As Amantes - por Anchieta Antunes

As Amantes - por Anchieta Antunes

 

A S        A M A N T E S

 

         Otacílio, nos seus idos de quase setenta anos, resolveu numa manhã de extremo calor, e depois de uma noite mal dormida, que devia, que queria, e que ia arranjar uma amante. Estava farto de dormir sozinho numa imensa cama de casal. Afinal de contas, casamento para que serve?

         Otacílio foi pai muito jovem, quando ainda não havia entrado nos vinte anos de idade. Sua esposa Lucia, moça prendada e de rara beleza para os padrões da época, esforçava-se para agradar o marido, um turbilhão de ímpetos e emoções diárias, uma verdadeira avalanche de vida   Tiveram doze filhos; melhor, ela pariu os 12  doze, ele ajudou um pouco, nos começos de noites em que chagava cedo em casa. Depois da broa de milho e de um café forte, ia pra cama pronto para desempenhar seu papel de macho do lar.

         Lucia paria sem nem mesmo gritar; não reclamava nunca, só tinha olhos e vida para o marido amado. Ia pra cama sorrindo sempre que ele piscava o olho com seu ar zombeteiro. Filhos? Era um fora e outro dentro. Em 16 anos, doze alminhas aflitas vieram ver a luz do sol. Lucia não perdeu nenhum filho; também, com os cuidados que tinha com cada um, não podia mesmo perder um rebento  saudável. 

         Lucia amamentou cada filho durante um ano, ou seja, durante 12 anos deu de mamar à sua prole exigente. Seus lindos seios juvenis, empinados, rosados, macios e atrevidos estavam uma miséria, uma catástrofe; dois molambos arriados sobre uma barrida pontuda, não faziam jus à sua postura de altivez, vencida pelos cuidados maternos com os rebentos já quase adultos.

         Otacílio olhava para aquela figura que ele tanto amava e ficava com raiva da natureza madrasta. Seu ímpeto masculino havia acabado com sua linda e esbelta mulher de antanho. Ele  não se achava culpado, ela também não; ninguém era culpado pelo que acontecera com o corpo de sua amada. O tempo não só apaga o passado, como destrói a matéria. É certo que Otacílio continuaria amando sua mulher, mas ele precisava de sexo e sua companheira estava cansada, exausta, debilitada e não queria nada com sexo, com um peso assustador em cima de sua barriga emasculada de valores conspícuos. Queria dormir, apenas dormir, por todo o resto de sua vida.

         Otacílio lutou por mais de seis meses para encontrar uma jovem de 50 anos, ou mesmo de 60; não encontrou; estavam todas ocupadas ou comprometidas com outros jovens de 55 ou 60. Depois de muita relutância ele decidiu que apelaria para mulheres de 65 ou 70 aninhos, contanto que estivessem aprumadas, saradas, empinadas.

         Um ano depois estava no auge da felicidade com sua amante septuagenária, ou seja, uma beldade com seus avançados 76 aninhos. Era esbelta, com olhos grandes (também com 6 plásticas repuxando o couro da cara, qualquer olho fica grande), lábios carnudos, ( cheios de silicone), um busto de fazer inveja a furacões da mídia social, (seios turbinados e com medo de agulhas por perto). 

         Ele com o cós da calça coberta pela barriga incipiente ( bota incipiente nisso...), as canelas finas e os peitos balançando ao som da mais suave valsa de Strauss, achava-se um verdadeiro galã de novela. Meu amigo, a verdade é que depois dos 70 qualquer coisa é o melhor da vida.

         Como sua amiga não aguentava sabugo todas as noites, ele  foi obrigado a conseguir outra aventura. Ele, já com 72, teve que aceitar uma amiga da amiga de 83, com todo o vigor da juventude descaída da margarida despetalada. Virginia (veja só que nome: Virginia; mais rodada que saia de baiana). Virginia tinha um corpito de 75, estava inteiraça, a pele reluzia como se fosse de menina nova (porções de cremes aplicados cinco vezes ao dia).

         Uma noite foram passear no parque da cidade. Era época de festa popular. Virginia disse que queria andar na Roda Gigante.

_Meu amor, é perigoso, vamos procurar uma brinquedo mais suave!

_Não senhor! Quero a Roda Gigante, ta pensando o que? Sou destemida, e um brinquedinho destes não me assusta.

         Foram! Fazer o quê? Ela pagava, ele obedecia. Lá em cima, na cumieira  do céu, Virginia sorrindo para a vida, para o prazer do desafio, com os braços abertos, como se estivesse orando para o Ser Supremo pela benção da existência, recebeu sem esperar, um sopro de vento. Um vento forte, robusto e desafiador. Que vento foi este que, sem apelação, levou pra bem longe a “chapa” (dentadura, prótese, como queiram chamar) da incauta admiradora dos astros.

         Otacílio não percebeu de imediato o acontecido e continuou desfrutando de seu passeio nas alturas. Quando olhou de “soslaio”, ou seja, quando “espiou de bandinha”, vislumbrou um mastigar diferente de sua amada amante. Ela parecia estar mastigando as gengivas...

_Que foi que aconteceu, meu amor?

_...”e o vento levou!!!”...

_Levou o que, meu amor?

_Levou minha jovem dentição, e não sei pra onde!

_Não se preocupe, eu tenho um amigo que mora no Bairro Novo que é um excelente protético. É verdade que ele está com 93, mas continua um ótimo profissional.

_Mas nem morta, Um protético do Bairro Novo, com 93 anos, vai fazer o quê, com minha boca? Pode ficar com ele, se quiser eu enrolo pra presente!

         Virginia ficou sem dentes, Otacílio sem amante, e Lúcia com o marido importunando novamente.

Otacílio pensou em conseguir outra amante, mas naquela altura da idade, só iria escolher candidatas acima de 85 anos.  “Melhor ficar quieto” pensou ele, e  voltou para dormir com sua amada mulher.

         Otacílio jurou que nunca mais andaria de Roda Gigante, nem mesmo Roda para anões.

 

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Anchieta Antunes – Copyright

Gravatá – 26/01/2015.

 

 

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