A festa jamais caira nas brumas do esquecimento - por Joao Paulo Bernardino

A festa jamais caira nas brumas do esquecimento - por Joao Paulo Bernardino

A FESTA JAMAIS CAIRÁ NAS BRUMAS DO ESQUECIMENTO
 

Outubro. Quando já quase todos os produtos da terra recolheram aos celeiros e aos lagares, sente-se agora no ar as vibrações das ruas da cidade ocupadas por mares de gente de todos os lados. É o início da Feira de Outubro e já se sabe que isto de festas é um acorrer de pessoas vindas do Minho ao Algarve. Mesmo por entre a ligeira bruma que acinzenta o ar, todos esperam com expectativa a passagem do gado arroupado entre os cabrestos e comandados pelos destemidos campinos. Depois da azáfama matinal na colocação das tranqueiras de madeira que religiosamente fecham as ruas, os comboios chegavam atulhados de povo para se juntarem aos grandes amadores de touradas e de bom vinho fora de portas que já ocupavam os melhores lugares para verem passar os animais.

O famoso Gineto, meu pai, lá está junto ao gado com os demais campinos, esperando que os foguetes rebentem e anunciem a largada dos animais bravos pelas avenidas da cidade. Vila Franca é, de facto, a terra em que dia de touros nas ruas é dia de enorme festa. Até à libertação dos animais, os miúdos simulam corridas de touros por entre feirantes e vendedores ambulantes que tentam comercializar pequenas figuras em miniatura e toda a espécie de bijuterias. As janelas e varandas de quase todas as casas ao longo do trajecto em que o gado será encaminhado muito em breve até ao destino vestiam-se com as suas melhores mantas e eram um fartote de jovens e velhos orgulhando-se de tão belos adornos. Todos estavam radiantes e nos seus olhos bailavam lágrimas de alegria. 

Os morteiros de aviso fazem-se ouvir. Começou a festa. As pessoas vibram e soltam-se gritos como se quisessem afastar o nevoeiro que ainda se fazia notar e, simultaneamente, afastando algumas temeridades. A algazarra e a alegria esvoaçam no ar. Os touros levantam túneis de poeira atrás dos campinos de gala. Visto à distância, touro e campino, convencemo-nos de que as feras rasam o solo com o ventre na distensão da galopada. O efeito é grandioso, único. A cidade está toda ali, nas ruas banhadas de areia, ansiando a passagem dos bichos bravos. Os mais valentes enfrentam-nos, parando à sua frente para os retardar e animar o momento. Num espaço enorme, em que a besta não reconhece classes de gente em quem marrar, todos querem ser toureiros, já não apenas projectando-se nos diestros, mas sendo artistas-participantes. Meu Deus, que grande dose de coração! Que venha touro negro à cornada e os mais atrevidos surgem de toda a parte: desde os ciganos de carriagem, turistas e campistas, ao mais nobre homem de negócios. Há muito de ilusão nestes improvisados toureiros, a quem os touros se voltam aos que se dizem mais destemidos. Se não houver buraco ou candeeiro providencial, nada os salvará. Mas isto é festa, a verdadeira identidade desta gente que ama a sua terra, tal como me foi incutido por meu pai Gineto que Soeiro Pereira Gomes tão bem celebrizou nos Esteiros. No fundo, também ele é um marco vivo da história da cidade. Hoje, bem mais velho e longe dos telhais onde trabalhara em criança, Gineto é campino. Todo o ribatejano que se preze é campino, diz-me constantemente. Acredito, pois tem no sangue, a denunciar-se, uma proveniência sarracena que em tudo se lhe acusa. Afoito e valente diante das hastes nuas das manadas de touros, com o seu calção e meia de lã grosseira, jaleca ao ombro e rublo colete, passa os dias nas pastagens tufantes da lezíria, onde manadas de cavalos e bois correm à solta. Todos os dias lá está ele na outra margem do maravilhoso lençol líquido que é o Tejo, cuidando das manadas de gado bravo. Toda aquela lezíria é para ele e para mim uma positiva maravilha. Os salpicos negros na planura dão-nos imediatamente a vaga sugestão duma virgindade que ainda não corrompemos, dum primitivismo que nos dá força nova e traz à nossa memória as histórias de bravura e de virilidade de campinos como Gineto, as silhuetas desses animais com o cheiro da morte apegado à beleza que singularmente possuem. De facto, creio que o povo que a habita é único: são poetas que dão à lezíria toda uma vida própria, inconfundível. Com ela, tem-se a agradável sensação dum vale do Nilo. Para Gineto, esse é o seu verdadeiro mundo, do outro lado do rio onde a minha mãe conserva ainda um negro saveiro que, nos dias que correm, apenas serve de lembrança da sua dura vida como varina. Tenho orgulho nela, naquela varina que, tal como toda a comunidade avieira, tanto tem honrado a tradição da cidade. Todos os dias faz o mesmo: pela manhã espera o peixe que a canoa do Ti-Zeca há-de trazer e, depois de carregada a canastra, presta-se a oferecer na banca do mercado municipal o seu peixe fresco, com a sua voz cristalina e cantante. Depois, durante a tarde, encontra ainda tempo para cuidar da singela casa e arranjar convenientemente a roupa de meu pai até que, quando tudo está em ordem, prepara a sua deliciosa açorda de peixe do rio. Uma delícia, com as ovas e os fígados misturados com o pão demolhado e fervido na água que cose parte do peixe.

