Azuis - por Regina Alonso

Azuis - por Regina Alonso

Azuis    

                                                                                                                  

Regina Alonso

 

   A cigarra de outono em seu canto melancólico anuncia a partida. Ainda é maio. Na visita ao hospital em SP, a tia sorridente a fazer crochê, avisa que terá alta dali a 2 dias. E tem, mas ocorre o inesperado: a queda em casa e o retorno ao hospital. Domingo, volto a Sampa, pois a tia de olhos azuis feito as águas do mar está agora na UTI. Dias depois, o telefonema e o corre-corre paras as providências do enterro em Santos. A exigência correta de procedimentos para que não haja contaminação do lençol freático e pasmem, amigos leitores, aqui na cidade (que criou a lei) inexiste o serviço; só em Praia Grande. Para encurtar a "Via Sacra", o tratamento especial é realizado em São Paulo. Mesmo assim,o velório inicia-se à noitinha, tendo o falecimento ocorrido às 6h da manhã.

   Olho a tia coberta de flores, a pele alva do rosto e as mãos roxas e inchadas pelas constantes interferências durante a hospitalização. Em mim a lembrança dos dedos ágeis costurando com minha mãe as roupas dos filhos e sobrinhos, ao todo, 10 crianças. Se o vestido de festa era de organdi, nunca sentimos a aspereza do avesso, pois a tia prestimosa arrematava as costuras com delicada e macia fitinha de cetim. No velório, reconheci na calça comprida da única filha viva, a barra de crochê que tecia quando a visitei: a tia fiandeira jamais deixaria seu trabalho inacabado. Tinha o sentido do outro, do fazer prazeroso para a alegria do que recebesse a dádiva. Quem dá também recebe, de alguma forma – e a filha elogiava (os amigos também) a alegria que se espalhava na casa, com os biquinhos de crochê arrematando cada paninho sobre o fogão ou móvel da sala... Vocês devem com certeza ter a memória de alguma "aranha azul" na família.

   O cortejo arrasta-se sob o sol "quase" argelino, memória de Camus, que nutria o sentimento de amor incondicional à mãe surda; o filho sentia o silêncio e a mudez desde sempre, na sua presença quieta, contida. Assim também a tia, de quem só ouvi gritos, quando perdeu dois filhos, no espaço de uma semana. Fez-se outra, a rasgar fotos e lembranças, fera ferida incontida por quem quer que fosse. Quem se encorajaria a represar essas águas  revoltas? Tia de olhos azuis acalmou-se entre preces, crochês e olhares perdidos. Bondade é assim, não tem desgraça que derrube. Penso que é mal de família, pois sua irmã (e minha mãe) também era assim. Tecia com as mãos a harmonia da casa, costurando as vestes, cozinhando almoço e jantar para oferecer à mesa de mais de 13 lugares. De olhos azuis esmaecidos e  sorriso tímido nos lábios, boca que se fechou trêmula ao perder as filhas, contendo o pranto para confortar os netos.

   Talvez vocês me achem hoje triste demais, porém não dá para rir quando se perde  olhos azuis que nos atravessam de um sentimento único, bondade de ser, de fazer pelo outro, de continuar e continuar vivendo na alegria apesar da dor. Alegria que é mais conformação com o inexorável, com o tempo que flui, com a morte certa. Mulheres irmãs que viveram a cultivar a harmonia, sempre, sem esmorecer. Mulheres que se foram para o céu, integrando-se no azul.

   Algumas ainda permanecem aqui e me levam por essas águas calmas. Da varanda, o mar encapelado traz a memória de outra (uma só, graças a Deus), olhos turvos... e no cotidiano existir bate com fúria, sem trégua, como as águas revoltas em dias de ressaca . Mas isso já é outra história...

 

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