Abençoada lição! - por Rubens Silva

Abençoada lição! - por Rubens Silva

Abençoada lição!

Eu e meu irmão, Rui, devíamos ter uns oito ou nove anos mais ou menos. Estudávamos numa pequena escola na zona rural na sede de uma fazenda próxima a nossa casa. Para irmos à escola, tínhamos que obrigatoriamente passar pela estação da parada João Alberti. Proximidades da cidade de Santa Maria no Rio Grande do Sul. E nessa passagem ficávamos namorando os incontáveis materiais escolares, que havia na mesa do agente da estação. Tais como: lápis de anilina, caneta tinteiro, vidros de tinta nanquim. Lindos. Lâminas e apontadores para lápis, mata-borrão. Penas para se escrever com tinta nanquim, clipes, borrachas de ponta de lápis e borrachas quadradas de apagar.
Meu pai apesar de todas as dificuldades, nunca deixou faltar nada para irmos à escola. Naquela época o governo não distribuía materiais de graça para os alunos como faz hoje em dia. Mas, infelizmente ele não podia comprar penas de escrever com tinta nanquim e nem canetas tinteiro. Aqueles materiais eram os nossos sonhos de consumo.
Assim foi muito tempo. Até que um dia resolvemos “surrupiar” alguns materiais do agente. Enquanto eu ficava na porta cuidando o movimento e vigiando o agente, meu irmão apanhava os materiais e levávamos para a escola. Depois de usarmos durante as aulas nós os distribuíamos aos outros colegas para não levarmos de volta para casa, pois certamente meu pai ou minha mãe iriam desconfiar.
A primeira vez foi muito fácil. Deu uma tremedeira nas pernas. Uma aceleração no coração. Mesmo assim cometemos o “crime”. Assim foram umas duas vezes e não acontecia nada. O gabinete de trabalho do agente da estação era uma fonte abundante de material. Todos os dias ele repunha o que era furtado e ficava vigiando. Até que um dia ele nos pegou com a mão na massa.
- Haah! Vocês é que estão roubando o meu material da minha mesa é? – Disse o agente pegando em nossos braços e apertando.
- Podem devolver o que vocês pegaram agora! – Sentenciou o agente.
Minha nossa Senhora! Eu não sabia o que fazer! Meu irmão, coitado, chorava, tremia e dizia:
- E agora? Se ele contar pro papai, ele vai nos tirar o couro!
Foi a espera mais angustiante de nossas vidas. Papai chegou. Não falou nada conosco. Esperou anoitecer. Não poderíamos fugir para o mato durante a noite. Seria muito mais fácil nos dar a grande lição. Antes de anoitecer ele apanhou uma vara de “Vime”. Planta abundante no quintal da nossa casa naquela época. O vime verde parece um chicote. Não quebra e sua batida dói, mas dói miseravelmente.
Naquela noite eu e meu irmão levamos a mais abençoada surra de nossas vidas. Aprendemos que jamais deveríamos roubar as coisas dos outros. Talvez se nosso pai não tivesse nos dado essa surra estaríamos roubando até hoje.
Bendito sejas tu meu velho pai, que Deus o tenha em bom lugar. Muito obrigado por esta grande lição.

 

Conheça outros parceiros da rede de divulgação "Divulga Escritor"!

 

       

 

 

Serviços Divulga Escritor:

Divulgar Livros:

 

Editoras parceiras Divulga Escritor