A morte lenta de um sonho - por Eliane Reis

A morte lenta de um sonho - por Eliane Reis

A morte lenta de um sonho

 

Era um sonho menino ainda, um pouco tolo e inocente. Ele não sabia medir o perigo, olhava do alto da colina todo aquele imenso mar a sua frente e só pensava em como poderia ser feliz se saltasse. A um passo, estava o voo, a um passo, estava a sensação cômica e inédita de liberdade.

Embora tivesse notado, a sua volta, as paredes frias que poderiam interromper o voo, ele não hesitou. Apenas via o sol que tocava o distante, era como um imã. Assim, tomado de uma turbulenta coragem, saltou!

Durante o voo, aquele tímido sonho viu, por entre flores e folhas; águas e montanhas, a vida que não se intimidava perante as intempéries e desgastes que o tempo e o homem impunham a ela. E ele foi feliz. Ligeiramente feliz. Docemente feliz. Sentiu-se completo na sua virgem liberdade que se estendia pelo infinito céu.

Lá, bem do alto, ele avistava a vida, mas também as prisões que mais pareciam caixas gigantes – eram as molduras dos sonhos covardes, dos sonhos que preferiram não arriscar o salto.

Ele voou sem pressa, sem medo, sem nenhum arrependimento. Voou. Lançou-se na imensa claridade de tons poéticos que o céu havia lhe reservado. Enquanto suas asas tinham forças, ele deslizava pelas nuvens, deslizava pelo vento e dançava com andorinhas esperançosas.

Ele tinha convicta consciência de que a força que alimentava suas asas poderia acabar, tal como tudo tende a findar. Mas, sonhos costumam não se importar com o depois, o voo longo e ousado era o suficiente naquele momento. Bastava saber que muito havia por ser desvendado, bastava sentir a pele morna, que se aquecia de um sol receptivo.

Era um momento de sã loucura. Saltar era preciso. Voar era preciso. Sonhos sem asas são espécies mortas e inúteis.

Bastavam aqueles instantes carregados de uma eternidade inventada, dessas que poetas costumam criar.

Porém, meu caro amigo, o previsto aconteceu.  Eu pude ver do alto da minha cumplicidade insignificante. Não podia fazer nada, não estava sob meu controle aquele personagem ingênuo e apaixonante que vestia uma roupa tecida de pétala e ferro frouxo.

Aos poucos, suas asas, que mais pareciam pipas alegres e coloridas, foram perdendo a força, e ele caiu em um penhasco profundo, onde só existia um eco.

Sentia que elas sangravam, isso deu para notar, porque sua feição já não esboçava prazer, mas dor. Era uma substância quase secreta o sofrimento que o condenava; era tímida, mas era dor.

Creio que ele já soubesse como seria, entretanto isso não foi o bastante para impedi-lo, no momento em que saltou, já que a ânsia de conhecer aquilo que o coração já conhecia por intuição fora maior. Ferimentos podem ser insignificantes perante um mosaico belo.

Sangravam e não havia nada que eu pudesse fazer. Estavam feridas e a morte era iminente, seria inevitável.

Então, ele, sem nenhum arrependimento, resignado ficou quieto e imóvel. Não lamentou a queda, menos ainda as lacerações em cada uma de suas asas. Elas sangravam discretamente, amiúde.

Pensei em descer às escadas da distância que nos separava, pegá-lo no colo e curar as feridas que o faziam ficar ali no chão caído. Como eu amava vê-lo voando! Ele parecia pássaro mágico, enfeitiçado por uma magia santa.

Eu, no entanto, não podia, nem tinha esse direito. Isso ele me fez entender. Disse-me que o sonho, mesmo quando jovem, tem que arriscar o voo, amar o abismo  e não olhar para a perda precoce da capacidade de se manter no alto. Ele me disse ainda que tanto havia sido admirado e  sentido, o vento na face; o cheiro úmido das nuvens, a presença fresca da liberdade de ser. O sangrar não seria capaz de furtá-lo dessas alegrias abstratas e certas.

Passaram-se dias, e ele ainda estava no fundo do precipício. Havia nele uma paz mansa. Era uma paz rara e cara que o envolvia muito mais          que a dor.

Pouco a pouco, em silêncio e em segredo, um sorriso se abriu. No mesmo instante e com a mesma intensidade, seus olhos se fecharam e as asas adormeceram esquecidas sobre uma pedra. A morte o levou, mas deixou, naquele sepulcro florido, a promessa de outro sonho.

 

 

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