A saúde fotografada pelas lentes da realidade - por Onã Silva

A saúde fotografada pelas lentes da realidade - por Onã Silva

EDITORIAL[1]

A saúde fotografada pelas lentes da realidade

Onã Silva[2]

É possível falar sobre o assunto saúde captado a partir de dois olhares distintos e importantes como de uma socióloga e de um fotógrafo e, este material, de alguma forma subsidiar e provocar reflexões para o enfrentamento das determinações sociais que influenciam na saúde?

Quanto ao olhar da sociologia – baseamos no texto de Amélia Cohn[3] – que é uma pesquisadora que atua nas seguintes linhas de pesquisa: políticas sociais e de saúde; pobreza, desigualdades; novos perfis das políticas sociais no Brasil e na América Latina.

O texto de Cohn[4] levou-me de imediato às fotografias em preto e branco, clicadas pelo fotógrafo Sebastião Salgado: ele documenta o ser humano e imagens relacionadas a diversos sentimentos: dor, alegria, coragem e dignidade em se manter de pé diante do caos.

Foi assim que o texto me conduziu à reflexão: relacionando algumas fotos ao texto denso, sem maquiagem, em preto e branco, assinado por Cohn. Trata-se de um debate estruturante e a minha mente viajou naquelas linhas – indo e vindo – fotografando os melhores ângulos, ou seja, as principais ideias e eixos de análise da autora. Registrei como fotografia central do texto: as implicações sociais e políticas da pobreza ou desigualdade; os movimentos sociais e os direitos sociais; a relação Estado/sociedade.

Enxerguei nas lentes da perplexidade a nossa realidade social – brasileira - no contexto da globalização. Neste zoom da nova conjuntura, saltaram-me aos olhos a complexidade societal: as configurações de exclusão social; os novos atores e sujeitos sociais do tecido social; a sociedade contemporânea, os novos espaços de construção de identidades sociais e de direitos; o Estado e os processos de formulação e implementação de políticas públicas.

A primeira fotografia textual registrada na minha mente à luz do texto que comento é sobre a pobreza e a desigualdade. A noção de pobreza atualmente não mais se configura sob aquela ótica das classes sociais e do trabalho como fator de inserção social dos indivíduos. Hoje em dia, a ausência do trabalho, a diferença social é definida pelos níveis de renda, estratificando em grupos de "pobres", "miseráveis", "indigentes" os incapazes de garantir sozinhos a sobrevivência. Este deslocamento de "classes" para "grupos de renda" significa perda de identidade social e os pobres passam a ser objeto de intervenção Estatal, por meio de políticas públicas. Em complemento, refleti sobre a matriz desigualdade social como sendo a posição relativa dos segmentos sociais entre si, a distribuição comparativa dos indivíduos ao acesso a determinados bens e serviços.

Continuando a fotografar o texto, refleti também sobre o debate de Cohn sobre os movimentos e direitos sociais como "novos" sujeitos coletivos, no cenário político, em distintos espaços. Também me deixou em alerta o fato de que tais movimentos emergem de situações de conflitos societais, caracterizados pela reivindicação de direitos sociais e a igualdade dos mesmos, à justiça social não mais em nome do cidadão ou do trabalhador, mas, pró-coletividade. Neste olhar, a definição de movimentos sociais refere-se a significados plurais, via mobilização e organização de seus membros para fins materiais e não-materiais que consideram injustamente negados pelo Estado e suas instituições.

Quanto a 3ª fotografia textual – a relação Estado-sociedade – os elementos que emergiram do texto analisado para este Editorial, referem ao caráter autônomo da sociedade, a reconstrução de laços sociais fora do Estado e a esfera pública independente da configuração oficial. Esses elementos permitem retomar aos problemas centrais na relação entre os novos sujeitos sociais em seus processos de criação de suas identidades e o Estado, qual seja, o lugar dos grupos sociais hoje representa a fonte de sua legitimidade e a natureza de suas demandas.

Destaco ainda que as novas configurações – Estado e a sociedade – permitem aos sujeitos coletivos serem ativos nas decisões estatais, caminhando em redes associativas em busca da igualdade, justiça, liberdade, democracia, cidadania, responsabilização e outras.

Cohn, não em conclusão, mas via reflexão, reporta-se ao  Sistema Único de Saúde (SUS) na abordagem da participação social e dos Conselhos de Saúde nas decisões políticas. 

No Editorial fica esta apresentação fotográfica reflexiva e crítica – realizada a partir do texto de Cohn – que d’alguma forma poderá ajudar no debate do fortalecimento do SUS considerando a saúde do ponto de vista das determinações sociais.

E o Editorial encerra com o material imagético de algumas fotografias de autoria de Salgado, destacadas a seguir, captadas da realidade.

Até quando as fotografias da saúde serão reveladas em preto e branco? 

É a reflexão constante sobre fotos semelhantes que estão diariamente no cenário da atenção à saúde.

 

 



[1] Este Editorial está publicado na Revista Eletrônica Gestão & Saúde Vol.04, Nº. 03, Ano 2013

[2] Graduada em Enfermagem e Artes Cênicas, Especialista em Saúde Pública, Mestre em Educação e cursa Doutorado. Atua na Secretaria de Estado de Saúde do DF. Pesquisadora de Grupos cadastrados no CNPq: Estudos Enfermeira. Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Enfermagem-UnB. Escritora brasiliense. Pesquisadora da área de criatividade e ludicidade na educação e no cuidado à saúde.

[3] Cohn, Amélia. Estado e sociedade e as reconfigurações do direito à saúde. Ciênc. saúde coletiva [on line]. 2003, vol.8, nº.1, p.9-18.

 

Publicado 19/01/2014

 

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