A Voz do Coração - por Regina Alonso

A Voz do Coração - por Regina Alonso

     Não era solidão. Só recolhimento. Acostumara-se consigo mesma. Convívio harmonioso ou apenas tolerância? Contava com a cumplicidade da tia-avó. Nenhuma palavra, mas os olhares falavam tudo e deixavam antever as intenções.

     A madrinha não aceitava a mudez da menina. Afinal tomara para si a tarefa de educá-la, há mais de quinze anos, quando a mãe resolvera tentar a vida sozinha do outro lado do mundo, prometendo logo uma vida melhor para todos. É claro que não dava para fazer essa empreitada com um bebê de poucos meses... Cecília entendera a situação da prima, com quem dividia a mesma casa. Prontificara-se de imediato. Partisse tranqüila. Ana ficaria aos seus cuidados.

     Após a primeira carta, o contato cessara. E os depósitos no banco também. Toda a correspondência enviada para o endereço na Espanha voltava com o carimbo: Destinatário não encontrado. O tempo passava. A pensão de Cecília era insuficiente. Ana estava com três anos, quando a tia-avó da menina chegou de malas e cuia.

     – Meu Deus, como alimentar mais uma boca? – desesperou-se a madrinha. 

     O que ela não sabia é que Helena recebera herança de um tio português. Iniciou-se novo tempo. A compra da casa a uma quadra da praia. Chalé de madeira na frente e atrás de alvenaria. Todo avarandado. Quintal enorme, chácara e pomar. Galinheiro. Tanque de água para os patos e tartarugas. Cecília pela primeira vez teve quarto privativo e já não era sem tempo, argumentava, pois afinal merecia alguma recompensa pelo ato caridoso de cuidar da menina. Helena não retrucava. Seus olhos azuis como as águas do mar fixavam-se em Ana. E a pequenina quase esboçava um sorriso.

     Estreitaram-se os laços, entre a sobrinha-neta e a tia-avó, é claro! Cecília enciumava-se. À tardinha, nas cadeiras que arrastavam até a calçada tomando a fresca, falava aos vizinhos sem nenhuma discrição:

     – Quem faz, nada recebe! Vejam só! Ana estaria  abandonada não fosse a minha boa vontade!...– e arrematava – Desde a chegada de Dona Helena, vive agarrada à barra de suas saias!

     A menina, agora com quase doze anos, tapava os ouvidos com as mãos e corria à procura de Helena.  Cecília não se importava e nem levava em consideração o que a vizinhança retrucava:

     – Helena chegou em boa hora! Nada falta à menina nem a você, Cecília...

     – Cuidado, Ana é sensível! E não fala nada a pobrezinha...

     E ela, subindo o tom de voz, punha-se de pé, as mãos nos quadris:

      – Não fala porque não quer... – e em tom pejorativo – Bem que escuta tudo... E Helena não fez  mais do que sua obrigação dividindo a herança com a parentela!

     Nos fundos do quintal, Ana acocorava-se aos pés de Dona Helena, que parava de pendurar as roupas no varal. Afagava os cabelos da menina e dizia com sua voz amorável:

     – Não ligue para Cecília... Ela não sabe o que diz!

     E dividiam a tarefa. Ana entregava as peças torcidas àquelas mãos abençoadas. Entre o fixar dos prendedores e as cantigas de roda da avó, lembranças da infância... E a menina repetia o refrão, num fio de voz, que só Dona Helena tinha o privilégio de escutar. Sempre que possível caminhavam descalças à beira do mar. Cecília não as acompanhava. Nunca.

     – Não sei qual é a graça! Encher os pés de areia. Sentir o frio e o bater das ondas. Só para quem não tem juízo e quer se resfriar! – era sua resposta ao convite de Helena.

    Aninha crescia. Alegrava-se a tia.

     – A mudez também!... comentava a madrinha.

     Cecília não sabia toda a verdade. A verdade por trás do silêncio. Não ia às reuniões mensais da escola.

     – Vá a senhora, Dona Helena, afinal não é na barra da minha saia que Ana se agarra! – e emendava fulminando a sobrinha com seu olhar pétreo – Ingrata!

     Na escola revelava-se outra Ana. Comunicativa com os colegas, professores e pessoas que encontrava. Excelente aluna. Dona Helena enchia-se de orgulho, mas todas as tentativas de compartilhar essas conquistas com Cecília foram em vão.

