Colcha de Retalhos - por Ione Kadlec

Colcha de Retalhos - por Ione Kadlec

Foto:Thomas Hart Benton

COLCHA DE RETALHOS

 

Colcha longa, feita de retalhos diversos. Reunião de peças de tecido, várias cores, padrões e formas, costuradas entre si, formando desenhos geométricos.

Do meu assento, cadeira gasta, a luz do sol sem cerimônia entrava pela janela aberta. A cortina dançava no ambiente, massageada pela brisa fria, gostosa, saudável a acariciar-me o rosto como uma grande e antiga amiga.

Os rastros do sol pincelavam alguns desenhos destes antigos retalhos e, assim, recordações costuradas iam e vinham juntamente com o sol, a brisa e o vaivém da cortina.

Voltei! Voltei no tempo. Ri, sorri, embriaguei-me.

O vinho, apurado das uvas, descia garganta abaixo como que sambando.

Terra de papagaios.

As crianças corriam. Meninas laços e fitas.  O suor pingando nas ruas íngremes das casas de madeira tão próximas do céu. Os sonhos doces, creme de padaria, mastigados com os sonhos quentes a ferver lá dentro, encostados aos corações.

Neste instante, a colcha tombou, rolou, caiu ao chão.

Chão! Eis que vejo pés a dançar. Ao ver  minhas mãos agarradas a colcha, lembrei de outras a se unir em rodas, abraços, apertar de peito com peito no calor do verão. Alguns olhavam a lua na tristeza da solidão.

Suspiros, piscadas, beijos... Ah, os beijos!

 Tão ingênuos e feitos às escuras, escondidos num canto qualquer.

Que delícia tocar lábios com lábios, morder orelha, roçar pele na pele. 

Confidências trocadas entre costuras. Linhas corriam, agulhas subiam, desciam, enquanto segredos eram revelados. Ao fundo, o cheiro do café se erguia nas casas simples, humildes.

Comecei-a para a cama enfeitar. Hoje não mais, os enfeites são adornos marcados no corpo. Levantei, desviei-me da cortina, fechei a janela, guardei a colcha inacabada no baú. É sempre bom deixar algo que nos inquiete para voltar. Abri a porta, sai.

O sol está tão lindo hoje, mas se chover tudo bem. Sigo,  construindo mais desenhos nestes retalhos.

 “Andar com fé, eu vou,
que a fé não costuma "faiá" (Gilberto Gil).

 

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