A Gula - Tsunami - por Fernanda Comenda

A Gula - Tsunami - por Fernanda Comenda

A GULA

TSUNAMI

Vânia é uma rapariga bonita, de olhos verdes, mas de um verde brilhante que parece que abarca toda a natureza do mundo, cabelos pretos e compridos. No entanto, o seu corpo é disforme devido à gordura. Ela não foi sempre assim…ela era elegante, mas a vida deu voltas e ela foi-se transformando!

Todos os dias passa pela Pastelaria Maravilha, entra, senta-se e come dois pastéis de nata e bebe um galão…olha para a senhora que está por detrás do balcão e com um sorriso meio envergonhado diz:

- São pastéis de nata, não engordam muito…

-Pois – diz a senhora sorrindo – precisamos de nos oferecer miminhos…

Vânia levanta-se e pede para embrulhar dois queques, uma bola com creme, um rim e umas miniaturas e diz: -- são para uma pequena reunião na minha casa com umas amigas.

A empregada da pastelaria olha-a com desaprovação e despede-se.

Vânia chega a casa e passada uma meia-hora come metade dos bolos.

Pouco depois é a hora do almoço. Não tem fome, mas aquela massa com carne que a mãe está a fazer, cheira tão bem…. uhm…vai comer e come bem…

São horas de ir para a faculdade, não lhe apetece nada, sente-se pesada, cansada, cheia, mas faz um esforço e lá vai….

O seu namorado, Paulo, espera-a…ele também é gordo. Comer é uma distração para os dois.

Passam meses, a vida continua exactamente igual, comer, dormir e estudar.

Vânia e Paulo resolvem ir viver juntos. Então começa uma vida de amor e comida…

Ambos os pombinhos estudam até tarde, a fome começa a apertar aí por volta das duas da manhã. Paulo gosta de cozinhar seja a que horas for, ele quer é comer…a essa hora começou por preparar uma omelette, mas a pouco e pouco começou a elaborar pratos mais complicados: uma noite foi um guisado de carne de vaca com esparguete; outra noite uma feijoada; mais outra noite, arroz de pato e de noite para noite os pratos vão-se sucedendo e eles comendo, cada vez mais gordos, cada vez com menos vitalidade, cada vez mais o amor fica para trás e a gula avança, mas o corpo não perdoa!...

É verão. Vão de férias. O calor aperta, então são gelados atrás de gelados, comida atrás de comida…

Regressam, vêem as fotografias. Ficam abismados…que feios e gordos estão!...

Pensam duas vezes, a dieta tem de ser feita. Começam. É um sacrifício enorme!

Paulo, numa noite, sonha que está numa sala cheia de comida. É carne de aves, de vaca, de porco, cozinhada com batatas, arroz, ervilhas, e mais e mais ingredientes... nesse chão também não faltam doces: bolos, pudins, arroz doce, frutas e pratos cozinhados e apresentados de tal forma inimagináveis e fantasiosos.

Paulo vê-se com Vânia saboreando tais iguarias…mas a beleza e prazer da cena, dá lugar ao fantasmagórico: a comida começa a crescer, a crescer e eles a ficarem submersos naquele mar de repasto. Paulo sente-se a sufocar, já não vê Vânia, quer salvá-la mas esta já desapareceu levada por uma vaga de pudim e mousse de chocolate…

Paulo começa a ouvir um barulho: õõõõpumpumpumcatapumcatapumprapraprazumzumzum… os seus olhos abrem-se demasiado, deixando transparecer um brilho aflitivo e desesperado, a sua boca escancara-se  e uma onda gigantesca de carne moída, peixe moído, batatas, arroz, feijão verde e grão, tudo misturado com molatof pintado de creme de caramelo vai sugá-lo…é um tsunami de comida que o devora…

Paulo acorda e vê que Vânia que está ao seu lado, não dá acordo de si…Vãnia morreu, a gula foi mais forte e a sua vida foi-lhe roubada…

 

FIM

 

 

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