A inocência dos sonhos - Cidade - por Francisco Luís Fontinha - PT

A inocência dos sonhos - Cidade - por Francisco Luís Fontinha - PT

De esqueletos mórbidos estou eu farto, dizia-se doutorado pelos bares nocturnos da cidade plantada na copa de uma árvore a que todos chamávamos

Inocência dos sonhos,

Pouco tempo depois, via-o passear-se junto às acácias salgadas do primo Augusto, as imagens floriam nas paredes viscosas das noites sem estrelas, e de madrugada, quando todos os buracos encerravam, fazia-se arrastar pelos braços de duas sombras com asas, e lilases olhos, e

Inocência dos sonhos, talvez um dia, dizia ele, regressamos ao eterno jazigo de prata onde moram os nossos pais, e eu acreditava

Que os meus irmãos eram loucos,

E

Inocência dos sonhos, a cidade plantada na copa de uma árvore, debaixo dela brincam crianças de cabelo castanho, meninos, meninas, homens, mulheres, silêncios de oiro, rios cansados de regressarem ao mar das oliveiras, entre a montanha dos pilares de areia e a táctil mão de desejo que ela, a minha única irmã, transportava para as cavernas do ciúme, havia a noite, triste, e tínhamos acabado de perder todas as estrelas do céu, penhoradas as nuvens, pergunto-me

Que faço eu aqui? Não sei, mas tenho a certeza que os meus irmãos são loucos, e que as acácias salgadas do meu primo Augusto são processos revolucionários em curso, doutorados pelos bares e caves da cidade, ouviam-se gemidos de luz quando atravessava de eléctrico cidade, a mesma cidade a que todos chamávamos

Cidade da inocência dos sonhos,

Alguns azuis, outros, outros encarnados, confesso, gosto do vermelho, mas prefiro o negro, a noite é negra, os buracos negros, evidentemente, são negros, gosto, adoro, amo, as palavras pretas e pretos que voam dentro dos meus poemas, amo as cidades negras vestidas de branco e inventadas pelas mãos de uma criança negra, preta, húmida

A cidade

Toda nua,

E

Às vezes,

E às vezes ouviam-se orgasmos de mel nas colmeias dos sótãos perdidos nos edifícios perdidamente apaixonados pelos carros em miniatura que o menino António trazia nos bolsos do bibe, chegava à escola, e de bata branca, senta-se numa carteira carunchosa, velha, a mesma onde se tinha sentado o pai, o avô, e o tio Francisco, que diziam ser louco e que depois de ter vivido dez anos na Coreia do Norte, nunca

A cidade

Toda nua,

Às vezes, e dizem que nunca mais apareceu, evaporou-se, como as lâminas de barbear que o aldrabão do meu vizinho me vende, riscadas, velhas, com as janelas extintas em fios de aço, ouviam-se todas nuas

As árvores onde vivia a cidade da inocência dos sonhos, quinto andar – esquerdo, ao terminar o dia, esperava-a à porta da galeria falida onde ela teimava trabalhar, sabendo que as paredes

Nuas, todas nuas

Como os pássaros que viviam no meu pobre sótão, coitado, com um cadastro infernal de doenças, diabetes, colesterol, próstata e nunca esquecer o reumático, e ainda eu não tinha chegado ao primeiro andar já ele em queixumes e aos gritos que às vezes eu não sabia se ele estava mesmo doente, se ele se fingia de doente ou pior, se ele estava grávido e a dar à luz

Eu suava, subia dois a dois, os degraus envelhecidos da madeira ranhosa que o velho Fernando deixou quando partiu para a aventura dos montes de areia, sabia-o e sabia-a, ouvíamos docemente o choro de um recém-nascido, e eu, acreditava

Sim, vou ser pai

E ouviam-se do quinto andar – esquerdo, ao terminar o dia, esperava-a à porta da galeria falida onde ela teimava trabalhar, sabendo que as paredes

Nuas, todas nuas

São gémeos,

E juro que ainda hoje não acredito que de um sótão envelhecido, doente, perdido numa cidade que vive sobre a copa das árvores

Tenham saído os meus queridos irmãos,

Loucos,

Pareciam-se como os outros sótãos da cidade, o mesmo rosto, o mesmo tamanho, a mesma cor, e loucos

E que nunca mais apareceu o tio Francisco.

 

(ficção)

Francisco Luís Fontinha - Alijó

 

Publicado em 19/01/2014

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