A Medusa - por Maria de Fátima Soares

A Medusa - por Maria de Fátima Soares

A MEDUSA

 

A inveja é uma doença. Padecia de ela fazia muito tempo. Agudizara-se desde cedo na escola dos outros miúdos que não suportava! Cimentou-se em adolescente e agravou-se em mulher. Cresceu e aprofundou-se sempre que lia... E um dia, leu-a e invejou-a!

Inveja-lhe as linhas, o branco da página, a marca do computador, o sistema operativo. A imaginação e a loucura! Se também sempre fora louca, por que tinha a outra um tipo de loucura melhor que a sua, que lhe permitia encantar outros e até a si própria com as suas palavras e sentir? Dava-lhe vontade de assassina-la. Eram tão parecidas, pensava!

Menos no rosto. No corpo, na língua, no feitio, nos objectivos. Na perfídia! Mas ambas tinham mãos e pés! Os seus serviam-lhe bastamente, para estender cuecas! Coçar o alto da moleirinha. Dar pontapé em pedras, que terminavam em charcos de água parada. Portanto, quieta, esperou...

Tinha de existir algo, que destruísse a outra sem dar muito nas vistas, perante a plebe que assistia sem ligar. Durante todo o tempo de planeamento, invejou-a! Invejou-lhe os dias e as noites. O homem e os filhos. As letras e a tinta que usava, para a desenhar. A pontuação a mais, ou menos e... Eureka! Aí, começou a pensar. Engendrar o seu plano: Não podendo ser ela e ter tudo que tinha, mesmo que a outra procurasse qualquer coisa que lhe faltava, roubá-la-ia! Mesmo o que não tivesse. Idealizasse. Roubar-lhe-ia os sonhos! Ideais. Dinamitar-lhe-ia a essência. Tudo que pudesse fanar-lhe, fê-lo! Roubou-lhe a tranquilidade, os amigos, aquele que lhe foi apresentado apenas por capricho a princípio! Puro, gozo.

Ela estava farta de ter homens! A outra não, mas "tirou-lhe" o que conhecera através dela. Se ele constituía um sonho... Destrui-lo-ia! Ela! A poderosa. Que tinha todos os homens que eram seus, saídos de um gargalo. Caíam-lhe no colo, depois de tanta volta dada à volta de bolas de espelhos em discotecas rascas, cuja música tapa o som da voz! Ou provenientes de máquinas em que a moeda nem sempre devolve o prémio! Ela tinha-os. Eles a si. Mas não os segurava na cama, nem na vida. Via-os partir depois de usá-la e chorava! Encharcava-se em pílulas. Afogava-se em dor e em litros de sangue, dos golpes que fazia nos pulsos. Médicos, ajudas e internamentos, nunca pareciam chegar! Pais que não compreendiam que o que ela tinha! Ela... Só tinha inveja. De todos os outros que pareciam felizes na sua vida modesta. Ela só se desgraçava mais, com as suas manhas horizontais... Que já não resultavam. Os copos de bebida e tudo fácil. Foi assim que lho roubou, porque ele era fácil! De roubar. Contentar, com pernas abertas, Cd's gastos. Copos de vinho, chávenas de café amargo e côdeas de pão. Facilmente se reviu nas lâminas com sangue. Seringas e dor. No lado obscuro do dia, consumado na podridão de uma noite cerrada, que a outra descrevia tão bem e trazia na alma, sem descer a certos tipos de inferno escuso e mal frequentado! Até isso lhe invejava. Maldita! Procurando tanto, o que não sabia procurar, tinha sempre tudo de seu muito próprio, tal como o dom e o inferno, pessoal e intransmissível!

Perseguiu-a! Difamou-a. Enganou, trapaceou e roubou-lhe tudo que jurou fazer! Foi ganhando terreno, espalhando mentira alegando "verdades" protegidas com látex. A outra adorava crianças, animais, causas. Raios, a partissem. Maldita! Escrevia. Publicava. Mas... Escrevia mal. Era péssima no que fazia. Ela era melhor! Por isso escreveu. Também! Publicaria e suplantaria (nunca seria) igual à outra (jamais)... Que não invejava, repetia (para se convencer) e a quem aparecia. Não perdia pitada do que ela fazia. Escrevia. E... Se não fosse a outra? Ela nunca teria escrito! Pois, mesmo a história que escrevera... Fora a "outra" que lha inspirara. Alterada a contento, pelo seu cérebro doente e faminto de afecto! Invejosa, por não ser uma pessoa de verdade! No fim de contas, ser como todos que ela inveja, mas diz que não! 

 

  

 

 

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