As ruínas e o cão - por Ione Kadlec

As ruínas e o cão - por Ione Kadlec

As ruínas e o cão

 

- Primeira lição da vida, Rafa. – disse o pai, ressentido com a dor do filho. - Palavras podem ser costuradas, alinhavadas, torcidas e retorcidas, pontilhadas e, finalmente, rasgadas. Rasgue-as! Passe uma borracha nesta folha de papel.

Você amará outras vezes e de forma diferente, pois quinze anos, só temos uma vez na vida.

Nunca mais tocaram no assunto, porém Rafa nunca rasgou aquela folha de papel. Vira e mexe a procurava em seu arquivo mental.

Vinte e cinco anos depois, compreendeu que Carolina tinha a sensualidade da lua. E como esta, mudava a forma, a fase e a claridade. Mantinha ares constantes de piedade dos infelizes que desconhecendo as subidas das marés se afogavam.

Brilho falso que, primeiro, incendeia e depois acaba como carvão nas antigas locomotivas em desuso, cuja luz difusa confunde, amontoada sem significados.   Lapidação forçada e de valor secundário, julgava-a.

Ela era minguante de modo que só mostrava, apenas, cerca da metade lunar em qualquer estação do ano.

A parte iluminada deve ter diminuído progressivamente como uma canção que renova, ampara, qualifica para desqualificar.

Era assim Carolina.  

Mas porque ele não a abandonava, pensava.

Após tantos anos, ainda a mantinha presa em sua vida. Porque continuava ele a procurá-la em cada casa vazia?

Carolina, Carolina, onde andarás? Como será que você está Carolina? Pensava, jogando pedras no ar.

Tom, o labrador, deitou-se ao seu lado. Zelo ao observar-lhe, reconhecendo no dono uma sensação de fome que nunca saciava.

Caminhou até a caminhonete. Abriu a porta. Tom se acomodou, confortavelmente, no banco do passageiro e rosnou, comemorando o fim de uma etapa, o fim de um ciclo e satisfeito rosnou agradecido.

Sim, Rafa fora demolido e o único que o compreendia era Tom que nunca gostou de casas vazias.

- Restou-me, apenas, um pedaço de pão. A manteiga é para colorir o gosto amargo deste chão.  Este sou eu! – confidenciou Rafa. 

O silêncio, então, gritou no corpo quebrado que partia. O cão latiu.

Sabe-se que sua demolição interior permanecera para sempre em ruínas.

 

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