Acerca do livro "SEGREDOS TECIDOS À MÃO" de Margarida Vieira - por Alvaro Giesta

Acerca do livro "SEGREDOS TECIDOS À MÃO" de Margarida Vieira - por Alvaro Giesta

Acerca do livro "SEGREDOS TECIDOS À MÃO" de Margarida Vieira

 

"De mim ao leitor... me confesso!" - adverte a autora em Nota Prévia que antecede o corpus da sua obra poética. E, se confessa, com este Segredos Tecidos à Mão com o mesmo labor, talhado com simplicidade na perfeição da mão que elabora o texto, igual ao mester meticuloso com que a aranha fabrica a teia que serviu de produção à capa do livro. Digamos que, esta é a grande metáfora da temática de Margarida Vieira para o entendimento do Eu. Porque são raros os poemas em que a autora, mesmo que duma maneira subtil, questiona o Eu que, enquanto sujeito, enquanto indivíduo, parece ser o centro das suas preocupações inscritas nesta temática. Ela o afirma, num autoconhecimento, sem necessidade de se questionar! Aliás, isso nos diz na Nota que enforma a obra, como se para advertir o incauto leitor, antes deste se embrenhar pelos labirintos de «"amores perfeitos", tornados imperfeitos, de recordações gratificantes, vividas intensamente (...)» pelo Eu-poético: Estes Segredos Tecidos à Mão com a perfeição do rendilhado da teia, falam-nos "de vivências consentidas por reversos que choram, gritam, cantam e entoam retalhos da alma de uma mulher: Mulher de dor e paixão!"

Mais não seria preciso, sequer entrar no interior da obra - passo o pleonasmo -, para concluir do sabor florbeliano que envolve a poética de Margarida Vieira, como se tal influência de uma aura se tratasse. Em Margarida Vieira, não é apenas o "Eu" que busca em si o elemento principal na construção poética do seu mundo da imaginação e da fantasia; é, também, o encontro com o "Outro" nas palavras que escreve, nas palavras com que se envolve, "na sua sensualidade cheia / (de) bocas apelativas... // no silêncio de serem eco no infinito que (a) habita, (a) persegue como uma sombra (do seu eu)"; com as palavras - sensuais e sequiosas - ela relança os "olhos (...) pelo infinito / para descobrirem nos azuis / da distância / os versos dos (...) lábios" desse Outro que ansiosamente espera, nesta sua imaginação fantasiosa e fantasiada, no bailado das palavas, nesse seu mundo de sombras de si própria construído pelas palavras da "memória", pelas palavras do "silêncio" e da "esperança" que a habitam.

Este tomo Segredos Tecidos à Mão, é o lugar de conclave e da ousadia que mostra que a mulher tem o direito de sentir e dar prazer e que lhe seja, ora e sempre , reconhecido esse direito no momento em que escreve - o momento actual  - e nunca após a passagem transitória pela vida. Que Margarida Vieira faça "ECO" de si, ora e sempre, mesmo que "as palavras / (sejam) beijos ou pedras (...)" para que se renove "na memória / o sussurro quente das mãos" que tão laboriosamente teceram a obra que, ainda sendo de "pétalas de cores múltiplas" nela - na obra - e em todas as suas imagens, está subjacente o problema da identidade feminina, da sua identidade enquanto poeta e mulher, pois em cada poema se respira e ela respira, também, com as próprias palavras de sabor florbeliano que ao branco do papel debita.

 

Se em vez do mero acto apresentar a obra, o orador tivesse de ir além dele e se empenhasse numa recensão literária, obrigatoriamente o foco da análise seria o dever de buscar nos poemas todos e em cada um, elementos reveladores dos sentimentos da poeta ou, até, que desvelassem os seus sentimentos mais profundos em relação a si, como mulher, e em relação ao Outro onde se "quisera... eterna". O sempiterno querer, na espera e na esperança: "Sei que os espinhos me ferem" (mas, apesar disso) "espero por ti / como a areia / pela espuma // como o sol / pelo sorriso do bosque // como o minguante / pela lua cheia // como o vento / pelo voo da gaivota // (como) o amante pela noite escura".

