Amor Secreto - parte 1 - por Anchieta Antunes

Amor Secreto - parte 1 - por Anchieta Antunes

            AMOR  SECRETO

I  PARTE

 

            Nós tínhamos acabado de nos mudar para aquela casa na esquina da rua. Gostei muito do terreno; todo terreno de esquina é maior que os demais da quadra. Naquele tinha espaço para plantar as fruteiras que eu gosto, embora já houvesse um pé de goiaba e um de manga. Eu só tinha que esperar a próxima safra para saber se era manga espada. Adoro manga espada. Goiaba, que eu saiba, são todas iguais, a não ser algumas com uma cor diferente. Pra mim o sabor é sempre igual. Manga não! Manga espada é a RAINHA DAS MANGAS, sem sombra de dúvida. Há quem goste mais de manga rosa, eu não, não abdico nunca de uma suculenta manga espada.      

A casa era igual a tantas casas de bairros de classe média. Três quartos, uma sala, cozinha, banheiro, algumas com “sala de visitas” (estas eram mais chiques), e um terraço na frente. Ah! Jardim e quintal. Eu gostava deste esquema, ou já estava acostumado, não sei! Basta mudar de casa e de ares e eu já estou satisfeito; de padrão de vida é meio complicado.

            Como sempre, todos os dias, aí pelas oito da manhã, saía para o trabalho  caminhando até o ponto do ônibus, onde ficava conversando com meus companheiros de trajeto para o centro da cidade. Era uma rotina enfadonha, sem nenhum atrativo surpresa, sem nenhum elemento novo que nos fizesse rir, ou procurar argumentos para defender uma causa própria ou alheia. A repetição de movimentos é cansativa e tediosa.

            Em casa éramos eu, mamãe, e meu irmão mais velho, que também trabalhava. Tinha um  escritório de contabilidade. Eu era gerente de uma loja de moveis. Meu irmão Adalberto ganhava bem mais que eu. Ele era casado e tinha uma filha. Minha sobrinha, Vitoria, era linda e inteligente. Acho que sou tio coruja. Vivíamos todos na mesma casa. Minha cunhada Helena era uma pessoa muito simpática, prestativa e atenciosa. Nós nos dávamos muito bem. Ah! Preciso me apresentar: sou Juliano Albuquerque de Freitas. Tenho 25 anos e sou formado em Administração de Empresas. Estou contando esta estória usando o verbo no passado porque achei mais conveniente assim, depois que saí da casa da minha mãe, e fui morar com minha mulher em outra casa, quase vizinha da minha mãe.

            Minha mulher Tília... Peraí, não vamos atropelar a conversa.

            No começo da segunda semana de ponto de ônibus, de conversas com desconhecidos, com resolução atrapalhada de problemas de, também, desconhecidos, apareceu no “meu” ponto de ônibus, uma mocinha linda e alegre; comunicativa como ela só. Já chegou com um sonoro “bom dia para todos”, como se conhecesse todo mundo ali. Eu fui o primeiro a responder bem alto, para não haver duvidas:

–Bom dia querida! Seja bem vinda nesta esplendorosa manhã primaveril, venha compartilhar de nossa conversa, de nossa espera pelo ônibus que nos leva à lide diária.

            –Moço, o senhor fala muito difícil! Gosto disso não! Eu hem! Meu falar é rasteiro, doméstico, mais fácil que mastigar bolo de goma. Por favor, moço, fale direitinho comigo...

            –Falo do jeito que você quiser minha Princesa...

            –Sou Princesa não moço, sou apenas uma estudante de 2º grau, tentando aprender a viver.

            –Você é Princesa, não porque estou dizendo, mas sim porque nasceu com a beleza de uma encantadora Princesa. Se avexe não, que o que estou dizendo é a mais pura verdade. Seu nome é...?

            –Tília. Sou filha de minha mãe Telma, e de meu pai Telmo. Sou da casa do três “tês”! Isso de me chamar Tília, foi invenção de minha mãe, já que os dois nomes deles começam com “t”. Isso foi coincidência ou arrumação do destino? Tamo morando aqui só faz quatro meses. Ainda estou me acostumando com as pessoas, com a vida diferente de onde viemos. Antes que o moço pergunte, nós morávamos no sertão, aquele lá de dentro, depois da serra, escondido de Deus e dos homens.

