A Função Filosófica na Perspectiva de Félix em Busca do Ser Humano - por Carlos Vargas

A Função Filosófica na Perspectiva de Félix em Busca do Ser Humano - por Carlos Vargas

A Função Filosófica na Perspectiva de Félix em Busca do Ser Humano

Carlos Vargas[1]

 

Há alguns anos, publiquei um artigo sobre “o desenvolvimento das funções filosóficas a partir da Antiguidade” (VARGAS, 2006). Retomarei um raciocínio daquele trabalho para refletir sobre Félix Raimundo, protagonista do meu livro: “Félix em Busca do Ser Humano” (Chiado Editora, Lisboa, Portugal).

“Pierre Hadot mostrou que a noção de filosofia como uma maneira de viver era fundamental no desenvolvimento das filosofias grega, helenística e romana. A “função filosófica” (SELLARS, 2004) também era uma maneira de viver (PEREIRA, 2002) ou uma “forma de vida” (HADOT, 1995, p. 49-70). Esta busca de uma transformação pessoal foi a principal característica da ética filosófica da Antigüidade (SELLARS, 2004).

Sellars no seu trabalho sobre a natureza a e a função da filosofia, na qual discute a relação entre filosofia e biografia, apresenta um status quaestiones desta interpretação de Hadot da maneira filosófica de viver, destacando o conceito de “exercício espiritual” (SELLARS, 2004, p. 111).

Destas pesquisas sobre história da filosofia, constata-se que nas sociedades grega, romana e alexandrina, a filosofia era assumida como um modo de vida completo (HADOT, 1995). A atividade do filósofo nem existia como profissão socialmente instituída, pois não estava propriamente relacionada com nenhuma necessidade prática. Mesmo quando o filósofo assumia uma posição social que lhe dava funções práticas, não era isso que lhe caracterizava essencialmente como filósofo, como se percebe em Platão (FRIEDLÄNDER, 1964). O filósofo era um sábio em potencial (SELLARS, 2004).

Uma maneira de abordar a questão da “função filosófica” foi assumida por SELLARS (2004). Depois de discutir a relação entre “vida” e “arte” (“tecné”) na filosofia antiga (SELLARS, 2004, p. 15-106), desde a origem socrática da “arte de viver”, passando pelos diálogos platônicos (“Apologia de Sócrates”, “Alcebíades” e “Górgias”), Sellars prossegue para a interpretação que Aristóteles fez desses ensinamentos socráticos. Em seguida passa para a concepção estóica de “arte de viver” e, depois, mostra as objeções céticas, destacando Sexto Empírico.

Esta concepção filosófica, que Sellars, baseando-se na etimologia, chama de “técnica” (SELLARS, 2004, p. 167), exige um vínculo entre filosofia e biografia que se expressa primariamente nas ações do filósofo que cultiva a virtude excelente (“areté”), no sentido socrático, visando alcançar uma disposição ideal da sua alma que pode ser chamada de sabedoria (SELLARS, 2004, p. 168).

Os exemplos desta concepção antiga de função filosófica poderiam ser ampliados. Pierre Hadot destaca a “figura” de Sócrates (HADOT, 1995, p. 147-78; PEREIRA, 2002), mas pode-se ampliar para o platonismo (PEREIRA, 2002) e, ainda, encontrar o exemplo dos estóicos (PEREIRA, 2002; SORABJI, 2003), especialmente Sêneca (HADOT, em Marco Aurélio (HADOT, 1995, p. 179-205), assim como o ascetismo de Plotino, o qual está, segundo HADOT (1998, p. 78), em conformidade com a maneira filosófica de viver que já era que já era “tradicional”.

É esta maneira de filosofar e viver (HADOT, 1995; SELLARS, 2004) que será desenvolvida infra. Antigamente, toda autoridade intelectual da filosofia dependia do fato de que os filósofos eram seres humanos que observavam a natureza humana, e lhe davam uma forma ordenada. Foi assim nos primeiros séculos da filosofia. Sócrates tornou-se o modelo desta atividade, pois estava constantemente coletando informações para depurá-las filosoficamente como conhecimento (HADOT, 1995; PEREIRA, 2002). Os filósofos observavam como as pessoas ordenavam as suas vidas para saber qual era a maneira mais sensata de organizar a própria vida. A filosofia era amor à sabedoria (SELLARS, 2004).

Não existe um objeto que corresponda à ideia de filosofia antiga independente disso (HADOT, 1995). Seu primeiro objeto era o aperfeiçoamento da vida humana e as outras coisas eram objetos filosóficos em função dela (SELLARS, 2004). Por isso que o filósofo precisava mudar sua vida segundo os critérios de sua filosofia, senão estaria fazendo outra atividade. Enfatizamos que esta necessidade era própria da filosofia. Sócrates chegou a renunciar a bens mundanos, como posições sociais e cargos políticos (FRIEDLÄNDER, 1964; PLATO, 2002), a fim de desenvolver as virtudes relacionadas a sua filosofia. Além disso, essa coerência entre filosofia e vida é encontrada em Aristóteles (ZUBIRI, 1970), nos socráticos menores, como Diógenes, o Cínico, famoso pelo seu radicalismo (LAÊRTIOS, 1977, p. 157-73), e Epicuro, que adaptou sua vida para a busca do prazer e da amizade (LAÊRTIOS, 1977, p. 283-322).

