Cabeça vazia, oficina do diabo! - por Rubens Silva

Cabeça vazia, oficina do diabo! - por Rubens Silva

Cabeça vazia, oficina do diabo!

 

Meu irmão mais novo foi manobreiro das composições ferroviárias que transitavam por Jaguari, Santiago e Santa Maria e durante sua carreira protagonizou algumas histórias hilárias. Frutos de uma imaginação fértil e do ócio, pois os trens começaram a escassear em virtude da depreciação do transporte ferroviário. Desse meio de transporte tão importante já não existe mais nada. A Rede Ferroviária Federal foi privatizada. Os trilhos, algumas estações, palcos de tantas histórias de vida, hoje estão servindo como espaços culturais ou museus. Outras tantas estão completamente abandonadas, verdadeiras ruínas servindo de refúgio a drogados e bandidos de todos os matizes.

A cada reencontro rememoramos nossas lembranças surgindo histórias muito hilárias. Os trens costumavam passar com intervalos muito longos. Ele e seus comparsas ficavam maquinando o que fazer para passar o tempo ou para tornar os dias mais emocionantes. Normalmente quem pagava o pato nessas brincadeiras eram os animais ou as pessoas que passavam pela plataforma da estação, alheios às armadilhas que armavam.

Exímio e paciente artesão trabalhava nas horas vagas com a confecção de gaiolas para pássaros. Certa feita, percebendo que pessoas passavam numa roleta próxima para irem para suas casas. Resolveu preparar um tropeço próximo a roleta só para ver o que acontecia. Pegaram, ele e seu amigo, um pedaço de arame e fixaram-no na cabeça de um trilho e na travessa de freio de um vagão que estava estacionado, de modo que o arame ficasse na altura da canela da pessoa que fosse passar no caminho. Para facilitar e para variar estava chovendo, havia lama no local. O tombo seria mais interessante. Após instalar o apetrecho macabro ficavam à espreita numa janela da estação através de um vidro quebrado onde podiam observar sem serem vistos. Quando os pedestres tropeçavam e caiam, os dois amigos travessos riam-se da desgraça alheia.

Noutra ocasião passaram fezes na roleta. Um grupo de adolescentes todos arrumados e com seus uniformes impecáveis para ir à escola obrigatoriamente tinham que passar ali. Mais uma travessura maquiavélica estava engendrada. No seu ponto de observação ficavam apreciando o espetáculo.

Primeiro um grupo de rapazes. Cadernos nas mãos, blusa de frio na outra passavam na roleta, sujavam as mãos, cheiravam, e comentavam:

- Rapaz me sujei aqui tche! Hi, que fedor! Acho que é merda.

- Que nada, deve ser lama.

- Lama nada – Cheirava novamente – é merda!

- Não é possível cara! Quem iria cagar nessa roleta? Deixa-me ver.

Passava o dedo na merda e cheirava novamente:

- Que horror, que nojo! Quem será o FDP que fez essa cachorrada com a gente?

E assim, passavam o tempo, inventando traquinagens e rindo-se da desgraça alheia. É como diz o ditado, cabeça vazia oficina do diabo.

 

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