Alvaro Giesta - Entrevistado

Alvaro Giesta - Entrevistado

Alvaro Giesta (Vila Nova de Foz Côa, 1950), pseudónimo de Fernando António Almeida Reis. Viveu em Angola entre duas guerras - a colonial e a civil - entre 61 e 75. Aos 16 anos aluno do Liceu Norton de Matos, Nova Lisboa, funda o jornal académico “O Baluarte” de que foi editor e redator. Colabora nesta época, com o pseudónimo Moraes de Mello, no jornal académico " O Grito". Autodidata nas coisas da escrita, desenvolve a sua actividade literária em vários sítios da internet.

Sócio da Associação Portuguesa de Escritores e da Associação Portuguesa de Poetas. Membro do “Movimiento Poetas del Mundo” com sede no Chile. "Cônsul de Poetas del Mundo em Barreiro - Portugal" desde Fevereiro 2008 e Membro da Academia de Letras e Artes Lusófonas (ACLAL), Portugal.

Colaboração independente em: Jornal on-line ROSTOS, com poesia e recensão literária  e na revista literária, impressa, a Chama, da qual é Director e Editor.

Publicações: Onde os Desejos Fremem Sedentos de Ser, Meditações sobre a palavra, Há o silêncio em volta e, no prelo pela Editora Calçada das Letras, O Retorno ao Princípio - uma dialética Vida-Morte. Publicações dispersas em mais de duas dúzias de antologias em Portugal e no Brasil.

 

Boa Leitura!

 

SMC - Escritor Alvaro é um prazer contarmos com a sua participação no projeto Divulga Escritor, conte-nos como foi a escolha do pseudônimo Alvaro Giesta?

Alvaro Giesta - Escrevi um dia, há muitos anos, mais de trinta, talvez... num poema, ainda por publicar, mas que está reunido num original a que dei o nome "do meu cais e a outra voz",  os seguintes versos que talvez expliquem a escolha do pseudónimo:

" Rios de sangue rubro (...) teimam em fazer definhar o meu poema // mas o meu poema há-de ser grande! // (...) / que eu hei-de compor poemas com mãos de mestre. / E com um nome sonante. Porque eu quero / para esses novos poemas usar um nome sonante. / Um nome que vá para além de mim, (...) // Quero um nome sem ser nome de cédula de baptismo / para que todos saibam que quem escreveu esses versos / não fui eu mas outro eu para além de mim. // Como se eu fosse os degraus na terra / e o outro eu os anéis que prende a Terra ao Céu."

 

SMC - Em que momento pensou em publicar o seu primeiro livro?

Alvaro Giesta - Já tardiamente. E porquê? Porque sempre entendi que, para editar, assumindo-me como poeta, tinha que alcançar mérito por quem me lê e critica - como pretendo e quero - tinha que escrever de ordem a não dizer algo que já conheço previamente, mas sim, escrever de ordem a suscitar, a mim e aos que me leiam, algo que eu mesmo ignoro. Tinha que escrever de ordem a que "descobrisse" o que eu mesmo desconheço, de molde a "descobrir" o que é novo, o inicial, a pureza absoluta do desejo, que é o que desejo, afinal. Porque entendia que a poesia se deve dar a conhecer pelo que é, triunfando das trevas, erguendo-se do vazio para construir o seu próprio espaço, e não deixar-se permanecer no cantar eterno do mesmo tema, repetitivo, que de tantas vezes cantado, de tantas repetido, se torna cansativo e desvaloriza a verdadeira intenção do acto de o cantar.

 

SMC - Apresente-nos de forma resumida o seu livro “Onde os Desejos Fremem Sedentos de Ser”.

Alvaro Giesta - eu escrevo as obras quase sempre por temas e, dentro do tema, organizo a obra, dentro do possível, por segmentos como se a obra fosse um poema único. Não foi assim que aconteceu neste livro. Seleccionei, dentre os melhores, meia centena deles em que o denso artefacto das palavras na construção frásica, dá um equilíbrio constante à abundância da imagem que compõe cada verso de cada poema, conferindo valor ao real. A proposta do livro é " Inventem-se novos sentidos de dizer e de sentir o real, como se “inventa a música onde não há mais música” fazendo crescer a “roseira bravia” de cujos espinhos “sangram orgias” e brotam “sangue novo” nas rosas que nascem indefinidas de dentro do eu–poético onde se acendem “estrelas / iradas” – é a palavra nova que brota em chamas e turbilhões. Desiludam-se aqueles que pensam que vão ver na obra apenas poemas de exaltação ao amor… mas também não percam a esperança de não ver alusão a tal, ainda que, de algum modo, diluído na imagística que abundantemente lavra a obra. Contudo, a sagacidade do leitor desvendará nesses poemas em que há alusão, ainda que breve, ao feminino oculto, muito mais para além disso.