Ainda, em relação ao Eu-Outro, a obra é um advento onde a poetisa nos diz "vejo-te morrer / no prenúncio dos sinos // em gestos de desalento / indiferentes / à memória do (...) tempo" (mas,) "vem, meu amor / nesse comboio frémito" (e, mesmo que te atrases, esse) "risco de atraso / fica pendente (...)" (porque) "horas precisas não consentem / o abandono (...)" (e olha que) se eu partir, deixo-te em testamento o enorme desejo de viver... (porque eu) "sou estas palavras que falam / de nostalgia / de saudade / (e) de sonhos".

Invocação a si própria, enquanto ser - "Mulher", no poema com o mesmo nome, num incentivo claro à força do querer e à vontade, quando escreve: "mereces ir além do teu segredo // subir (...) a calçada / imortalizada por vidas sofridas / de mãos sem pão / de mãos calejadas / de crianças descalças / de esperanças rendidas // mereces ir além do teu segredo // fingindo que não há injustiça / e que vês ao espelho uma mulher tão pura". Quebrar este estigma, é fazer da mulher aquela que se nega a viver numa sociedade maioritariamente dominada pelo machismo, é romper padrões (ainda) dominantes, demonstrando que já não é preciso questionar o Eu, mas, afirmá-lo como independente, pois ela, enquanto mulher, é o centro dominante do lar, das mãos calejadas sem pão que sobe descalça a calçada íngreme da vida em busca do sempre azul e do longínquo que persegue alcançar.

Em "Libertango" o Outro espelha-se no Eu sem obstáculos incontornáveis ou, antes, libertando-se dos obstáculos "ocultos na Catedral" do poema, deixando-se ir ao sabor da maré das palavras, simples e belas, no movimento que a dança etérea imprime aos corpos convidando-os à sedução da pele. Assim, ousa, Margarida Vieira, erotizar a linguagem poética com a certeza do Belo e de que, conhecendo-se no Eu é preciso reconhecer-se no Outro, pois, encontrando-se na coisa amada autoconhece-se a si mesma.

Não podemos concluir, da simples leitura de seus poemas, de que há uma necessidade premente ou desesperada de encontrar o Outro, ou alguém a quem possa amar. Não! O que eu concluo, é que a poetisa tem uma necessidade urgente de se encontrar ainda que seja com a intenção de se conhecer, autoconhecendo-se através do outro que canta ou para quem canta. Será um autoconhecer-se utilizando outros sentidos de si: "Quando danço (...) liberto os movimentos / quando deixo que as gotas de água lavem o prazer / de ti agarrado à minha pele //, saboreio // (...) o brilho / suor da nossa nudez // (e) sorvo-te em cálices de sons // (e assim o) meu corpo / (se inunda) de doçura sedosa / sequiosa / da tua joia // (e a) minha voz / corre para além da montanha // (e) desenha bocas / no teu corpo".

Vejo, nas palavras da poetisa, "a profeta de fogos em transe" na busca do seu Outro "navio" no regresso de "infinitos". É o seu processo de autoconhecimento.

 

Esperemos que a poetisa Margarida Vieira que até aqui eu apenas conhecia no seu dizer poético nas tertúlias em que se empenha, não passe pela vida literária como o seu "écran de gaivotas" a espreitar do alto do "farol" na "esperança" de avistar o apenas "vazio". É que, nesse seu avistar do vazio deve procurar ouvir o eco, senti-lo, compreendê-lo, nesse seu pairar no silêncio deve perseguir a voz que se levanta do interior de si mesma e procurar ver que é nesse e desse vazio, nesse e desse espaço em branco, espaço-nada existente no lugar exacto onde coincidem a claridade e a sombra, que se levanta o  grito da palavra que habita o poeta, que persegue o poeta para com ela firmar o poema, levantar a escritura, mesmo que os seus "olhos enlutados" chorem, salpiquem "a terra desfolhada / lavrada por versos sem arado".

 

31 de Outubro de 2014

 

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© Alvaro Giesta (poesia, ficção e crítica literária)

Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico

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