Conversa de passarinho - por Regina Alonso

Conversa de passarinho - por Regina Alonso

Vizinhança se achegava em romaria. Num se avexavam de dizer Pequinim! Parece filhote de Passarim, franzino, pelado, só o cabecim nos altos... Mãe nem ligava, cheia de enlevo, olho perdido no muleque. É delicado... Mainha diz que eu era assim, um fiapo! Num é que o meu menino saiu a mim?!... E embalava o bercinho tosco de madeira que o pai fizera dia por dia, nas antevésperas... Pai trazia uma cachacinha pros home e licor de jenipapo pras mulhé. O assunto ia morrendo, falavam das roças os caboclo e a mueirada das fofocas do povoado – Siá Mariquinha, acho que tá prenha... Gordando, pondo peitos e barriga... Outra cochichava – Será de quem, pois pois... Vó trazia broa de milho, meninada se achegava e nas canecas de lata, suco de manga madura escorria pelo canto das bocas!

Meninim crescia, mas nem tanto. Mais pra Passarim, os comentários lá no armazém do Vlademir, o Careca. Pai e mãe batizaram o menino, roupinha de marinheiro, corpo miúdo sambando, sobrando no traje. Padre Eustáquio não disfarçou o susto: água benta e caretas, desviando o olhar. Todos comentaram, reprovaram, afinal eles eram filhos de Deus, podiam prevaricar, falar maldades, torcer o nariz... Mas padre era outra coisa, Cristo vivo, bebia o vinho fresco das uvas plantadas com o suor do povo, consagrava o Corpo e depois servia para os filhos – onde se viu tamanha indignidade?! Era a fala que corria lá no quintal, no almoço do batizado. Padre nem compareceu... E mãe fizera galinha ao molho pardo, sua preferida... – Deixe pra lá, mulhé..., disse meu pai – Vamos festejá com quem atendeu o chamado e pronto. A sanfona tocou, mulhé com mulhé, home com mulhé, mãe com Passarim no colo, dançando cheia de orgulho. Pai cuidava de servir cachaça da boa e vó já trazia os tacho de doce de abóbora e cocada mole. Uma fartura!

Passarim agora já andava, melhor dizendo, mal andava, sopenco, pernas descoordenadas, parecendo ir ao chão a qualquer momento... o que num acontecia, por misterioso que fosse! – Deus acuda! – gritava Seo Vlademir, quando o menino chegava com a mãe. Ela ignorava e ia escolhendo a farinha, o fubá, o fumo de rolo pro pai, as agulha de crochê e a linha para os trabalhos noturnos da vó. O home anotava tudo na caderneta e dava um punhado de balas de rebuçado para o Passarim. Mãe desembrulhava e o guloso chupava com olhos de agradecimento. Falar num falava nada. Só uns grunhidos: Nhémnhém... humhum... priquepri... Todo mundo se espantava, mas mãe retrucava parecendo entender. Coisas de mãe, segredava Dona Cotinha do alto de seus noventa anos de vida e de falar da vida alheia. Mãe sempre justificava tudo que fosse comentário sobre Jesus – ah, Passarim tinha nome, mas todos ignoravam, até mainha, até painho, Vó Zefa e eu, mano Zelito. E mãe dizia, olhando o menino em solavancos no quintal, atrás das galinhas – Deixem Dona Cotinha falar, arre! Ela num tem mais ninguém nesse mundo de Deus! Nem mais memória dos seus, que já se foram há tanto tempo! Pai ameaçava de retrucar e ela: Arre, home! Óia o Passarim, leveza de beija-flor!  O menino vinha pra mãe, olhinhos brilhando e deitava a cabeça no colo, feito passarinho aconchegado ao ninho.

