Azedume - por Maria Estela Ximenes

Azedume - por Maria Estela Ximenes

AZEDUME

 

            A árvore estava carregada de goiabinhas  vistosas pedindo para serem colhidas.  Mesmo sentindo o  galho balançar subo para alcançar a fruta mais alta colhendo três goiabinhas antes de  deslizar  para o chão. Ali mesmo fui provando, os dentes triturando a frutinha  aparentemente apetitosa, mas muito  azeda, a ponto dos meus  olhos de criança arderem. Pensando  que não poderia existir algo mais azedo na vida cuspi  os restos da fruta para observar com horror que além de azeda, a goiaba tinha dentro de si bichinhos asquerosos mais conhecidos como tapurus, o  nojo me fez  resmungar.

            Se antes admirava e desfrutava  a sombra daquela goiabeira,   a  vontade agora era de apedrejá-la tamanha a minha  revolta, então fui embora sem goiabas ou desfrute de goiabas. O fato de eu ter ido colher a fruta  sem a permissão da minha mãe não me incomodou pois  havia  feito isso inúmeras vezes, o que causou incômodo foi o sabor azedo na língua e a visão dos tapurus. Desde então,  passei a detestar alimentos azedos, frutas azedas e  tudo que fosse amargo.

            Anos mais tarde, esquecido das goiabas e determinado profissionalmente,  senti o azedume de alguém; durante a apresentação de um projeto para uma empresa, a pessoa responsável pela aprovação do trabalho demonstrou total descanso,  ali estava  um corpo sentado com pensamentos incomunicáveis, olhar frio e  vazio,  fala brusca e desmotivada. Recordei   daquele menino que na infância escalou na  goiabeira  para colher o fruto atraente,   desprezando-o por causa do gosto   azedo.

            O clima amargo  permanecia na sala, a pessoa mal dialogava comigo, tampouco estudava o meu projeto, com uma postura  radical  mostrava querer encerrar a reunião que mal  havia iniciado. E para acompanhar a atmosfera do lugar, foi servido suco de limão,  só faltaram os tapurus para ser  coadjuvante, pensei.

            Se bem que, se fosse hoje eu teria arrancado  aquele inocente bichinho nojento hospedado  na goiaba e provado  a fruta que  mesmo azeda, possuía  certo sabor, porque o sabor azedo de qualquer fruta não se compara com o azedume de uma pessoa.

 

 

 

            

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