Casa de ferreiro, espeto de pau - por Silva Neto

Casa de ferreiro, espeto de pau - por Silva Neto

 

Toda cidade tem seus atrativos turísticos, seja do Interior ou da Capital. São lindas paisagens da geografia do lugar, museus (arquivos de sua história), ruínas, grutas, cachoeiras, bicas, casarios arquitetônicos, artesanatos, culinária, ou, simples recantos pitorescos que, ao longo do tempo, ficam famosos, atraindo turistas em busca de novidades.

Aqui, no Recife, como em toda cidade grande, existem pontos turísticos diversos, entre museus históricos, casarios centenários, bairros inteiros refletindo suas origens. O Recife respira cultura por todos os poros, todas as esquinas, vielas, sobrados. Suas pontes e o próprio traçado do Rio Capibaribe serpenteando e dividindo seus bairros centrais, transforma a cidade, geograficamente, em uma das mais belas do país e das Américas. No entanto, sua população fecha os olhos à beleza e riqueza cultural de que dispomos, por mais que os poetas, compositores e cantores populares, cantem em verso e prosa seus encantos naturais.

Os pontos turísticos são pouco frequentados pela população local. A paisagem sem admiradores, os quais se dizem acostumados e cansados da beleza estampada a olho nu todos os dias, são desculpas esfarrapadas, daquilo que chamamos, de “Casa de ferreiro, espeto de pau”.

No passado existiam recantos turísticos pitorescos, dizimados e substituídos por tantos outros no presente.

 Quem não se lembra do “Buraco de Otília”, da Rua da Aurora, quase secular? Famoso restaurante até os anos noventa do século passado. O “Café do Nicolas” ou “Café Nicola” como chamavam, o “Bar Savoy”, ambos na Av.Guararapes; o famoso “Bar Gambrinus” da Rua Marquês de Olinda, Bairro do Recife, no mesmo prédio da “Boate Chanteclair”, hoje desativados, e tantos outros. 

 A “Confraria dos Chifrudos”, no Mercado da Madalena, é um dos redutos dos chorões por amores perdidos, lavados à cachaça, conhaques, uísques, trazendo grafada em uma placa na entrada do bar, essa frase de boas vindas aos clientes: “Quem não for corno seja bem-vindo; quem for, toque o sino”. O cardápio, voltado para a cozinha regional, reúne bode guisado (R$12,90) e miúdo de galinha (R$10,00), ambos guarnecidos por cuscuz ou macaxeira cozida, em proporções suficientes para duas pessoas, embora a maioria dos fregueses adentre solteira, por razões óbvias, é claro!

O preço é atual, (esqueci de dizer).

Pontos turísticos nas cidades pequenas são mais frequentados pela população local ao contrário das Capitais.

 Nos arredores de minha cidade natal, quando criança, existia a “Mijada da Velha”, nome pitoresco de um filete de águas que deslizava do lajedo de pedras íngremes, sendo ajudada por mãos humanas ao colocar um canal de bambu, formando a famosa bica.  No inverno tinha ares de cachoeira, ouvindo-se ao longe sua queda d’água, sendo aos pouco, na estação da primavera, diminuído seu volume, tornando-se um verdadeiro filete de água cristalina e fria no verão. A garotada se esbaldava refrescando-se do calor escaldante; jovens e adultos faziam piqueniques em dias feriados, até que se transformou em balneária turística.

Como o próprio nome diz “ponto turístico”, atribuem a obrigação ao turista e não ao próprio do lugar, visitá-lo. Errado!...   

A frequência aos museus pela população local é ínfima, beirando a índices quase nulos, transformando a população destituída de cultura e conhecimento histórico real de suas origens.

Isto não é uma crítica infundada. Partindo do princípio de que não se valoriza o que é nosso, raras são as Capitais do Brasil onde sua população frequenta com assiduidade seus pontos turísticos, principalmente, museus e bibliotecas, onde se guardam cultura e saberes de sua cidade.

Há trinta e quatro anos, recebemos de presente de casamento três diárias em um famoso hotel  do Centro a Cidade do Recife, o Hotel Quatro de Outubro. Íamos passar nossa lua-de-mel em um hotel na própria cidade onde morávamos e havíamos casados. Agradecidos estávamos, pois “cavalo dado não se abre a boca”. O primeiro dia, no hotel, claro! Não saímos..., cumprimos nossas obrigações de recém-casados. No segundo e terceiro dias, sem termos muito que fazer durante o dia em uma cidade que julgávamos conhecê-la, veio à inusitada ideia de fazermos um turismo local e pasmem!...Foi uma das surpresas mais agradáveis que já tivemos.  Conhecemos coisas que duvidávamos existirem, em nossa cidade.

Primeiro, fomos visitar Olinda, suas ladeiras, uma loja de artesanato em cada casario. De sua história só conhecia a famosa frase “OH, LINDA SITUAÇÃO PARA SE CONSTRUIR UMA VILA”!  Dita pelo donatário da Capitania, Duarte Coelho Pereira, lá pelos idos de 1535.

Mas, ao subirmos no Alto da Sé, garotos nos rodearam e numa disputa “impar” e “par”, um deles nos conta a história da famosa Cidade, hoje, Patrimônio Cultural da Humanidade.    

Visitamos, em seguida, nossos museus, verdadeiros espaços vivos estampados naquelas figuras emblemáticas de séculos passados, quase quinhentos anos de história, refletidos em imagens, objetos, documentários, acervos bem cuidados, dispostos à visitação popular de nossa gente. Antes, não pensávamos assim..., museu é para turista, gente de fora, para o impressionismo dos gringos a fim de derramarem seus dólares e euros aqui, para o aumento da economia local. Desta forma, vamo-nos transformando em verdadeiros ignorantes de nossas próprias riquezas, nossos próprios saberes, nossa tão rica cultura.  Ora!... Não, gente!...

Hoje, trinta e quadro anos depois, aniversário de casamento, lembramos desta história, e que tal fazermos um passeio de Catamarã, sobre as águas do Rio Capibaribe cruzando sob suas belas e históricas pontes?!... Acompanhe-nos!

Expressões populares:

“Casa de Ferreiro Espeto de Pau” - Diz-se de quem se utiliza mal do que tem.

“Cavalo dado não se abre a boca” - Não se deve reclamar do que se recebe.

Catamarã: - Barco utilizado em passeios turísticos no Recife

 

Publicado em 03/03/2014

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