Adivinha quem vem para jantar - por Fernanda Comenda

Adivinha quem vem para jantar - por Fernanda Comenda

ADIVINHA QUEM VEM PARA JANTAR

 

    Havia uma multidão no supermercado e eu queria despachar-me, mas qual quê, não conseguia! Além disso, a minha dor de dentes não parava!...Queria despachar-me, sair dali. Só me apetecia fugir!

   Lá fiz as compras e fui para casa! Estava a começar a fazer o jantar quando o telefone tocou. Era o Paulo o meu marido, a informar-me que vinha mais tarde para casa, tinha surgido um trabalho de urgência. Disse-lhe para não se esquecer de que tínhamos visitas, sim, viria assim que pudesse… continuei o meu trabalho. Pus a carne no forno e ai que me queimei!...Rapidamente passei a mão por água fria e barrei a pele dos dedos com uma clara batida em castelo. Pus a mesa. Tocaram à porta. Fui ver. Era a minha vizinha do segundo andar, queria saber se eu hoje ia caminhar. Não, não ia, tinha visitas. Ela entrou. Sentou-se no sofá da sala e começou a contar-me uma história inebriante sobre os vizinhos do primeiro andar. Se não fosse eu ter pressa para me arranjar por causa das visitas, até me sentava com ela e acharia graça, mas o tempo urgia, eu tinha que me despachar!

    Foi então que ouvi um grito, corri à janela, era a vizinha do rés do chão que estava aflita porque a tentaram assaltar! No entanto, os ladrões não conseguiram o intuito porque ela ouviu barulho e começou a gritar. Os ladrões fugiram.

   Pus a mesa rapidamente e fui tomar um duche. Vesti-me. Estava tudo pronto enfim, mas a dor de dentes continuava…

    Tocaram à campainha. Era a minha tia. Tinha perdido as chaves de casa. Tinha de esperar pelo marido, o meu tio, ali em minha casa, pois não podia entrar na sua. Ok, tudo bem, a comida chegava. Passado algum tempo, novo toque à campainha. Era a Susana, a colega de trabalho do Paulo. Naquele dia não tinha ido trabalhar. Precisava de falar com o Paulo mas não podia ser pelo telemóvel. Era urgente. Ficou também para jantar. Bom, a comida ainda chegava. Tocou o telemóvel, era o casal Paiva, amigos de Ponte de Lima. Estavam em Lisboa, iam visitar-nos. Bom, tantos amigos para jantar e na verdade quem eu convidara ainda não chegara….

     Será que a comida era suficiente? Tive receio, quase a certeza de que não. Peguei em latas de atum, cebola, tomate e azeite e fiz um refogado, agarrei em esparguete e confecionei uma espécie de atum à bolonhesa.

    De repente, a minha tia sentiu-se mal. Quebra de tensão arterial. Levámo-la para a janela. Apanhou ar, bebeu água. Ficou melhor. O meu marido chegou, no entanto, os convidados principais ainda não estavam. Era surpresa para o Paulo.

    A Susana aproveitou e conversou com o Paulo. Mas o que era aquilo, que sorrisos? Que olhares? Fingia que não os observava mas pelo canto do olho via-os e o meu coração batia apressadamente. Do que falariam? Ela estava separada do marido há algum tempo. Na minha cabeça iniciou-se um filme!... Mas, não, não podia ser, se tivessem um caso ela não vinha cá a casa. Eram os meus ciúmes a trabalharem…

     A campainha da porta soou. Eram os primos da Austrália , primos direitos do Paulo, que estavam de férias em Portugal. Era a surpresa para o Paulo. Entraram. Gritos de surpresa do Paulo. Abraços, muita emoção.

    - Vamos então jantar!

      Todos sentados à mesa. Saboreávamos a sopa que só tinha aquecido pois tinha-a elaborado de véspera. Passámos para a carne e “Ai Meu Deus!” um barulho enorme: rumbanbunpumpumpanpan! Os candeeiros tilintaram, os móveis pareciam ter-se deslocado! Era um tremor de terra. Durou talvez dois segundos. Fomos à janela e à varanda, mais pessoas o fizeram. Não houve consequências,pelo menos naquela zona. Continuámos a jantar, mas a comida já não descia da mesma maneira. Eu tremia….

     Estava calor, resolvemos ir comer a sobremesa e tomar o café na varanda. E fomos! Descontraímos. Rimos e conversámos, no entanto, penso que todos estávamos com o coração nas mãos….

     Eram quase duas horas da manhã quando começou a chuviscar. Entrámos para a sala. De repente a chuva caiu intensamente. A campainha tocou. A voz do meu tio soou no intercomunicador. Subiu no elevador. Abri a porta. O meu tio pingava. Estava todo encharcado. Entrou. Mudou de roupa. Felizmente a roupa do Paulo servia-lhe. Ficava-lhe apenas um pouco larga.

  - Então tio, o que lhe aconteceu?

 - Tive de estacionar longe. Não havia aqui perto lugar. Não tinha chapéu, por isso molhei-me todo!...

  - Tio, já jantou?

   - Não e estou faminto!...

   - Então já para a mesa!

   O meu tio sentou-se e comeu que até dava gosto ver!...

   E agora, o que fazemos, rua ou aqui? – perguntei alegremente mas a sentir vontade de bocejar.

- Vão todos dormir aqui! Uns no sofá, outros num colchão no chão e outros na minha cama!

   E assim foi! A noite passou com muita chuva. Houve inundações… a rua, víamos da janela, era um rio! Os carros não podiam circular, nós não podíamos sair de casa!... Ai Meus, e agora, o que fazer? O melhor era ir fazer o pequeno-almoço! Fiz fatias douradas, aqueci leite, liguei a Nespresso , pão simples, fiambre e compota e aqui vamos nós para a mesa!...

     Telefonei para o Emprego a informar da minha situação….só mais tarde a água desceu. Já era tarde. Fomos todos jantar fora, ao restaurante do “Manel”. O almoço tinha sido peixe cozido. Felizmente que tinha peixe no congelador….

     O tempo felizmente melhorara. O céu já estava limpo.

    Enquanto jantávamos apareceu no restaurante o Jaime marido da Susana. Agarrou-a por um braço, ela gritava e empurrou-o.

- Ai Jesus Nossa Senhora, tirem-me deste filme!... - Pensava eu.

    Todos os presentes tentaram acalmá-lo levando-o dali para  fora. A Susana tremia, as lágrimas corriam-lhe pelo rosto. Saímos do restaurante, despedimo-nos e cada um foi para a sua casa à exceção da Susana que foi para a nossa e que durante uma semana jantou na nossa casa!...

     Passaram-se meses, a Susana organizou a sua vida, mudou para uma casa só para si, divorciou-se do marido e convidou-nos para jantar. O que era a comida? Arroz de Cabidela e mousse de chocolate. Rímo-nos, rímo-nos e rímo-nos!...

   

    A vida tem cada uma, sempre situações iguais ou diferentes, complicadas ou fáceis, com muitas ou poucas pessoas mas acaba-se sempre a jantar!...

 

 

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