Crepúsculo das Tardes de Novembro - por Silva Neto

Crepúsculo das Tardes de Novembro - por Silva Neto

Crepúsculo das Tardes de Novembro

 

João Bezerra da Silva Neto

 

Aproximavam-se as férias. Aproveitava as tardes para ler, principalmente às quintas-feiras, quando a cidadezinha decretava feriado ao comércio. Embora houvesse aula, a frequência diminuía bastante, até de alguns professores, pelo hábito de viajarem a Capital para resolverem pendências pessoais. Para nós, alunos, sobretudo os que se encontravam passados de ano, deixavam de ir à escola naqueles dias, justificando, assim, suas faltas.

Eu pedia livro emprestado à Biblioteca Municipal, a cada quinze dias. Se não o lesse, renovava o prazo. Tinha somente um final de semana disponível para ler, além da quinta-feira.

O alto da montanha principal era meu lugar preferido para ler, escrever e sonhar, mesmo distando quatro quilômetros da cidadezinha onde morava.

Havia um velho engenho de açúcar ainda em funcionamento, no sopé da montanha.

No alto, existia uma frondosa cajazeira, um Cruzeiro erguido com vistas para o despenhadeiro, de onde se podiam ver, no baixio, a Casa Grande do Senhor de Engenho, as casas dos moradores, o grande lago e uma bela paisagem ao fundo.

Toda a propriedade compunha-se de extensa terra cultivada da lavoura da cana-de-açúcar, chamada de Engenho Monte Alegre.

Às quintas-feiras à tarde escalava aquela montanha íngreme com um livro, um caderno e lápis à mão.

Eugênio e Olívia eram meus companheiros de enredo ao debulhar aquele belo romance, Olhai os Lírios do Campo de Érico Veríssimo. Quando não, Ceci e Peri, de José de Alencar, ou Iracema, a Virgem dos Lábios de Mel, acompanhavam-me. Embora nascido na Zona da Mata, encantava-me com Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa; Os Sertões, de Euclides da Cunha; Vidas Secas, de Graciliano Ramos, além de O Quinze, de Rachel de Queiroz; Menino de Engenho, de José Lins do Rego, e demais clássicos da Literatura Brasileira e Portuguesa, dos Séculos XIX e XX.

Escrevia poesias, rabiscava desenhos naquele universo vivo, onde nada me desconcentrava, pois a Natureza estava integrada em mim e eu nela.

Do canto dos pássaros, da cigarra ao zumbido dos insetos; do fofolhar das folhas agitadas ao vento ao mugido do gado no pasto, tudo isso alimentava minha imaginação.

A tarde morna de primavera trazia um vento intermitente do Hemisfério Norte a ouriçar meus cabelos longos de jovem rebelde dos anos sessenta.

Dali, do cimo daquela montanha, contemplava a paisagem a meus pés, desde a gramínea verde do vale ao canavial viçoso das encostas dos montes à distância.

O Sol pouco a pouco se escondia nas bandas d’Oeste, doirando as nuvens com seus raios escarlates de fim de tarde.

Um lago de água turva espelhava o musgo da planície e a cor verde oliva dos montes cobertos pela Mata Atlântica.

Aqui, acolá, lindos pés de Ipês roxos, rosas e amarelos, flores típicas do advento natalino, prenúncio de paz e esperança.

Na várzea, revoada de pombos sobre a casa grande, a cocheira, e as casas dos moradores daquele Engenho de Açúcar, de onde o vento trazia o cheiro adocicado do mel fervido. Roupas coloridas, quais bandeirolas estendidas agitavam-se ao vento.

Aves domésticas aos bandos ao redor das casas; bois, vacas, cavalos, cabras e cabritos no pasto.

Um cantar saudoso de um galo despedia-se do dia, saudando o crepúsculo.

Da cidadezinha, ao longe, fremiam as primeiras luzes acesas, e, do sistema de som local, logo seria dezoito horas, de onde se ouviria, logo mais, os acordes da Ave Maria de Schubert.

Era hora de retornar para casa.

 

Assim eram minhas férias no início dos anos setenta, ao escalar aquela montanha, para ler meus autores prediletos aos pés daquele Cruzeiro.

 

E-mail: joao.digicon@gmail.com

 

  

 

 

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