A vila foi se acostumando com o modo de ser do meninim ou melhor, se conformando. Tudo recomeçou numa tarde de primavera, lá no Boteco do Vira-Tripa, pai contando que filho era muito esperto, Jesus – nesse dia, o pai arretado chamou o filho pelo nome de batismo – fala com as aves, os passarinhos entendem, acodem aos chamados!... A revolta foi geral! Seu Tião da Fazenda Três Maria gritou – Seu Aderbal, me perdoe, mas o senhor perdeu o tino! E os outros – Pensa que nóis somo troxa, hein! – Que disparate! – Bobéia, bobéia da grossa! Padre Eustáquio que também gostava de uma cachacinha antes do almoço, não perdeu a oportunidade; pôs a mão no ombro do pai e sapecou o sermão – Meu filho, temos que aceitar o que Deus manda! Não é preciso inventar façanhas!... Cada qual com sua cruz! Painho ainda tentou replicar, mas os outros indignados, pegaram o chapéu e zás!... do boteco para casa.

Mainha na hora do chá com as comadres – cada dia da semana era na casa de uma – naquela tarde, friozinho de inverno, repetiu a história, enquanto o menino em volta da mesa andava ou melhor, balançava feito um barco à deriva!  A mulherada se entreolhou cheia de espanto – Lindinalva, você perdeu o juízo?! E outra – Só pode sê feitiço, arrenegue! Mãe insistiu. Elas levantaram abandonando a mesa – mãe ainda nem trouxera o bolo de fubá – e saíram, resmungando – Arrenegue, Lindinalva! Esconjuro! E Terezinha, carola de carteirinha, voz esganiçada no coral, cantando alto alto, pensando que Deus é surdo!... – É meió ocê pedi pro padre lhe benzê! Cruz Credo! Jesus! Ave Maria!

Mãe recolheu a louça, resignada. Adespois serviu chá e bolo, pra mim, pro menino e pra vó. Trouxe papel de embrulho alisadinho e um toco de carvão. Pôs em frente do moleque – Passarim, algum recadinho? Moleque pegou no carvão, desenhou num traço só, uma avezinha e mais outra, outra – dava pra entender que eram rolinhas, se a gente tivesse olhos de ver... Ah, as boas vontades! – depois completou com o celeiro. Mãe abriu a porta e lá fomos nós até o lugar desenhado. Adentramos. Foi um esvoaçar de asas, de penas, no lusco-fusco da tarde, barulho das rolinhas assustadas, batendo nas vigas do teto – no chão, sacos de milho tombados, grãos espalhados devorados pelas avezinhas famintas. Mãe chamou pai, que arrumou tudo, fechou os sacos com novas costuras – afinal, vivíamos do que plantávamos. Passarim salvara a colheita, que até já estava vendida pro vilarejo ao lado do nosso.

E foi anssim desde sempre. Jesus ou Passarim, como vassuncês quiserem, dando notícias no carvão sobre o papel, essa a nossa imprensa, o jornalzinho da vila, que só os de casa souberam ler! Por isso é que quando o menino desenhou o cone escuro, carregando tudo, furacão de primeira, pai correu à vila, prevenindo... Voltou enxotado, em meio a risos, chacotas... Que fazer?! Nós corremos para a gruta que Passarim desenhara ensinando o caminho. Portas e janelas da casa pregadas com ripas. Ainda deu pra levar os cavalos, um caixote de galos e galinhas, o casal de bodes e a vaca leiteira Danúzia. Todos nós esprimidinho no escuro, dia inteiro, noite adentro, cheiro de bosta e de urina, sinais do medo de todos nós! Passarim avisou a hora de sair. Só destruição. Era o recomeçar. Nossa casa ainda pode ser recuperada e logo tomamos prumo. Mas na vila, muitas mortes – tábula rasa – tudo fora ao chão!

Talvez por isso é que adespois do acontecido, mãe e pai tem de pregar o papel com as notícias do Passarim lá na varanda da casa. Todo santo dia. Desde cedinho o povo vai chegando pra lê. Quem num tá gostando nadinha é Padre Eustáquio, capelinha vazia, só a carola Terezinha no primeiro banco, passando as pedrinhas do terço entre Pai-Nosso e Ave-Maria!...

 

(Na ponta do laço, contos/Regina Alkonso     -   Editora Leopoldinum     2011)

 

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