Amélia às avessas - por Simone Guerra

Amélia às avessas - por Simone Guerra

por Simone Guerra

 

            Sábado para lá e para cá. Um calor que dá até praia, mas como? Moro nas Minas Gerais, e a praia aqui são serras lindas que às vezes brotam cachoeiras. Onde moro também não tem cachoeiras, mas tem um trem que chega lá. Mineiro sempre fala trem, né? É quase noite, e o trem da faxina ainda nem fiz.

            Minha pressão baixou depois do almoço, dormi parte da tarde, e quando acordei com uma preguiça inacreditável, ainda eram duas e meia. O calor também dá sensações de sono longo, não sabia. Ou será a ressaca de ontem, depois de uma noite regada a uma roda de samba dos bons e duas cervejas long neck? Sair com os amigos pode parecer como ir a praia no fim de semana, tem que ter pique. Não levamos frango e farofa, mas a nossa volta, havia muita gente requentada de suor do calor que fazia.

            O samba nasceu comigo. Minhas veias correm batuques e atabaques, tenho certeza disso. Cartola, Pixinguinha, Noel Rosa embalaram minha infância, e quando era adolescente, não ficava sem a voz macia de Paulinho da Viola. Não entendo como esta geração de agora suportam tantos tumtumtum, sem letras e com harmonia vazia. Ninguém canta poemas de amor, desamor mais, e os sentimentos estão se resumindo aos poucos pelos tumtumtum do nada.

            Cada um com seu gosto, eu respeito, mas não me desrespeito a ouvir tanto nada. Ainda prefiro os sons e letras que me fazem viajar. A música que me faz sambar. O bolero e o tango que me fazem ninar nos braços do meu amor. Sou tão romântica quanto o bom gosto.

            Sábado de ressaca feliz. Dormi pouco noite passada, mas com a alma alegre do samba que me divertiu. Meu pé dói overdose de sambar. Meu corpo sonolento e precisando refrescar, queria assistir tv, mas o sol que adentrava a janela, era tão forte que queimava minha paciência de prestar atenção em alguma coisa.

            Ontem, no samba, uma colega reclamava das férias sem viagem. E ainda completava sua reclamação, dizendo que em duas semanas à toa, não suportava mais dormir, comer e ver tv. Por que não ficou em casa? Ela não ficou em casa, porque o samba ferve em São João del Rei, que começa depois do Natal, e se estende até o carnaval.

            Eu, com salário de professora, não vou a lugar algum, mas terei muito prazer de ter muitos sábados durante as semanas de janeiro, porque breve, o ano letivo começa. Vou cair no samba, pois este, não tem preço.

            Deitei na casa toda. Na tv, fantasmas repetidos de programas, filmes, que já os assisti mais de mil vezes. Fui até a cozinha incontáveis vezes, na esperança de abrir a geladeira, e um suco fresco pudesse saltar para o meu estômago, para melhorar a minha ressaca.

            Imagina se eu bebesse mesmo. Mas, sambar, eu sambei! Quebrei tudo. Minhas pernas dobram dor muscular. Tenho dois pés na África, grazaDeus, como diz um amigo meu. Só me faltou nascer com um colorido mais escuro, assim, eu me completaria. Meus cabelos não negam o prazer pelo samba. GrazaDeus eu nasci brasileira com gingado. Só não gosto de sábado com ressaca, portanto nunca mais bebo ontem, já disse!

            Já que hoje é sábado de verão intenso, ressaca braba me mantendo. Não vai ter praia, cachoeira ou piscina. Não vou reclamar mais não, pois a noite de ontem foi maravilhosa. Vou me jogar na faxina, para melhorar a ressaca, e ficar pronta para amanhã, pois, a Amélia que era a mulher de verdade, de Ataulfo Alves e Mário Lago está baixando em mim agora. Sou moderna às avessas! 

 

Blog da colunista

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Publicado em 18/01/2014

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