As Montanhas - por Ione Kadlec

As Montanhas - por Ione Kadlec

Quando a chuva cansada resolveu dar uma trégua, Helena fechou o guarda chuva e continuou a caminhar.

Rancorosa, iracunda, calada e sem perspectivas.

De calçada em calçada, movia-se.  A verticalização do bairro, os carros em excesso, rosas alegres com o banho na chuva passavam despercebidos dos para-brisas oculares.

O mundo continuava a girar. Sustentando por nada, feito bola lambida por uma esfera maior, amarela que, do alto, se mostrava apenas durante o dia.

Como o mundo é estranho! Desabafou em si, ruminando.

Sim! Tinha o hábito de ruminar coisas que nela não agradavam.

Constantemente, remoía ideias, pensamentos alheios. Jogava-os para o seu estômago - cérebro – e, após eles voltavam à boca, desejosa de responder. Por fim, desistia e tornava a mastigá-los.

O que será que há de mais profundo em nós mesmos?

- Amor! - exclamou uma jovem que por ela passava.

- Sim! Eu sonho ser amada. – respondeu a outra. 

Por elas, passou indiferente, mãos no bolso do cardigã, guarda chuva apoiado no antebraço. Não reparou nas feições daquelas meninas, apenas refletiu sobre a palavra ouvida: amor!

Amor! Repetiu, dentro de sua caverna interior, repleta de sombras escuras, fogueira apagada, brasas enegrecidas, cuja linguagem era artes rupestres que desenhava nas paredes da mente. Aqui e acolá, acendia uma vela nesta negritude esquecida e reconhecia os desenhos feitos com lápis e carvão, datados do tempo em que os raios eram obras de Deuses pagãos.

Apenas quem, de fato, sentiu-se amada para de correr, de se estender sobre flores que, em cachos, florescem aglutinadas. Cessa-se a busca frenética. Degustam-se as várias luas que majestosas saúdam o lembrar-se. E quando, em nós, a emoção retorna, inunda a alma que, cheia dela, viaja para o topo das montanhas e em felicidade se farta.

Para os que nunca sentiram, existe o caminhar sombrio das outras luas que sempre hão de se elevar nos topos das colinas, sempre mais baixas que as montanhas.

Só então percebeu o brilho do sol que, tímido, se estendia sobre todas as calçadas. E do asfalto, de calçada em calçada, partiu para a montanha mais alta. E, lá, no topo encontrou-se completa, pois amou e foi amada. O que será que há de mais profundo em nós mesmos? O amor! – respondeu.

 

Publicado em 22/04/2014

 

 

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