O mais notável exemplo talvez seja aquele dado por Platão, o qual possuía certas ambições sociais antes de encontrar Sócrates e de conhecer as reflexões filosóficas sobre a virtude:

Quando eu era jovem... minha experiência foi a mesma de vários outros. Pensei que assim que tivesse autonomia, deveria entrar imediatamente na vida pública” [2](FRIEDLÄNDER, 1958, p. 3).

Entretanto, o encontro com o mestre, Sócrates, provocou mudanças coerentes no conjunto da sua vida, pois suas metas foram redefinidas(VARGAS, 2006).

E a personagem Félix Raimundo, protagonista do livro “Félix em Busca do Ser Humano” (VARGAS, 2014)? Apresentamos a sinopse do livro “Félix em Busca do Ser Humano” para que os leitores possam fazer a reflexão sobre a relação entre o perfil de Félix e a noção de “função filosófica”:

"A maravilha nem sempre está no mundo, mas está nos olhos de quem se maravilha ao ver o mundo. Estes contos descrevem situações cotidianas, mostrando a busca de Félix Raimundo pelo ser humano, seguindo o exemplo de Diógenes, mas trocando a lâmpada acesa do cínico pelas palavras iluminadas na fé. Félix não busca um ser humano abstrato, mas quer encontrar, acima de tudo, alguém que possa viver concretamente a amizade filosófica.

Na sequência dos diálogos, o protagonista conversa sobre vários aspectos da vida humana. Ele enfrenta questões desde a gravidez até à morte, passando pelas escolhas profissionais e pelo casamento. O jovem estudante apresenta um contraponto filosófico a determinados modismos culturais. Como acontecia com Sócrates, nem sempre o resultado é vitorioso, mas a perseverança intelectual é maior do que as desilusões do caminho.

A busca da verdade, por meio da amizade filosófica, é um ideal que nunca deixou de existir, indo além dos limites do jardim epicurista. A amizade que Félix tanto busca não é simplesmente desinteressada, mas pretende construir os fundamentos do bem comum, que vai brotando devagar, indo além das motivações iniciais. A maravilha da amizade filosófica é descobrir até onde vai esta busca..." (VARGAS, 2014).

É interessante comparar Sócrates e Félix Raimundo, pois s diálogos foram, desde a Antiguidade, uma forma de apresentar ideias filosóficas que nascem da conversa amiga. Entretanto, Félix Raimundo não foi apenas inspirado em Sócrates. O nome do herói dos contos publicados em “Félix e as Maravilhas do Mundo” (VARGAS, 2014) e a ênfase cristã do seu pensamento remetem-se à obra "Félix ou o livro das maravilhas" do filósofo e teólogo Raimundo Lúlio (2009). A comparação entre o Félix brasileiro e o Félix espanhol exige novas reflexões filosóficas.

 

BIBLIOGRAFIA

 

FRIEDLÄNDER, Paul. Plato: An Introduction. Trad.: Hans Meyerhoff. New York: Eveston: Harper & Row, 1964. 422p. 

HADOT, Pierre. Philosophy as Way of Life: spiritual exercises from Socrates to Foucalt. Trad.: Michael Case. Oxford: Blackwell Publishing, 1995.

________. Plotinus, or the Simplicity of Vision. Trad.: Michael Chase. Chicago: University Press, 1998. 145p.

LAÊRTIOS, Diôgenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Trad.: Mário G. Kury. 2a ed. Brasília: Ed. Unb, 1977. 357p.

LÚLIO, Raimundo. Félix – O Livro das Maravilhas – Parte I. Trad.: Ricardo Costa. Instituto de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio: Editora Scala, 2009. 242p.

PEREIRA, Bianca C. Exercícios Espirituais: Pierre Hadot, Michel Foucault e a filosofia como modo de vida. Rio de Janeiro: IUPERJ, 2002.

PLATO. Apology of Socrates and Crito, with extracts from the Phaedo and Symposium and from Xenophons’s memorabilia. Trad. Thomas D. Seymour et Louis Dyer. New Jersey: Gorgias Press, 2002. 256p.

SELLARS, John. The Art of Living: The Stoics on the Nature and Function of Philosophy. 2004.

SORABJI, Richard. Emotion and Peace of Mind: From Stoic Agitation to Christian Temptation. Oxford: University Press, 2003. 512p.

VARGAS, Carlos E. O desenvolvimento das funções filosóficas a partir da Antiguidade. Tabulae, Curitiba, 2006.

________. Félix em Busca do Ser Humano: Contos Filosóficos. Lisboa: Chiado, 2014. 64p.

ZUBIRI, Xavier. Cinco lecciones de filosofia. 2ª ed. Madrid: Moneda y Credito, 1970. 284p.

 


[1] Doutorando e Mestre em Filosofia pela PUC-PR. Graduado em Matemática pela UFPR, atua como analista do IBGE. Foi professor de Filosofia e Matemática em cursos das Faculdades Integradas Santa Cruz de Curitiba. Autor de “Félix em busca do ser humano” (Chiado Editora, Lisboa, Portugal), também é coautor de coletâneas de contos e poesias (Editoras Scortecci, Delicatta e CBJE).

[2] No original: “When I was young... my experience was the same as that of many others. I thought that as soon as I became my own master I would immediately enter into public life”.

 

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