Critica Literária - Sobre AS ANIMADAS TERTÚLIAS DE UM HOMEM INQUIETO do escritor Jorge Nuno - por Alvaro Giesta

Critica Literária - Sobre AS ANIMADAS TERTÚLIAS DE UM HOMEM INQUIETO do escritor Jorge Nuno - por Alvaro Giesta

Sobre AS ANIMADAS TERTÚLIAS DE UM HOMEM INQUIETO, do escritor Jorge Nuno, Chiado Editora, 2013

 

No meu entender, e depois de ler AS ANIMADAS TERTÚLIAS DE UM HOMEM INQUIETO, de Jorge Nuno, de fio a pavio, cheguei à conclusão de que este livro é um autêntico “plágio” - leia-se "plágio" no sentido figurado - de cenas tão reais da vida real, comum a todos nós e de todos os dias. Se não acreditam, adquiram o livro, leiam-no e desafio-os a demonstrarem-me o contrário.

Afirmo que estamos perante um livro, a que o autor chamou “romance”, de cenas flagrantes da vida real – agora sim, desculpem-me, a mim, o "plágio" que faço ao tema “FLAGRANTES DA VIDA REAL” e a comparação que faço com a descrição de tais flagrantes cenas, que me habituei a ler nos verdes anos da minha juventude em certo capítulo das Selecções do Reader´s Digest. O conteúdo deste livro, deixo claro, dava bem, ou melhor, dá(!) bem para ser levado à cena. Pena é que não apareça por aí encenador ou argumentista que o transforme em guião, que o adapte ao palco para ser representado.

É com uma crua, real e nua evidência, tão actual, que o seu autor conduz os personagens – principalmente o personagem central da obra – a vias de facto, que nos inspiram ânimo para ultrapassar as contrariedades da vida, assente na transformação interior de cada um de nós, que ele mesmo nos propõe. Estamos perante um livro de cenas, segundo a minha perspectiva:

·         Há no livro AS ANIMADAS TERTÚLIAS… toda uma repercussão social das causas psíquicas da sociedade, no entendimento do principal personagem, que o autor definiu como sendo a peça central da obra;

·         Há, contudo, a incerteza do mundo na intervenção das peças secundárias intervenientes no modus da obra, a que responde, sempre, a sábia certeza do personagem principal – o Filó;

·         Há um fervilhar de ideias nas suas acções conturbadas e emocionais (refiro-me ao personagem principal) e felizes momentos de invenção e criação literária.

Filó, é assumidamente um poeta, um sonhador… Filó, chega a ser, às vezes, quase um lunático – no bom sentido do termo, peque porém, o termo pelo exagero. Um saudável louco sonhador que sonha sãs loucuras no seu interior com que pretende transformar o mundo, ultrapassando todas as barreiras nesses momentos de louco lúcido e sonhador.

Confesso que me custou “digerir” este livro. Não por ser prosa, mas também, pois me sinto mais à vontade em falar, sobre um livro escrito em poesia. É que, em poesia, estou na minha posição de ataque; aqui, em prosa, tive que jogar à defesa. Mas a dificuldade não foi no entendimento da obra na sua leitura – que é um livro construído com um português fluente e vernáculo – mas sim, porque é um romance em que não vejo nele aquela história que foi delineada, estruturada, obedecendo às regras que são impostas pela classificação literária do romance. Vejo nele, isso sim, uma história em permanente construção, ou melhor, várias histórias que se vão construindo e desenvolvendo ao longo do processo narrativo. Contudo, há uma personagem principal que se vai desmultiplicando consoante as situações vivenciais que lhe vão surgindo, mas que jamais perde a sua identidade e individualidade.

