A Impiedosa Rotina - por Maria de Fátima Soares

A Impiedosa Rotina - por Maria de Fátima Soares

A IMPIEDOSA ROTINA

 

Não há nada! Nem o mais puro e eterno amor, jurado, resiste à convivência diária de dois seres humanos. Tem de existir mais. Muito mais, depois. Todas as ideias românticas e melhores atributos do outro, empalidecem e perdem-se total e rapidamente na vivência em comum. No tempo que decorre.

Todos cheiramos mal, para lá do que idilicamente se escreve sobre o odor da pele desejada e as variadas essências comerciais, vulgo perfumes, nela. Todos lavamos os dentes e é nojento.  Tossimos, escarramos e... não é bonito. Ressona-se, têm-se os mais variados e estúpidos rituais caseiros, que tiram do sério qualquer santo, quanto mais a um reles humanóide.

Por mais que se ame! Se idolatre... o tempo e a sua acção rasga e destrói, todas as declarações de paixão. Vai lapidando todas as boas intenções de antanho. Somos tão, mas tão patéticos no dia a dia, que longe dos outros ninguém vê as nossas manias e falhas. Os nossos piores defeitos, como animais que somos afinal e idealizam-se e diminuem-se, no arrebatamento da paixão, não nos passando pela cabeça as nossas várias manifestações de existência grosseira, que o ser amado também possui. Tantas... ou piores. Porque há sempre quem nos surpreenda e nem sempre pela positiva. 

O amor exaltado, só, não é capaz de contornar certos "obstáculos" dos hábitos humanos de cada um. Logo: Seria bem melhor reduzirmos quem nos agrada ao seu real peso! Ao olharmos para alguém fisicamente "incrementado" em relação aos restantes, vermos para além do rosto. Do corpo perfeito que, infalivelmente defeca, também. É humanamente, perecível. Tão rudimentar ou desagradável, nos seus "atributos" escondidos, que infeliz ou implacavelmente, o tempo no-lo revelará. E ainda assim... É bom amar! Amar alguém que seja igualmente imperfeito dentro da sua perfeição, como somos todos! Uma tremenda imperfeição.

Talvez o amor... Amar? Seja, então isto. Resistir! Conseguir ir para além do desgaste do tempo e das suas cínicas revelações, sobre o carácter do ser humano que demos por nós a amar! Aquele que (endeusamos, mas no fundo, é como nós) pensávamos conhecer e desconhecíamos totalmente. Sim! Amar é compreender. Permanecer. Perdoar e aceitar os defeitos. Fraquezas, manias, tiques, rituais, tudo o que cada um de nós pratica, no dia a dia e fica nos bastidores, que se mostrássemos? Se aparecêssemos aos outros tal como somos de manhã ao acordar, por exemplo, ou quando se corre sem "etiqueta" para uma casa de banho desesperados, porque nos dói a barriga... Teve um percalço e não chegamos a tempo, acabaria com todo o romantismo. Depauperaria uma relação. Mas, isso e tudo o que vem por acréscimo? É somente a realidade grotesca de termos nascido. Somos "entulho" empacotado... E sabê-lo? Não deve acabar com qualquer tipo de romantismo. Se o amor é amor... a ele nunca importará a acção, ou revelações do tempo. Mas talvez se projectássemos o futuro. O antecipássemos ao conhecer alguém que nos toca, muito "enlace" ou relação não se daria. Então, é melhor assim...

 
 
 
 
 

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