            –Porque você fala assim, Tília, não gosta do sertão? E na sua terra como era o tempero de chuva? Bem temperado ou escasso?

            –Chuva pra nós era um presente dos céus, e ninguém sabia quando ia acontecer para molhar a lavoura. Uma tristeza! Estou com os olhos cansados só de olhar para o horizonte, esperando ver uma nuvem escura, cheia de raios e trovoando a gloria da água no pasto. Sabe por que prefiro enchente que seca? Na cheia podemos tomar banho, lavar a roupa, fazer comida e encher o poço d’água. E na seca, que podemos fazer? Ficar engolindo poeira, mastigando barro, enchendo os ouvidos de terra que rodopia com o vento, parece que tem um azougue com Iansã, Senhora dos Ventos.

            –O que você fazia por lá, estudava ou ajudava seus pais? Tinha tempo pra namorar? Ia aos bailes de época? Conte mais pra gente, afinal o ônibus vai demorar a chegar.

            –Sou acostumada com o cabo da enxada, com a roça desde o nascer do sol, até que ele se esconde lá longe, por trás da serra, onde o timbu morreu fedendo. Eu tinha uma vida sem vida, uns dias iguais aos outros, os calos das mãos só crescendo a cada dia de leira. Aquilo não é vida não, moço, pode crer no que estou lhe dizendo. O senhor conhece o sertão? Já passou por lá? Já bebeu água de cacimba? Dormiu em colchão de palha de carnaúba e travesseiro feito com fibra da palmeira barriguda?

–A tapera onde nasci estava cheia de goteiras que pingavam noite e dia os pingos de minhas ilusões. Quando me deitava no colchão de sonhos inalcançáveis, rolava de um lado pro outro, no lombo da espera sem fim, e tentava botar a mão no meu destino, segurá-lo com força pra nunca mais ele fugir de mim.  Nunca consegui.

–Como é que tinha goteira se nunca chovia.

–E o sereno da noite, nunca ouviu falar não, é? Sereno é igual a chuvisco: demora, mas molha. A vida lá é assim. Comemos charque duas vezes por semana, com farinha, feijão e rapadura. Depois um copão d’água, pra inchar na barriga. É um horror, só vendo!  Mas não tem nada não, o eito só me deixou mais forte, corada, e muito mais bonita, digo isto sem vergonha, porque sei que sou mesmo, e daí? Agora tenho mais vontade de viver, depois que saímos da penúria. Não estou dizendo que estamos ricos, de jeito nenhum, mas dá pro gasto. Vendemos o sitio por um bom dinheiro, e mais o gado, e as crias da casa. Aqui na cidade meu pai montou um açougue, que é coisa que ele maneja bem, e vamos tocando o bonde. Mas, chega, já contei minha vida todinha e o senhor que faz pra viver?

–Minha flor de mandacaru, diante de tal narrativa, fico mudo de emoção, calado, diante de tanta sabedoria. Seu dizer parece uma alegoria de vida, um carnaval de máscaras na Marquês de Sapucaí. Creio que você não viveu ainda, apenas foi homenageada pelo deus da tirania. Tão novinha e tão tenaz! Vocês merecem um troféu, um prêmio pela galhardia de uma aventura imposta pelo destino, e bem sucedida. E pensar que aqui na cidade grande, o povo reclama porque o ônibus atrasou dez ou quinze minutos! Pelo que ouvi de sua boquinha inocente, nós citadinos, brincamos de viver, e vocês domam a vida, segurando o bicho pelo chifre, como se ela fosse uma boi bravo, que precisasse ser domado, e posto no curral da existência para ficar sempre com o sentido de domínio, observada initerruptamente para não cometer erros.

Juliano estava embasbacado com a desenvoltura da menina moça, da sertaneja simples e direta em ser; ser como Deus mandou que ela fosse, sem rodeios, sem salamaleques, sem resquícios de prima dona; seca como o sertão em tempos de estiagem, ou seja, em seu eterno tempo.