Neste processo criativo, de Jorge Nuno, parece-me que a criação literária se dá em quatro tempos:

·         Casa/café/esplanada/tertúlia e boémias culturais na sociedade;

·         A transposição dos lugares atrás citados (e das pessoas) para outros lugares mais longínquos no espaço e no tempo (guerras coloniais) ou até para cadeiras governamentais (ex: ministério da defesa) com a devida crítica que lhe está adjacente;

·         A intenção de fuga para lugares outros (imigração, por ex. ou centrais nucleares) na perspectiva de uma vida melhor, sempre sob a expectativa e a crítica;

·         O regresso ao primeiro tempo com a tal sensação, generalizada, de um país tão ou mais apagado que no princípio. “Cada vez mais cinzento”, como nos diz o autor. O que não é bem verdade porque, se há pessoas que pouco ou nada progrediram devido àquele desencanto total com a vida, outras fizeram de si o melhor, ou antes, tomaram, como exemplo, as inquietudes aventureiras de Filó e melhoraram nas suas perspectivas de vida. Quanto à peça central do livro – o inquieto Filó – até ele ultrapassou os seus medos e se aplicou mais no emprego e na criatividade, ainda que, por falta de tempo, tenha perdido o encanto pela escrita.

 

Este romance não é de fácil leitura até final; ou antes, não leva o leitor ao encantamento se pensa que vai encontrar no seu percurso aquele rosário de acontecimentos coloridos, que abarcam apenas a parte exterior dos seres e das coisas, num processo descritivo simples. Não. Aqui o autor, no seu processo narrativo, vai ao fundo da questão, ao fundo do ser, ao cerne das coisas. Uma das possibilidades de olhar este discurso literário, é vê-lo como uma ferramenta de leitura e escrita do mundo que move conceitos e influências, que desloca identidades do seu meio para outro meio e que problematiza as relações humanas.

Há na obra um significado colectivo com a intenção de mover projectos (o projecto cultural) ligados à sociedade colectiva – tendo como colectivo a Associação onde os vultos com pretensões literárias sãs se reúnem. No fundo, em meu entender, é a tentativa de criar os valores que contribuem para a construção daquilo que se poderá chamar, na aspiração e sonho do personagem principal, a sua “comunidade imaginada”. Esta obra é um produto de cultura política, económica, social e histórica – na acérrima tentativa do pseudo-culto Filó defender a sua aspiração a escritor, mas também aquilo pelo que luta e se luta no tempo actual que, afinal, é o tempo de hoje e de sempre.

Impõe-se agora a pergunta: - não será a transposição do escritor Jorge Nuno, nas suas aspirações legítimas, para a pele do inquieto sonhador Filó, que sonha quase sonhos de louco, com uma sã e contagiante loucura, pese embora a dificuldade que tem em impor os valores que propõe e defende?! Estou convicto que sim! Talvez esta literatura de Jorge Nuno seja o produto final das suas andanças ao longo da sua vida e da sua capacidade singular de observar o movimento das coisas, dos seres e do mundo, que passam ao lado duma sociedade que vive apenas a fugacidade do momento num processo de vida efémera.

Aqui o escritor Jorge Nuno não confunde o branco com o preto nem o preto com o branco – leia-se o que quero dizer no sentido figurado. A sua narrativa, por isso mesmo, é enxuta, seca, directa, fere como uma lâmina quando tem que ferir. Expõe quando tem que expor. Some-se-lhe a sagacidade intelectual de metaforizar a linguagem com a ironia, a síntese, o paradoxo, neste saber construir o texto, e mostra-nos o autor a sabedoria pretensiosa do personagem central da obra, com as suas pretensas incursões que faz em vários ramos do saber, deixando os seus interlocutores abismados com tal sabedoria de que se mostra ufano e vaidoso.

Da leitura da obra, uma certeza: - da ignorância estamos apenas à distância de um passo. E, com o Filó, rumámos aos caminhos do saber ficando-nos, contudo, pelos carreiros da aspiração. Obra que aconselho a ler e nela meditar, pois ela nos remete para a outra face do saber. Ou antes, do não-saber; da ignorância. Bem visível num breve apontamento do Filó quando dá a ler, à leitora Luísa, duas versões de poema que considera ter que levar à oficina da palavra para o passar à perfeição. É no desabafo da leitora, que lê o escrito, ou antes, os escritos sobre a mesma versão, que se vê que, afinal, a sociedade em que vive este “homem inquieto”, de nome Filó, é bem maior na sua ignorância que no seu saber.

 

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© Alvaro Giesta (poesia e crítica literária) - Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico
http://alvarogiesta.blogspot.com/

 

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