Capitulo 3 - O Outro - autor Mário de Méroe

Capitulo 3 - O Outro - autor Mário de Méroe

O ENCONTRO

Excerto do livro “O Outro”, de Mário de Méroe, Editorial Paco – Jundiaí-SP

 

Certa vez, perambulando pelos caminhos conhecidos do deserto, ao cair da tarde, Gestas observou um casal de judeus, que procurava um lugar para passar a noite, visivelmente extenuados pela longa viagem.

Haviam saído de Belém, da Judeia, e procuravam alcançar o Egito, circundando o Monte Sinai e seguindo pelo imenso deserto da região. O pequeno grupo compunha-se de um homem, não muito jovem, uma mulher e um menino.

Escondido, ele esperou a pequena família acomodar-se ao redor de uma fogueira improvisada, tomar uma frugal refeição e preparar-se para passar a noite naquele lugar ermo. Observou, com certo desdém, que a família fez suas orações antes de dormir.

Após algum tempo, com o casal já adormecido, Gestas aproximou-se, silenciosamente, procurando o alforje que levavam, onde esperava encontrar algo de valor para furtar. Localizou uma pequena bolsa, que continha apenas alguns ciclos[1] de prata e outras pequenas moedas da época. Era toda a fortuna daquele casal.

O assaltante apanhou as moedas e procurava escapulir sem ser notado, quando olhou para o lado e viu que o menino estava sentado e o olhava calmamente, com um sorriso de compreensão no rosto.

Surpreso, o ladrão ficou com receio que o garoto chorasse ou desse o alarme. Então teria que matá-lo, o que contrariava suas convicções. Mas para sua surpresa, o menino sorriu como se ele fosse um amigo, levantou-se e caminhou em direção ao ladrão. Este esperava o momento para fugir, mas sentiu-se paralisado quando o garoto disse-lhe o impensável:

─ Leve o que precisar, mas deixe algumas moedas, pois é tudo o que temos para conseguir comida. Nós viemos de muito longe!

Gestas ficou estarrecido. O menino não demonstrou medo, e ainda ofereceu-lhe uma oportunidade de levar o dinheiro e o que mais desejasse, embora fosse evidente que o casal não dispunha de outros bens.

 Como que aprisionado por aquele olhar tão límpido, puro e calmo, com um estranho sentimento dominando seu coração, o ladrão, envergonhado, devolveu todo o dinheiro que furtara. O menino pediu-lhe que levasse algumas moedas.

─Com elas você poderá comprar alguma comida, até conseguir melhorar sua situação, disse serenamente o garoto.

Gestas, mal contendo a emoção, separou duas moedas de menor valor, ficou com uma, e disse:

─ Guardarei esta moeda, como lembrança de uma pessoa que não me olhou com raiva ou com desprezo. Vou-me embora; volte a dormir, garoto!

Então, algo surpreendente ocorreu: o menino pediu a Gestas que lhe devolvesse a moeda; a seguir colocou as duas na palma de sua mão e beijou-as, para espanto do salteador.

─ Essas duas moedas agora são místicas[2], segredou-lhe o menino, sussurrando. Serão o nosso berith[3]. Fique com uma, e eu guardarei a outra comigo e nunca nos separaremos delas. Assim, nós tornaremos a nos encontrar, em algum momento.

O menino olhou para o salteador, e fez um sinal de bênção, dizendo:

─ Vá em paz, que Deus o abençoe, completou já em voz normal, voltando a aconchegar-se junto aos seus pais, que continuavam dormindo e nunca souberam do ocorrido.

Gestas, ainda chocado com o inusitado final daquele “assalto”, sentou-se à sombra de uma grande pedra e meditou profundamente.

─ Coisas estranhas aconteceram. O garoto não gritou, ofereceu-me dinheiro e ainda me abençoou. Isso não é real; será que a loucura está finalmente chegando para mim?

Retornando à sua caverna, o salteador, mal contendo as lágrimas, contou o ocorrido a Salomé, mostrando-lhe a pequena moeda.

─ Até como ladrão sou um fracasso, resmungou. Fui dominado pela personalidade de um simples garoto!

─ Você poderia ter roubado todo o dinheiro deles, admirou-se Salomé. Eles estavam adormecidos, talvez pelo cansaço da viagem, e o menino seria facilmente dominado. Mas você não o fez por alguma razão especial, e estou contente com isso. Algo me diz que esse menino ainda será muito importante em nossas vidas.

─ Ele parecia irradiar uma força tal, que eu me senti pequeno diante dele. Ao mesmo tempo, senti-me amparado, como se um gigante estivesse me protegendo, completou o assaltante, ainda admirado com o ocorrido.

Gestas não se separou da pequena moeda até o ignóbil fim de seus dias, e somente voltaria a encontrar-se com aquele menino já adulto, na ocasião em que ambos seriam crucificados.

O salteador não fazia a menor ideia de que, naquela ocasião, havia cruzado com a Sagrada Família quando de sua viagem para o Egito, fugindo do rei Herodes, que queria matar o menino[4].

 

 



[1] O Siclo, a Mina e o Talento eram peças ou barras de metal (prata ou ouro) usadas como meio de pagamento Cf.(II livros dos Reis,18:14). Inicialmente, o ciclo era uma peça de prata, valendo por seu peso, e não uma propriamente moeda.

[2] Em linhas gerais, o misticismo judaico é também conhecido como cabala.

[3] A palavra “berith”, do hebraico, tem aqui o significado comum de aliança, pacto, acordo.

[4] Cf. Mateus 2:13

 

NOTA:

O livro “O Outro”, de Mário de Méroe, foi apresentado na 23ª Bienal Internacional do Livro em São Paulo, de 22 a 31/agosto/2014, na estande da Garcia Edizioni.

Disponível para venda em Cantinho do Leitor:

http://www.cantinhodoleitor.com.br/o-outro.html?filter_name=O%20Outro

 

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