A vaca velha - por Rubens Silva

A vaca velha - por Rubens Silva

A vaca velha

Meu pai sempre quis ter uma vaca para ordenhar e ter leite fresquinho. Ao chegarmos a João Alberti, onde ele começou a trabalhar como “feitor”, depois de ter sido promovido na Viação Férrea, uma das primeiras providências dele foi comprar uma vaca. Para satisfazer sua pretensão ele procurou um fazendeiro local, seu conhecido, chamado Aleixo Silveira. Malandro ele aproveitou-se da ingenuidade de meu pai e lhe vendeu uma vaca velha. Quase no fim de seu ciclo de vida. Ela já não produzia leite nem para os próprios bezerros, quanto mais para a nossa família.
Feliz da vida meu pai levou a famigerada vaca para casa. Todo dia ele cortava palha de milho, mandioca e capim na redondeza para tratar a barrosa. Foi aquele ritual diário dele, de minha mãe e da Dinda, minha madrinha que morava conosco. Eles se revezavam no trato carinhoso com a fonte de alimentação mais recente de nossa família.
Aquela função durou aproximadamente uns quatro meses. De uma hora para outra deu uma diarréia na vaca. O animal começou a dar sinais de fraqueza e deitou no chão. Não levantava mais. Não comia e não produzia mais leite. Meu velho foi até o Arroio do Só, localidade mais próxima de onde morávamos e comprou vários remédios para tentar reanimar o bicho.
Foi uma luta. Ao final do expediente de seu trabalho, todos os dias, reunia alguns “tucos” que trabalhavam com ele e fazia de tudo para levantar a vaca. Aplicou injeções de tudo quanto foi tipo na miserável. Deu um remédio chamado “Fenotiazina”. Uma guarapa verde que parecia até com o próprio esterco da vaca. Horrível. Com a ajuda de mais uns três ou quatro homens, enfiava o remédio na garganta do animal. O esforço todo foi em vão. A vaca velha não levantava nem por decreto.
Como o remédio não adiantava, como última tentativa, ele resolveu fazer uma espécie de guindaste para levantá-la. Cravou no chão, dos lados da vaca, quatro postes. Dois de cada lado. Fez uma espécie de andaime. Prendeu uma roldana daquelas de corda. Amarrou com uma espécie de barrigueira e suspendeu a vaca.
Não adiantou nada, a vaca morreu!
O que me deixa indignado até hoje é que o fazendeiro, Aleixo Silveira, que Deus o tenha em bom lugar, não precisava ter enganado meu pai assim, lhe vendendo um animal doente. Ele tinha tanto gado, podia ter vendido uma novilha nova e não uma vaca velha.
Mas, a vida é assim. Uns vivem para o bem, sendo muitas vezes enganados pelos “malandros”.
Outros, “malandros”, vivem para enganar, e esquecem que um dia, infalivelmente, vão ter de pagar.

 

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