     – Não me venha com lengalenga! Estou farta dessa menina! Boca trancada porque quer! Pretensiosa como sua mãe! Há de nos abandonar um dia, Helena! Espere só, que não tarda!...

     – Acalme-se, Cecília... Você precisa ver os progressos...

     A outra cortava as palavras da tia-avó:

     – Progresso, progresso... Não me venha com bobagens, Dona Helena! Saiba que até agradeço nunca ter ouvido sua voz! Com certeza Ana só diria bobagens!

     Na areia da praia, Ana registrava sua vida. Com um graveto desenhava a mãe e o navio cruzando o oceano, levando-a para sempre... Quando estava com cinco anos, foi sua primeira garatuja e ouviu de Dona Helena, apontando para os desenhos: 

     – Ma-mãe... Bar-co...  – exagerava a pronúncia, escandia bem as sílabas e passava os dedos nos lábios da menina, estimulando-a.

     Foi assim que um dia ouviu da Boca de Aninha:

     – Bu... U-ru... U-ru-bu!

     Encheu aquele rosto amado de beijos. Bateu palmas e rodopiou com a menina pela areia. O silêncio fora quebrado! Depois, com o passar de alguns dias, no quintal, entre as goiabeiras, colhendo carambolas, dando milho às galinhas, vendo os patinhos no tanque de água, descobrindo trilhas de formigas, Ana foi emitindo sons, riscando imagens na terra, estabelecendo conversas simples com a tia-avó, palavras que brotavam longe de Cecília. Finalmente, na escola, graças aos relatos de Helena, os educadores souberam ganhar a confiança de Ana e estimular ainda mais sua comunicação.

     No chalé a alegria imperava em meio a rabugice eterna de Cecília. A velhice campeava, mas nem o tempo ensinava à madrinha a alegria do bom convívio. Helena cada vez mais ciente do passar inexorável do tempo, esmerava-se em viver intensamente os momentos ao lado de Ana, naquele espaço construído tão próximo ao mar sagrado, quando foi se deixando levar como um pássaro que sabe que findou a canção... Ana ficou o tempo toda ao seu lado, até o último sopro.

     Cecília agora reinava, soberana. A menina ainda não completara a maioridade e a madrinha exigiu que parasse com os estudos para assumir todos os afazeres de casa.

     – Dona Cecília, ela é aluna exemplar e...

       Mas ela interrompia, e retrucava:

     – Exemplar, exemplar... Quanta bobagem! Eu preciso de ajuda! Já é tempo dessa menina amadurecer...

     Ana obedecia. À noite, soluçava baixinho e sonhava com o navio e a mãe... Os vizinhos tentavam interferir:

     – Cecília, que maldade! Ela poderia ajudá-la e continuar seus estudos...

     – Gasto inútil! Ana só fala bobagens... Aliás, depois que Helena se foi, Ana emudeceu, graças a Deus! Faz o serviço quieta, em absoluto silêncio! Falar o quê? Perda de tempo!... – e retirava-se deixando-os perplexos.

     Toda a noite, entre preces e lágrimas, o consolo de Ana era a lembrança de Helena. Naquela madrugada, a imagem da tia-avó surgiu e transformou-se na figura da mulher que desenhava na areia. Seria um sonho?

         Ana acordou bem antes do sol nascer. Cecília ainda dormia. Pé ante pé, abriu a porta com cuidado e lá se foi, pés descalços sobre a areia... Sentada numa pedra, repetiu o desenho de sempre, lembrando da tia-avó com saudade. Súbito, ergueu a cabeça. No horizonte, o navio despontou, aproximando-se lentamente... Quando o apito ressoou, Ana correu para o porto, atravessou a extensão enorme de areia e chegou ao cais. Quase sem fôlego chegou ao local da atracação, e esperou calmamente, sem sentir o passar das horas.

     Até que viu a mulher desembarcar pela rampa de madeira. Correu ao seu encontro. Ela sabia: o desenho na areia ganhara vida. Para sempre.

     Abraçadas caminharam juntas para o novo tempo que se anunciava.

 

Publicado em 13/03/2014

Conheça outros parceiros da rede de divulgação "Divulga Escritor"!

 

       

 

 

Serviços Divulga Escritor:

Divulgar Livros:

 

Editoras parceiras Divulga Escritor