Confissão - por Fernanda Comenda

Confissão - por Fernanda Comenda

CONFISSÃO

 

    Eram jovens, bonitas e sorridentes, uma um pouco mais velha do que a outra. A Joana de cabelos ondulados e olhos pretos era a irmã mais velha, tinha vinte anos, a Rita mais nova cinco anos, olhos esverdeados, tez e cabelos claros, era uma grande companheira de Joana. Ambas ajudavam-se mutuamente em todas as tarefas domésticas e campesinas. Viviam numa deliciosa e encantadora aldeia do norte português.

      Numa bela noite de verão, na festa da aldeia, mais precisamente no bailarico, conheceram um belo rapaz, o Manuel, tinha olhos escuros, moreno, cabelo nem liso nem propriamente ondulado, voz doce e olhar brilhante. Deveria ter mais ou menos a  idade de Joana. E foi precisamente com Joana que dançou. A jovem rapariga estava encantada…

     A festa terminou mas o interesse de Manuel por Joana continuou. Ele tentava sempre encontrar-se com a linda menina. Seguiam os seus passos e conseguiu conquistá-la. Começaram a namorar primeiro às escondidas dos pais e depois com consentimento. Casaram, nasceu uma menina, Maria, depois outra, Guilhermina, de seguida um menino, Mário. A vida corria bem, eram felizes.  

    Um dia, no outono, Rita e Manuel foram para a apanha da azeitona. Era longe de casa e era necessário muitas horas de trabalho. Passariam lá a noite. Joana ficou em casa a cuidar dos filhos. Confiava no marido e pensava que ele seria responsável e tomaria bem conta da sua irmã. E na realidade, tomou, pois nunca a deixou só, mesmo durante a noite dormia perto dela, na mesma sala, ambos deitados numa esteira. Numa noite em que se sentiu com coragem, pois a pele brilhante e bronzeada de Rita despertava-lhe os sentidos, o seu olhar verde e meigo atraía-o e sem mais, foi-se chegando e ela deixando, abraçaram-se, os seus corpos enlaçaram-se e nada mais existia para aqueles dois seres, só eles apenas…

     O trabalho terminou e voltaram para casa. Manuel abraçou a mulher e os filhos, Rita sem olhar Joana nos olhos beijou-a e dizendo que estava cansada foi-se deitar.

     Nessa noite, Manuel e Joana mataram as saudades e a magia do amor envolvia o quarto, a cama e os dois esposos.

     O tempo passou e Joana sentiu que poderia estar grávida, má disposição e todos os sintomas habituais da gravidez. A Rita, por sua vez, também lhe estava a acontecer o mesmo… ambas estavam de esperanças. Rita, muito aflita, conseguiu que Alfredo um rapaz que a catrapiscava se envolvesse com ela  e se casasse, pensando que o filho era seu. Joana deu à luz Daniel e Rita Rafael.

    Rita foi viver para outra terra e as irmãs afastaram-se. Joana não compreendia muito bem a distância física e psicológica de Rita para com ela.

     Manuel era bom homem mas muito leviano e numa bela noite de verão fugiu para a capital  com uma amante.

       No entanto, passado um ano voltou para Joana e uma menina, Margarida, nasceu. A sua leviandade era tanta que voltou para Lisboa para Maria Joaquina de quem teve mais dois filhos.

     Os anos foram passando, Joana criou sozinha os seus filhos. Rita não teve mais nenhum. Já estava velha, doente e com receio de morrer e não dizer a verdade a Rafael, escreveu uma carta que só poderia ser aberta quando morresse. No entanto, contou à sua irmã o sucedido há muitos anos atrás. Joana, no início, ficou chocada mas passados alguns dias, perdoou a irmã, pois considerou o seu marido o culpado e não queria perder novamente a sua querida amiga e irmã, embora Rita lhe tivesse dito toda a verdade: ela tinha consentido e gostado.

     A vida foi decorrendo e a Rita faleceu dois anos antes de Joana. Os filhos ficaram. Rafael leu a carta de sua mãe mas nada contou aos seus irmãos, pois agora sabia que eles eram irmãos e não primos. 

     Trabalhou muito, era esperto para o negócio e enriqueceu. Já com muita idade, oitenta e nove anos, ajudou dois dos seus irmãos com dinheiro, para tratarem da sua saúde. Foi nessa altura que lhes leu a carta guardada há muitos anos:

    “Querido filho Rafael,

    Foste sempre um bom filho e muito amado, quer por mim, quer pelo Sebastião, teu pai…no entanto, meu filho, tenho que te dizer a verdade, antes que os meus olhos se fechem e a minha boca se cale para sempre. Custa-me muito dizer-te isto, mas tem de ser dito. Não podes ficar para sempre neste mundo na ignorância… Sebastião não é o teu pai, embora ele pensasse que sim. Morreu na mentira, espero que ele e Deus me perdoem!... Mas tu não podes continuar a viver na falsidade! O teu pai é o que tu pensas ser teu tio, o Manuel, marido da minha irmã Joana e pai dos teus primos, teus irmãos!  

    Perdoa-me meu adorado e amado filho! Eu cometi um crime mas o teu nascimento, a tua vida, a tua existência iliba-me! A minha irmã perdoou-me e Deus também o há-de fazer.

     Amo-te intensamente! A tua mãe que te venera!

      Beijos

       Rita”

     Os irmãos abraçaram-se e choraram de emoção. Rafael insistiu e fizeram um teste do ADN que deu positivo, eles eram mesmo irmãos!...

     A partir desse dia, se havia amizade, mais amizade passou a haver e a união entre eles intensificou-se.

    A vida é assim, o que provocou sofrimento num determinado tempo, originou felicidade noutro.

     Bem-haja a família e a honestidade!...      

 

        

      

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