As pimenteiras - por Luiza do Oh

As pimenteiras - por Luiza do Oh

As pimenteiras

 

À frente da minha casa foram plantadas umas pimenteiras. Eram frágeis. E eu cuidei delas. Reguei. Limpei de ervas. E quando o vento as sacudia e queria abalar, segurei-as ao gradeamento e elas firmaram as raízes e o tronco. Guiei-lhes o crescimento com algumas podas cirúrgicas. Estavam lindas as pimenteiras. Os anos passaram e elas tinham um tronco grosso, de jovens árvores amadurecidas.

Mas veio o fim do Inverno. E uma trupe de serra em punho avançou para elas e fez cortes sem piedade! Cortaram ramos grossos, à toa. As pimenteiras sofreram. Sentiram-se. E eu sofri com elas. Vi as suas lágrimas brancas jorrarem e cobrirem os cortes do tamanho da palma da mão grande que empunhara a serra. Vejo diariamente as folhas tristes, acastanhadas e mirradas. Passaram meses... e sofrem. Ainda. Sofrem o rude golpe que lhes cortou o crescimento, o viço.

Sei que elas vão voltar a ficar bonitas, de ramos fartos, de frutos brilhantes. Sei que estão no período do sofrimento, no caminho da superação. Mas estão vivas e tentam gritar vida logo ao emergirem da terra, ansiando por tempos de folhas verdejantes, cheias de cor e brilho. A experiência das lides campestres diz-me que essa é uma vida fácil, uma vida que lhes rouba o vigor. "Ladrões", era o que o meu pai chamava a esses rebentos quando das vinhas se tratava. E eu, olho-as, na esperança do dia em que sararão das agressões da vida malvada e alegrarão de novo o passeio na frente da minha casa. Mesmo no tempo da dor a esperança não morre. Lembrei-me de Hermann Hesse. Até parece que ele conhecia as minhas pimenteiras... Escreveu assim:

"Quando a uma árvore são cortados os ramos da copa, vão-lhe nascendo mais perto da raiz novos rebentos. 
Do mesmo modo, também as almas que ao despontar adoecem e quase fenecem regressam frequentemente à primavera dos sentimentos, à apreensiva infância onde tudo começa, como se aí pudessem encontrar novas esperanças e reatar o fio condutor da vida que antes fora quebrado. Os rebentos que brotaram perto das raízes anseiam por uma rápida ascensão, mas tudo não passa de uma ilusão, pois nunca a partir deles se voltará a desenvolver uma verdadeira árvore."

 

 

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