Cegueira - por Regina Alonso

Cegueira - por Regina Alonso

Cegueira

Regina Alonso

 

   O canteiro está regado; o pai reclama do temporal: não dá para partir com o tamanho das ondas! A filha mais velha chega  da escola pingando e o mano esbraveja porque o jogo de futebol foi adiado!

   Zu recolhe apressada a roupa do varal e  desconfia: tudo muda quando a caçula está por perto. O alho floriu no dia que a pirralha botou a latinha com a rama em cima do telheiro e as velas dos santos acenderam-se sozinhas: Zu persignou-se e sentiu o olhar maroto da menina.

   Silvana queria engravidar... e nada! Naquela noite, o casal foi para o quarto, queixando-se do calor. Os gemidos de prazer atravessavam a parede de madeira que dividia os cômodos. A moleca sentada no banquinho diante da TV parecia não ouvir, mas de repente, fez dengo diante do avô e escafedeu-se. Zu viu quando a pequena sorrateira  desenhou com a saliva, o coração na parede. O casal silenciou no quarto. Dali há um mês Silvana estava grávida.

   O mamoeiro sempre empedrava; não se aproveitava um fruto. Quando o pai ameaçava cortar, a caçula punha-se à frente: ele recuava com medo de feri-la com o facão. Nina falava: Ô meu pai, espere! Vassuncê num sabe que tudo tem a hora certa?! Numa sexta-feira santa a moleca madrugou, esparramou um pires de açúcar bem cheio e um punhado de algodão em volta do mamoeiro. Mãe Zu espiava de longe sem entender a reza que a menina fazia. A velha aprendera o que sabia com os pais, que levaram avante o terreiro fundado pela bisavó. E essa menina aprendera com quem?

   Quando Mingau, gato da casa, adoeceu, foi uma choradeira. Pai emprestou dinheiro para pagar o veterinário e o remédio, mas o bichano definhava dia a dia, sem comer, sem beber. Nina foi se achegando e do bolso do vestido tirou um monte ervas. Socou tudo muito bem com uma pedra do quintal; depois, pegou o gato no colo e deu-lhe a mistura. O animal comeu como se estivesse hipnotizado e desmaiou. A menina levou uns cascudos da avó: Moleca  encherida! Matou o Chano! De madrugada o bicho miou miou, bebeu o leite  e foi para  o telhado,  pôr o namoro em dia!

   Ninguém acreditava, ninguém queria ver. Só nega Zu que tinha coração quente e via com os olhos da alma. E Nega Zu viu, naquela manhã, tudo murcho: as verduras da horta e os botões da azaleia, xodó da avó.  O cão feito um molambo na soleira, ao lado de Silvana, prenha de 8 meses e ensopada de suor. A menina apareceu de súbito. Lá dentro da casa, ainda se ouviu: Nina, isso é roupa de domingo, onde se viu?

   A menina foi pro meio do quintal e um voo de colibris cobriu seu corpo.     A saia do  vestido inflada pelo vento levou-a até as nuvens... As azaléias desabrocharam com as primeiras gotas. Em meio ao temporal, Nina pousou no chão feito pássaro e logo sentiu os cascudos da mãe, porque o vestido de organdi havia encolhido! Nega Zu sacudiu a cabeça. A chuva ia continuar... o terreiro, o dia a dia... E a cegueira.

 

Página da Colunista Regina Alonso

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