A Vaidade - Alegoria - por Fernanda Comenda

A Vaidade - Alegoria - por Fernanda Comenda

A VAIDADE

ALEGORIA

 

Naquele dia havia feira na cidade. A feira encontrava-se num recinto redondo, portanto as Bancas formavam um círculo e todos elas se viam e podiam confraternizar.

Elas eram: a Vaidade, o Amor,a Inteligência, a Bondade e a Maldade.

O círculo estava cheio de pessoas que passavam pelas Bancas, paravam, olhavam mas não compravam, dizia-se que era devido à crise. A dada altura, algumas pessoas começaram a parar em frente à Banca Vaidade. Olhavam para a placa que publicitava os produtos com a seguinte frase:” Magia e feitiço com a vaidade no toutiço!”. Sentiam desejo de experimentar. Compravam o produto mais pequeno: “A sensação de elegância, estou mais bonito do que o outro”. No dia seguinte, voltavam e adquiriam: “Eu sou mais inteligente do que os outros”. Outros clientes gostavam de comprar “Eu sou mais importante do que toda a gente” ou “Eu tenho mais dinheiro do que os outros” e o produto mais caro por ter mais características do que todos os outros “Eu sou o maior em tudo o que existe na vida”. Havia pessoas que faziam sacrifícios enormes para o adquirir.

As outras Bancas olhavam desesperados para a Vaidade. Quando não tinham ninguém a perturbar-lhes a conversa, perguntavam-lhe:

- Oh, colega, afinal que magia têm os seus produtos?

- Oh, colega, é fácil de ver, os meus produtos transformam quem os usa, dão-lhe vida, autoestima, valor, superioridade, sucesso e hoje, nos nossos dias, essas qualidades são as melhores para vivermos felizes e bem social e materialmente….

- Mas o Amor é muito mais importante, quem dá e recebe Amor é muito feliz - argumenta o vendedor Amor.

- Ah! Ah! Ah! Acha? – retorquiu a Vaidade com escárnio – o Amor  na sociedade de hoje não vinga! O que se quer é: arrogantes, oportunistas e impostores…

- E a Inteligência? – anuiu a Banca  Inteligência  com um ar zangado.

- Inteligência? Bem, também não me parece importante, esperteza sim! – respondeu a Vaidade sempre num tom muito alto e autoritário.

- E a Bondade? Sem bondade o mundo é um caos, não há solidariedade, não há entreajuda, apenas a tristeza… -  afirmou a Banca Bondade.

- Eh, eh,eh, eh, eh, essa então nem deveria constar no dicionário como palavra… Bondade é pura ilusão! – escarneceu a Vaidade.

- Bom, agora só falto eu, a Maldade. O que dizes, vê lá se concordas comigo, Vaidade, eu sou ou não importante e necessária? – perguntou a Banca Maldade, com um ar apreensivo.

- Ah, Maldade, tu comigo, ambas faríamos um bom trabalho para o mundo. Com a tua maldade e a minha vaidade, seríamos donas do mundo, torná-lo-íamos no paraíso da corrupção, do roubo, da delinquência e criminalidade! – respondeu excitada a Vaidade.

Nisto, no ar um relâmpago iluminou o céu, o Universo parecia arder, alguns segundos depois, ecoou um trovão enorme que envolveu toda a Terra e uma imagem de um Cavalo Alado surgiu acima das cabeças dos convivas. Pediu-lhes para saltarem para o seu dorso e assim que todas as Bancas estavam instaladas, voaram céu adentro. Voaram em volta da terra em todos os sentidos e direções. Viam as pessoas, todas elas de nariz empinado, não se cumprimentavam, cada uma se achava melhor do que a outra, originando conflitos, guerras, miséria, infelicidade. A Vaidade e a Maldade estavam radiantes, tinham o que queriam! Os outros choravam de tal maneira que as suas lágrimas provocaram uma chuva intensa em todo o mundo.

A Vaidade de tanta alegria, distraiu-se e desequilibrando-se caiu. Começou a gritar, o seu rosto expressava medo e cobardia, ia morrer, ia para sempre desaparecer…de repente, começou a sentir muito frio e a desmembrar-se, a dissolver-se, tinha caído no oceano…naquele momento ela estava misturada com a água, já não se via, não se sentia, mas as águas do oceano começaram a aumentar, as ondas a crescerem e todo o oceano era um corpo de Vaidade, ele era O Todo Poderoso, ia invadir a terra. Esta já estava minada pela água, os seus seres a morrerem afogados …

A Bondade, a Inteligência e o Amor ao verem tamanha desgraça, desceram do Cavalo Alado, uniram os seus corpos, as suas energias e vontades e abraçaram o planeta Terra, transmitindo-lhe todo o seu poder. As águas começaram a recuar, a terra a secar, a vegetação a renascer, as pessoas e os animais a ressuscitarem e a felicidade a reinar! O planeta estava salvo com toda a sua vida…

O Cavalo Alado desaparecera no ar com a Maldade. O Cavalo levara a Maldade para algum canto recôndito do Universo …

A Vaidade estava ainda diluída na água, mas devido à temperatura elevada começou a evaporar-se, formou uma nuvem bastante extensa no céu.

As pessoas estavam felizes, tinham voltado ao normal, cumprimentavam-se, entreajudavam-se, eram mais humildes e mais felizes.

Subitamente uma melodia tantantantantantan te tanran ta titatere ta tannnn!... (Vivaldi, Spring) ouviu-se; uma luminosidade muito brilhante e colorida apareceu no ar, e com as cores do arco-íris em letras garrafais gigantescas, envolvendo o MUNDO inteiro, lia-se na respetiva língua do país: “Eu sou a VAIDADE, não me esqueci de vós, estou e estarei sempre presente para vos transformar!...”. As pessoas sorriram e olhando umas para as outras diziam:

” Bom, uma pitada de VAIDADE faz bem a toda a gente!”.

Sem mais nem menos, a frase desapareceu para dar lugar a uma chuva dourada acompanhada pelo Hino da Alegria, 9ª sinfonia de Beethoven, lá lá, lá, lá lálá……….

 

FIM

 

 

 

 

Conheça outros parceiros da rede de divulgação "Divulga Escritor"!

 

       

 

 

Serviços Divulga Escritor:

Divulgar Livros:

 

Editoras parceiras Divulga Escritor