Ao mestre com carinho - por Eliane Reis

Ao mestre com carinho - por Eliane Reis

Ao mestre com carinho

 

Segundo Mandela, a educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo, no entanto o que temos presenciado são atos atrozes, uma violência sem precedentes contra os arquitetos e Quixotes que edificam e lutam contra moinhos de vento, visando somente uma sociedade mais justa, em que o cidadão possa tomar posse de seus direitos, em que a democracia não se torne a razão de uma guerra.
É impossível assistir às cenas aterrorizantes que a mídia tem transmitido sem, ao menos, sentir calafrios. Aquele que ensinou o policial a escrever, hoje, recebe como recompensa uma paulada, o desprezo; aquele que politizou recebe como prêmio de seus governantes medidas incabíveis e inadmissíveis, além disso, também o mestre passa a ser tratado com descaso e ironia. “Educação é aquilo que fica depois que você esquece o que a escola ensinou.” Einstein não estava equivocado quando disse isso, porém os resquícios que deveriam ficar dos tempos de colégio, marcados como lembranças atemporais em nossas ideologias têm se perdido nos vãos da ganância e do esquecimento. Fácil esquecer agora aquele que, pela primeira vez, fez com que enxergássemos o mundo a partir de outra ótica. 
Ainda me recordo, não com nostalgia, mas com orgulho da primeira vez que pude ver o mundo através das linhas, através das letras e dos números, quando pude me encantar com os espaços e a História que me rodeavam, que iam agregando à minha vida (ainda menina) saberes e sabores. Daí minha indignação: como pode alguém achar que um educador não deve ser valorizado? Como pode alguém atingir, fisicamente, a ponto de fazer sangrar aquele que nos mostrou as cores do mundo e o caminho para construirmos outros caminhos mais sólidos? Como pode uma sociedade negligenciar a luta desarmada desses profissionais que querem o mínimo de respeito? Não, essas cenas não condizem com o país que se intitula como Pátria Educadora; não mesmo.
Paulo Freire dizia que se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda. Essa verdade indiscutível tem que ser levada a sério, temos que entender, de uma vez por todas, que o profissional da educação é o principal articulador dos variados âmbitos sociais. Ele é o responsável por transformar as pedras do caminho em castelos, não foi à toa que a pessoa de Fernando tornou-se um grande poeta, ele passou por um mestre, tal como eu, tal como você, meu bom amigo, tal como os nossos governantes, tal como toda essa sociedade (que muitas vezes, prefere ser César –lavar as mãos- e se esconder em seu mundinho organizado de onde não dá para ver o calvário). Acordemos! Não é possível fechar os olhos diante do que está acontecendo em nosso país, teremos filhos, teremos netos, teremos outras gerações que virão enquanto algumas padecem; elas têm o direito de encontrar um cenário, no mínimo, decente onde possam plantar novos sonhos. 
A educação é, sem a menor dúvida, a chave para o progresso de uma nação, ela liberta e tem a missão de trazer à luz aqueles que vivem na escuridão. Não existe outro meio que seja tão eficaz e tão transformador quanto os caminhos abertos pelo saber.
Nessa perspectiva, calar-me não é sábio, não é decente; não porque sou professora; não porque sou uma cidadã que luta, assim que sol descortina a escuridão, para ganhar o pão nosso de cada dia; não porque sou solidária aos meus colegas de profissão, mas porque aprendi a valorizar meus mestres desde bem pequenina, aprendi com eles que eu poderia ser o que eu quisesse, aprendi com eles que poderia redesenhar os meus rabiscos e transformá-los em desenhos. Aprendi com eles o significado dos versos “Mas, se ergues da justiça a clava forte,/Verás que um filho teu não foge à luta”. Eles me ensinaram muito mais que Português, Geografia, História, Matemática, Filosofia, eles me ensinaram a Ser, a lutar por aquilo que eu acreditava, isso é impagável. Sou professora por escolha, por convicção, porque amo poder escrever histórias nas entrelinhas dos meus alunos, amo ensinar; mas isso não quer dizer que não queira ser valorizada, a mediocridade não faz parte de nossa ideologia, somos sonhadores por vocação. 
Hoje, data em que comemoramos o dia do trabalhador, creio que seja uma data propícia para refletirmos um pouco mais sobre o trabalho, (a nossa função diária que nos edifica e dignifica, nossa benção ritualística) especialmente, como chegamos à nossa profissão. É imprescindível lembrarmos que todas, sem exceção, foram construídas com a ajuda de um mestre, de um professor. Ele foi o propulsor de nossos sonhos, ele fez com que acreditássemos em futuros. Não creio que mereçam bombas, tapas ou qualquer outro tipo de violência; eles só se armaram de cidadania, de estrelas nos olhos. Ser professor, hoje, é um desafio muito grande, já que estes profissionais passaram a lutar contra outros monstros além dos moinhos de vento. 
Como eu já sou um caso “perdido”, e eles ainda continuam sendo os heróis que me ensinaram a voar e lutar com armas singelas que só ferem a ignorância, não me resta outra coisa: ofereço ao mestre, com carinho, rosas e minha eterna gratidão.

 

 

 

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