O que ele poderia dizer da vida? Que nasceu numa casa perto da que vive agora, que foi paparicado pela mãe e pelos irmãos mais velhos, que o pai sempre o protegeu dos perigos da cidade grande. Juliano havia estudado do primário ao término do 2º grau no mesmo colégio, sem nunca repetir um ano; bom aluno, boas notas e uma alfabetização e aprendizado de primeira qualidade. A faculdade fez na Federal para não gastar dinheiro com mensalidades exorbitantes. Quando se formou já estava trabalhando na loja de móveis e ganhava bem. Aspirações? De baixo nível, apenas pretendia se aposentar onde estava mesmo, ganhando um bom dinheiro de comissões de vendas. Dispunha de caderneta de poupança bem recheada, um carro para passear nos domingos e feriados, e priu, a vida estava completa. Casar? Ainda não havia pensado no assunto: um dia quem sabe!!!

Tudo muito diferente de Tília que pretendia escalar todos os degraus da sociedade em que vivia. Subir com imponência e competência. Ia estudar com afinco, com vontade de aprender, para depois exercer um cargo capital em sua trajetória de vida. O passado tinha ficado enterrado no sertão, e para lá não pretendia voltar nem mesmo para uma visita, como se fosse um túmulo de parente esquecido no tempo. Morreu! O tempo se encarrega do esquecimento coletivo.

Dizem que a morte faz parte da vida, e eu digo que, se a vida fosse uma historia em quadrinhos, a morte seria o último quadrinho a ser lido, e a legenda diria: adeus. Assim como a plenitude da presença exacerba os ânimos dos concorrentes pela vitória, a morte apaga memórias, até mesmo dos mais bravios guerreiros de lutas diárias.

Naquela manhã em particular ela despertou enfadada, não havia dormido direito; uma noite longa e inquieta, com sonhos que desejaria não ter sonhado. Em seu sono irrequieto e turbulento, via um exercito de enxadas marchando em sua direção, com o proposito de requisitar suas terras de volta para o gado pascer tranquilo, sem dono ou horário. As pás que haviam sulcado o solo, transformando-o em leirões, pareciam os sentinelas de plantão protegendo o batalhão de grãos de milho, que marchavam em colunas, para a frente de batalha. Tropas suicidas dispostas a retomar o terreno perdido para o inimigo.

De repente Tília viu avolumar-se à sua frente uma companhia inteira de soldados formigas, alinhadas quatro a quatro, marchando ao som da caixa, percutindo seu som vibrante e cadenciado. Os milhares de formigas, organizadas, brilhantes ao sol inclemente, disciplinadas e obedientes pisando forte no solo empoeirado, avançavam em sua direção dispostos a encerrar a refrega em pouco tempo, usando seus instrumentos de guerra, e sua disposição de vencer ou morrer.

Despertou assustada e sentada na cama, molhada de suor, sem entender o que estava acontecendo, o porquê daquele sonho maluco e tão estarrecedor. Haviam saído do sitio havia um bom tempo, estavam vivendo na cidade, o pai trabalhando com honra e vigor, a mãe tomando conta da casa, e ela estudando: por que aquele sonho terrível?  Será que ainda se sentia vinculada ao sertão? Não que ela não gostasse daquelas terras lindas e com tantas serras pintando o horizonte de aventuras nunca vividas, de fantasias mirabolantes. Ela era e se sentia sertaneja, gostava de sua terra, com ou sem chuva, e não queria negar nunca suas origens, só não entendia o motivo de seus pesadelos.

Voltou ao seu cotidiano com ônibus, colégio, estudos, ônibus de volta pra casa e mais estudos para não se atrasar em relação aos colegas de classe. Gostava de sua nova vida, de seus companheiros de colégio, de suas viagens matutinas, quando ficava olhando pela janela do micro-ônibus a paisagem citadina, com suas implicações novelescas de cada habitante, de cada ser com suas peculiaridades e fantasias singulares.  Para ela era como se estivesse vendo imagens de televisão. A cada dia movimentos diferentes nas ruas, pessoas diferentes com historias diferentes. Tília acompanhava tudo aquilo como se estivesse lendo um livro que não terminava nunca; não um romance com começo, meio e fim. Não. Isto não, apenas um romance com várias historias, uma a cada dia. Ah! Como era bom viver na cidade grande, pensava a manceba inexperiente.

