 18/02/2014

 

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