As estrelas no tecto da sala - Por Francisco Luis Fontinha - PT

As estrelas no tecto da sala - Por Francisco Luis Fontinha - PT

As estrelas,

Pintadas de fresco no tecto da sala, a placa metalizada onde se lia “não tocar”, frente aos correios o banco de jardim em madeira engolido pelos anos e anos e anos, e foi há tanto tempo, “não tocar”, e ele tocou, a mão imprimida numa nuvem de fumo, os cigarros quando acordam mal dispostos e a dor no estômago, o batimento das ripas de pinho entre os parafusos das tuas coxas, recorda-se ele, as conversas que tínhamos, murmura a sílaba folheando livros e acariciando a pétala de rosa que o ponto de interrogação lhe ofereceu, há tanto tempo, e foi há tanto tempo que as estrelas deixaram de se embrulhar nos lençóis de sombra que a tarde construía, e da noite, e da noite depois da noite, na madrugada,

Kafka embainhado no PROCESSO, e os olhos da vogal tingiam-se de negro,

A sílaba em gemidos de desejo nas mãos do ponto de interrogação, um silencioso Ai despe-se e os seios em queda livre no peito dele, a mão direita do ponto de interrogação em palmos milimétricos, percorrem a pele fina e escura da sílaba, uma pausa no umbigo, abre o vidro e lança a beata do cigarro de encontro ao pavimento do envelhecido paralelo granítico, fecha o vidro, destrava a mão e em acelerações de lesma recomeça a viagem até ao púbis encolhido nas calças de ganga, um obstáculo, e a mão entalada no cinto de couro,

E agora?, pensa o ponto de interrogação,

A mão emagrece e contorna o obstáculo, a sílaba em gemidos aumentados, PÁRA, POR FAVOR, eu começo a reduzir a velocidade até me imobilizar numa zona semeada de arbustos espessos, A relva do jardim?, o ponto de exclamação que ia a passar nesse momento acena-me com a cabeça que não, não é relva, POR FAVOR, PÁRA, e eu pensava, Eu estou parado!,

A mão desprega-se do meu corpo e entra dentro das calças dele, e desgovernada como um automóvel pela ravina até ao rio, cambalhotas e cambalhotas, e quase quando ela chega à água finíssima do douro, uma coisa cilíndrica grossa e dura, o xisto humedecido sobre as fendas da terra,

Entro na garganta das coxas dela, e a sílaba uma enguia quando sai do rio, a sílaba suspira e transpira, a sílaba engolida pelo ponto de interrogação, a frase move-se no texto encolhido na noite, a frase um amontoado de gemidos e latidos, e do texto pedacinhos de letras começam a saltitar, o xisto humedecido sobre as fendas da terra, e os minutos intermináveis de silêncio,

Kafka era louco, a vogal para mim,

O ponto de exclamação diz que não, estrelas pintadas de fresco no tecto da sala, Se estou a vê-las!, e eu não acredito nas palavras da vogal,

Era só o que faltava, estrelas pintadas de fresco no tecto da sala!,

Frente aos correios o banco de jardim em madeira engolido pelos anos e anos e anos, e foi há tanto tempo, e foi há tanto tempo que a Primavera deixou de viver…

O desejo de viver entrelaçado nas estrelas da manhã,

O ar que respiro das palavras que escrevo e que não me servem para nada, para uns sou louco, para outros, nada, um conjunto vazio, o zero invisível na madrugada, a força constante num segmento de recta quando se extingue na ardósia da tarde, as palavras morrem depois de as escrever, leio o texto, e deixa de fazer sentido, ele pergunta-se, e eu também me questiono, Para quê?, Porquê?, quando fiquei frente ao Tejo a contar os automóveis que passavam e os meus olhos prenderam-se ao comboio em passos apressados para Cascais, e desde aí, desde aí nunca mais tive olhos, a cegueira completa de mim quando olho um rio, e nunca sei, nunca sei se esse rio corre para o mar ou o mar que corre para esse rio, E quando o mar se evapora e de deixa de existir?, e ela tem razão, a roseira que me pica os braços que por sua vez noutros tempos quase picados pelas abelhas de êmbolo, e eu, e eu adormecido na noite e via a agulha a tentar absorver-me, eu fingia-me morto, baixava a cabeça e a agulha procurava outro corpo, outros braços presos ao teu pescoço, o comboio acena-me e a minha distracção estampada no meu rosto, conversava com os arbustos que me olhavam e me diziam,

Um dia as  palavras vão fazer sentido, e eu cuspia-lhes no rosto e em voz mergulhada nas pedrinhas dos passeios respondia-lhes que não, as palavras nunca fazem sentido,

E quem as lê constrói sentidos, sentido proibido, E agora é que me dizes que é sentido proibido?, “se fosses passear” arbusto, quer dizer, quer dizer depois de entrarmos nas coxas de sentido proibido é que me avisas que é sentido proibido, olha digo-lhe eu, vai mesmo assim, e quero lá saber,

As tuas palavras não fazem sentido porque tu não sabes escrever, diz-me o arbusto e continua, e sabes, não sabes escrever nem sabes fazer nada, és um absoluto zero,

Os cubos de gelo derretem-se nos arbustos por baixo do umbigo e ela com a mão acena aos veleiros estacionados em Algés, ele a cultivar o terreno agreste do corpo dela, e a terra em gemidos no rego de água começa a levantar-se e a remexer-se no chão alcatifado do quarto, junto ao rodapé a nespereira plantada pelo avô em centímetros de altura, e debaixo da cama o feno fresco da manhã para a amarela, a vaca poisava os cornos sobre a mesa-de-cabeceira e suspensa nos cornos da vaca as cuecas dela desenhadas numa noite de verão ao balcão de um bar,

Ignorante, o arbusto para mim, e cada vez que acariciava as pernas dela ele não me deixava esquecer que o vento passa e nunca mais volta, e porque será, perguntava-me ele, E porque será?

O terreno do corpo dela macio e em pedacinhos de algodão, a janela aberta, a rua deserta, os pedacinhos que se despregavam dos ramos e saíam janela fora, o vento os levava como leva as minhas palavras, E para quê?, o arbusto a sorrir-me, ela enrolava-se nos lençóis da cama onde em cada sessenta minutos corpos carnudos e corpos emagrecidos poisavam como fios de sémen na gruta do púbis, e os comboios de Cascais interrompiam-se nas coxas dela, o maquinista saía fora e lançava um berro contra o segundo andar da pensão,

É para hoje?

E uma voz de silêncio respondia-lhe que estava quase; falta pouco...

 

(Ficção)

Francisco Luís Fontinha – Alijó - Portugal

 

Publicado 08/01/2014

Conheça outros parceiros da rede de divulgação "Divulga Escritor"!

 

       

 

 

Serviços Divulga Escritor:

Divulgar Livros:

 

Editoras parceiras Divulga Escritor