 

SMC - Qual a mensagem que você quer transmitir através de seus textos publicados no livro “Meditações sobre a palavra”?

Alvaro Giesta - Parece-me que, o crítico Xavier Zarco andou "por dentro" do sentir do eu-poético ao fazer, tão bem, o desenho da ideia que me norteou para a mensagem deste livro. Vejamos, a este respeito, apenas algumas linhas da longa crítica ao livro: " (...) Alvaro Giesta, logo na abertura deste seu tomo, numa nota de autor, avisa o leitor que “O homem, ao criar, põe no que cria engenho e arte sem estar sujeito a qualquer entidade inspiradora”.

(...) no presente volume de Alvaro Giesta, “Meditações sobre a palavra”, (há) o saber que a palavra em si pode e deve ser mais do que a palavra para cada um de nós, inclusive para o próprio, daí a utilização da linguagem poética, registo esse onde a palavra adquire valores diversos aos que comummente lhes são atribuídos. A palavra é aquilo a que, colhido como sombra, urge saber-lhe do corpo, (...).Alvaro Giesta traça-nos o poema partindo, porque o demanda, do que radicalmente nomeia a coisa, que em sombra nos é apresentada, para o trabalhar, retirando-lhe os excessos, levando, direi, ao osso, ao mínimo, ao essencial para que o corpo, ele próprio, na palavra se possa vislumbrar para, posteriormente, saber da via, o ter consciência que o poema pode e deve ser luz, (...)para que o poema, tal como uma escultura, que nasce do ventre de uma pedra em bruto, seja o revelar do corpo que nessa mesma pedra estava oculto. Tal efeito só é possível se o artesão dominar o uso dos artefactos e souber das próprias propriedades da matéria a trabalhar. (...)

 

SMC - Como foi a escolha do Título para o seu livro “Há o silêncio em volta”?

Alvaro Giesta -  "Há o silêncio em volta" é uma poética de guerra. Em poucas palavras é difícil definir a escolha do título escolhido para esta obra! Toda ela, do primeiro ao último poema, retrata a minha vivência, como veterano de guerra e autor, em contacto directo com a morte em pleno teatro de guerra. Quando se anda numa guerra, como aquela em que eu andei, uma guerra de guerrilha, onde nunca se sabe de onde vem a bala traiçoeira, nem onde está a mina que pisamos e a emboscada mortífera que à saída do trilho para a clareira à nossa frente nos varre sem dó nem piedade, a morte e o silêncio imposto para não nos denunciarmos, é o convívio único que parece impossível de ser. Mas é! É nessas alturas que a poesia da ausência, que a poesia da falta, a poesia da raiva e do medo, nos nasce na alma e gravamo-la na mente. É por isso que, a este tempo de falta, a este tempo de ausência, a este tempo da dor, só consigamos dar corpo ao silêncio até aí existente ao fim de algumas décadas, porque até aí faltou a coragem da denúncia, de o deixar expresso por palavras escritas para a posteridade, amordaçadas pelo receio, pelo medo do julgamento que nos possam fazer. É o mundo das mentalidades tantas vezes em julgamentos injustos, porque não passaram por lá, porque não enfrentaram a morte, porque não enfrentaram a dor de ter de matar para não morrer. É a injustiça dos homens a julgar os outros homens, a julgar aqueles que tiveram a coragem para escrever da guerra em que andaram envolvidos que também remete o título desta obra para o silêncio existente à nossa volta.

 

SMC - Onde podemos comprar os seus livros?

Alvaro Giesta - Os títulos estão nos escaparates de algumas livrarias de Portugal, se bem que a maior parte das vezes, é mais fácil adquiri-los directamente às editoras ou ao próprio autor, sendo o autor bem mais célebre no envio das obras. Mais célere e mais barato. Pelo que, os pedidos ao autor devem ser encaminhados para o email "fereis@netcabo.pt" e os pedidos às editoras, endereçados às mesmas.

Do livro "Meditações sobre a palavraa", em edição de papel esgotada, ainda possuo, no meu espólio, vários exemplares para venda.

 

SMC - Pensas em publicar um novo livro?

Alvaro Giesta - Neste momento está um livro de poesia, "A Palavra (des)Velada" entregue numa editora de S. Paulo/Brasil, a Escrituras Editora, com vista à publicação, dado que já foi apreciado e muito bem aceite pela referida Editora, que é, nem mais nem menos, do que o fechar do ciclo iniciado com o "Meditações sobre a palavra"; ele é composto por este, aumentado do original, "Um Arbusto no Olhar", escrito na mesma linha de pensamento poético.