Uma manhã bem cedo, ao chegar ao ponto de ônibus, encontrou Juliano sentado no banco, como que esperando-a, pois foi logo dizendo:

–Bom dia, minha princesa, como vai, dormiu bem? Sonhou com os anjinhos?

–Bom dia, seu Juliano, não posso dizer que dormi muito bem. Ultimamente tenho tido uns pesadelos horríveis, e acordo sentada na cama, e suando como “tiradeira de espírito”!

–Tília, minha amiga, pra começar nossa conversa, por favor, não me chame de “seu Juliano”; apenas Juliano, está de bom tamanho. Afinal não sou tão velho assim. E quanto aos pesadelos, você precisa repensar sua vida para descobrir onde está sua insatisfação atual, suas reclamações não reveladas, suas recriminações quanto à vida na cidade, coisa a que você não estava acostumada, até faz pouco tempo.

–Já andei pensando nisto, mas não consigo chegar ao um ponto em que eu mesma possa resolver, sem ter que recorrer a um profissional da psiquiatria. Não sei por onde começar meu raciocínio para conseguir um bom resultado; estou perdida.

–Neste caso, minha jovem adorável, o melhor mesmo é procurar um psiquiatra. Uma ajuda profissional vai lhe trazer noites agradáveis, de sono perene durante toda a noite. Todos nós precisamos dormir bem, para render bastante durante o dia de trabalho, ou estudos. Não pense duas vezes, procure logo um bom médico do ramo da insônia. Mudando de assunto, o que você acha de casca de milho?

–Casca de milho? O que isso tem a ver com meus pesadelos? Juro que não estou entendendo!

–Simples! E se eu disser que você hoje, no café da manhã comeu milho cozido, o que você diz?

–Como você sabe o que comi no meu café da manhã, se você não estava lá em casa? Isto é um joguinho de adivinhação?

–É não, nenhum joguinho de nada, apenas vejo entre seus dentes um pedacinho de casca de milho cozido, e sei disto porque todos os dias eu como milho cozido no meu café matutino.

 –Ah! Meu Deus e eu escovei meus dentes bem cedo, mal me levantei, como é que posso estar desfilando uma casquinha de milho entre os dentes, que vergonha!!!

–Vergonha nada, você deve escovar os dentes depois do café, antes de sair de casa, e, de preferencia, uma vez quando se levanta e outra vez antes de ganhar a rua.

 –Chegou nosso ônibus, vamos subir e, por favor, não vamos falar nem de pesadelos nem de milho. Já estou traumatizada com tantas desavenças em minha vidinha simples de menina do interior.

–Tá bom! Vamos dar um descanso aos seus problemas, e vamos tratar de nós dois, tá bom?

–De nós dois? E o que temos para conversar sobre nós dois?

–Tília minha flor, estou apaixonado por você, e quero pedir para namorarmos seriamente, o que você me diz?

–Digo que “Seu Juliano” pirou mesmo de vez, já que no momento não penso em me amarrar em nenhum namoro, nem que seja apenas uma brincadeira. Tenho muito o que estudar, o que aprender; preciso me preparar para a vida na cidade, com seus desafios, com a concorrência, com a disparada louca para sobreviver com dignidade. Sou jovem, sou do interior, mas não sou burra, “Seu Juliano”, portanto tire seu cavalinho da chuva e vá bater em outra freguesia. Sua petição aqui na minha porta d’alma não tem guarida, desculpe a franqueza.

–Poxa!!! Curta e grossa! Tá bom, já disse tudo e de minha parte já ouvi o que tinha para ouvir e ficar de boca calada. Parece que a franqueza é o seu forte, e sua determinação para alcançar seus objetivos é intransponível, o que muito me admira e enche meu coração de júbilo. Tudo isto em uma menina tão nova é admirável. Só posso dizer: Parabéns Tília! Siga em frente, até porque eu não tenho pressa nenhuma. Meu momento, ou melhor, nosso momento chegará mais cedo ou mais tarde. Paciência é o que não me falta. 

 

 

 

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