E é já depois da largada de touros terminada e de noite cerrada que a Feira de Outubro se torna no elemento mais divinal. Em Gineto palpita todo o seu coração, não parando de falar das suas fugas pelos esteiros negros quando jovem só para ver Rosete na pequena barraca de tiro. Esta é a altura do ano que mexe com qualquer pessoa já que a alegria da feira forma a moldura de um quadro de inconcebível magnitude. É ali que os rapazes adoram confrontar as jovens perdidas de amores e dessoradas de beatério que caminham de almas ingénuas a caminho da feira onde o divertimento parece promover o amor à categoria do sagrado. Ah!, e as barracas dos tiros, as suas casas ambulantes e o fantástico circo – quão engraçados são os elefantes e os leões que monopolizam a atenção de pequenos e graúdos-, o artesanato regional, a roleta de cigarros e a banca do algodão doce. É ali que é ver-se tirar o ventre da miséria, comendo polvo assado na barraca do ano antes da ida ao circo, andar nos cavalinhos ou nos carros-de-choque e comprar um traste das Caldas. Não há nada igual.

A noite vai alta mas o recinto da feira é pequeno para conter tanto povo. Um berreiro infernal envolve-o, principalmente o proveniente dos imensos altifalantes. A música dos carrocéis atroava o ar, juntamente com a voz do vendedor de roupas no cimo do seu camião. No bolso contam-se as moedas. Mais uma volta no carrocel não faz mal a ninguém e alegra a alma. A miudagem, essa é intensa: uns acompanham os pais, outros preferem estar sozinhos ou com os amigos. Afinal, tal como Gineto nos seus tempos de criança onde, juntamente com os seus amigos Gáitinhas e o Coca, o Arturinho e o Sagui, tantas brincadeiras lhe encheu a infância, também hoje os mais novos podem sentir e viver qualquer coisa de vibrante que jamais esquecerão. É ali, por entre barracas de artesanato e divertimentos de toda a espécie, que se encontram para preservarem e devolverem a velha trama de tradições. Todos têm um lugar franco na Feira de Outubro, entre barracas de loiças, quinquilharias, estribos e chocalhos, barracas de petiscos, eiroses fritas e enguias ensopadas, tudo bem regado com encorpados vinhos ribatejanos, sob o fumo adocicado das farturas quentes.
Gineto percorre-a palmo a palmo, como sempre. O encaminhamento dos touros para os curros da Praça de Touros há muito que acontecera e em breve seria um novo dia. Mas ainda era tempo de passear comigo e com a minha mãe – ela quer comprar um gergelim numa das barracas alumiadas a bico de acetilene – para logo depois poder mostrar às gentes como se dança o sapateado no rancho folclórico. Daí que o admire quando após um dia de grande tarefa se apresenta incansável no baile-de-roda, apostado a levar de vencida os parceiros no retorçar e no galantear. Mas antes, a barraca de tiro. A recordação de Rosete é-lhe mais forte. Afinal, foi ali que a conheceu, que a amou verdadeiramente. A Feira é toda ela uma verdadeira agência de casamentos, onde o ribatejano arredonda os olhares matreiros pelas cachopas, que aos grupos coloridos vêm animar a feira. Eu sou um deles, juro! E hão-de fechar as últimas barracas, ficarem vazias as pipas e as frigideiras, extinguir-se o último sopro da sanfona que dá música aos carrocéis e ainda o feirante da ramboia, e todas as raparigas ainda se manterão frenéticas, ímpares e sensuais, seguidas pelos garotos, até às tertúlias onde reinam os fados e guitarradas, acompanhando a voz dolente dos fadistas da terra, cantando versos de amores, da bravura dos campinos ou de famosos feitos ocorridos na lide dos touros.

A multidão, esgotada por tantas emoções recebidas, caminha cambaleante ao longo das ruas da cidade iluminada, relembrando um dia cheio de vagas de energia. Mais logo, pela manhã, voltarão a repetir tudo com a mesma satisfação, deixando passar os homens de coletes encarnados e barretes verdes ondulantes, cavalgando desabridamente seus fogosos ginetes, soltando das ponteiras metálicas dos seus pampilhos revérberos do sol faiscante da manhã. E, pela noite, voltarão à feira que tanto amam para que a história não se perca nas brumas do esquecimento.
“Quem quere ir p´ra freira?!... en, gentes?!... Quem quere ir?!..:”

 

João Paulo Bernardino - Escritor

 

 

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