No prelo, pela Editora Calçada das Letras, tenho o "O Retorno ao Princípio", uma dialética Vida-Morte, a lançar dentro da Feira do Livro de Lisboa (29 de Maio a 15 de Junho). Trata-se de um ensaio filosófico apresentado sob a forma poética sobre o tema "O Retorno ao Princípio numa Dialética Vida-Morte", em que todo o pensamento desde o princípio ao fim da obra se desenvolve na mesma linha lógica de raciocínio sem quaisquer desvios do fio condutor do "retorno ao princípio".

 

SMC - Quais os seus principais objetivos como escritor?

Alvaro Giesta - Com esta idade pouco se pode almejar já no campo da literatura, dentro dos limites do tempo que terei de vida (64 anos), principalmente se não houver uma crítica justa, por aqueles estudiosos que, efectivamente, se dedicam a estudar e divulgar as obras que tal merecem. Porventura, quiçá os meus netos venham um dia a saber que o avô deixou para a posteridade este ou aquele livro com algum valor literário. Contudo, devo acrescentar que fazem parte do meu espólio alguns originais - talvez uma boa dezena, entre poesia e conto - escritos com aquilo que eu comumemte designo por "ARTE", que de outro modo não sei escrever.

A par disto, continuarei a desenvolver a minha actividade de director e editor da  revista literária impressa "a Chama", de minha propriedade, que prima pela selecção rigorosa de textos - poesia (prioritariamente) e crítica literária - dos poetas da actualidade.

 

SMC - Como você vê o mercado literário em Portugal?

Alvaro Giesta - O mercado literário em Portugal continua a crescer, ainda que de forma moderada para as obras classificadas com valor literário. O aumento é mais a nível de publicações de títulos estrangeiros que a maior parte das vezes não vão além do lúdico, dificilmente se lhes vislumbrando o verdadeiro carácter literário da obra. Talvez o baixo índice de leitura e as alternativas ao livro sejam as justificações para este aumento moderado.

Contudo, a nível de poesia, começam a abundar os poetas com alguma ânsia, amadorística, de verem o seu livro editado. Até cerca de 1973 as editoras primavam por possuir nos seus quadros, pessoas qualificadas para analisarem e decidirem se determinada obra era com valor literário, ou não, para a sua edição, e só saíam para os escaparates obras de qualidade; hoje, infelizmente, poucas são as editoras que publicam com seriedade, tanto na análise da obra como do proveito que tiram dela após editada. O grande número de editoras que hoje proliferam, que se arrogam a esse título, não o sendo, contudo, pois não passam de meras prestadoras de serviço "caseiro" que editam on demand, tanto em Portugal como no país vizinho, Espanha, vão enganando os incautos "escritores/poetas" com algumas publicações que apenas são vendidos os magros exemplares aos amigos que assistem aos lançamentos.

 

SMC - Quais as melhorias que você citaria para o mercado literário em Portugal?

Alvaro Giesta - Que as editoras, com alguma idoneidade, mesmo essas que vão proliferando, por aí, antes de pensarem no lucro fácil, se artilhassem dos meios humanos qualificados e necessários a uma análise cuidada e selectiva das obras que lhe são muitas vezes "impingidas" por quem tem pressa de ver o seu nome em livro. Repare-se que agora até aparecem falsos apregoadores, que não entendem patavina de escrita nem de leitura, na noite lisboeta, a lançar tertúlias poéticas, ao Deus dará, como se isto fosse coisa de usar e deitar fora, com pessoas que, muitas vezes, mal articulam as palavras do poema que leem. Isto é que arruína a verdadeira obra literária.

 

SMC - Pois bem, estamos chegando ao fim da entrevista, agradecemos sua participação no projeto Divulga Escritor, muito bom conhecer melhor o Escritor Alvaro Giesta, que mensagem você deixa para nossos leitores?

Alvaro Giesta - Obrigado. Eu é que agradeço. Aos leitores, que façam uma boa escolha das obras que lêem, porque são eles que são os responsáveis por haver bons ou maus escritores. É a má escolha que fazem das obras que adquirem (muitas vezes nem são lidas) que faz com que haja muito mais literatura má do que literatura boa.

Mas, principalmente, aos escritores actuais, àqueles que não pisam ainda terreno firme neste campo ingrato do meio literário, que não desperdicem, com a pressa de editar, aquilo que muitas vezes, poderia passar do sofrível ao bom, se burilassem a palavra. É que, quando o leitor abre um livro, que tem nas suas mãos e se dispõe a lê-lo, não é a ele que compete decidir se o vai ler até final. Não. É ao escritor, ao autor que lhe compete levar o leitor até ao termodo livro, através da sua arte de escrita.

 

 

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