Crítica literária sobre o livro À janela do teu corpo de Joaquim Monteiro - por Alvaro Giesta

Crítica literária sobre o livro À janela do teu corpo de Joaquim Monteiro - por Alvaro Giesta

Crítica literária sobre o livro À janela do teu corpo de Joaquim Monteiro

 

"Mergulho, e procuro em apneia a luz na escuridão.
Se a encontrar: perguntarei aos peixes profundos
qual a sabedoria das trevas."

Joaquim Monteiro © À janela do teu corpo

________________
(...)

Da observação e leitura mais vasta, que não minuciosa - porque isso fica para o leitor e o crítico -, da publicação «À janela do teu corpo» de Joaquim Monteiro, eis da obra um quadro maravilhosamente pintado, pelo poeta, com letras sobre quatro panos da mesma cor onde o corpo poético nunca deixa de ser o mesmo - a MULHER: numa poesia de imagens, marcadamente complexa mas, perfeitamente entendível, requerendo, contudo, alguma cultura e ginástica mental por quem o lê e interpreta, se bem que o poeta não escreve para ser interpretado, ao contrário, o faz para ser entendido, para ser ouvido, para ser sentido - assim o poeta fabricou a sua obra.
Ao tempo e noutro contexto de escrita sobre obra literária em que Joaquim Monteiro verteu saber e poesia, escrevi dele que «no (seu) dizer complexo e musical do poema, o "desenhador" da palavra que a burila com mestria, enaltecendo-a, quando a transporta "para lá / da substância palpável", é um filósofo. Mais do que poeta ou, melhor dizendo, para além de poeta é um filósofo que nos dá muito que pensar e nos escreve muito, para pensarmos ainda mais.» Sublinho aqui e para esta obra, com firmeza e convicção, o que escrevi, sobre o poeta, acerca de outra obra passada.

A poética em «À janela do teu corpo» bebe a "sede" na "bebedeira azul" do CORPO DA MULHER que venera, em toda a sua obra (ao fim e ao cabo em toda a obra composta de quatro partes), se bem que nas suas três primeiras partes - a MULHER, o CORPO, servindo-lhe de charneira o AMOR - seja, onde ele converte, com total magnitude, o ventre da mulher em pão, que canta em verso, sobre quem talha a obra numa extensa ode a ela e ao amor. Ela, a mulher, como "romã aberta no (e ao) delírio dos (seus) lábios" é a "água inicial" da vida do poeta que dá luz à noite e ilumina a casa, que sara as feridas abertas e regressa, depois, ao "ponto original da febre" esperando "que o amor a afague, sonhando um novo dia".
O poeta Joaquim Monteiro no desbravar do corpo feminino "nu e azul" faz trinar as cordas da sua guitarra de loucura no melodiar da voz dos pássaros que arde clamando o amor. É nessa altura que o corpo - da palavra, aqui em forma da mulher que canta - se molda ao sabor das horas, que os novos trilhos se abrem com o sabor "da saliva de sal" - um indicativo dum saber purificador, dum futuro de sabedoria, ainda que por dizer, mas que se augura promissor no amor. Num contexto bem mais amplo e que abrange toda a sua obra, a expressão "saliva de sal", é aqui tomada como o sentido purificador do amor, que é, afinal, o significado bíblico do sal: aquele que impede e afasta toda a decomposição, toda a sujeira moral e espiritual que será, se não fulminada, pelo menos decantada pelo fogo que cresce na e com a palavra em toda a sua obra. O símbolo da palavra do poeta se firma descobrindo-se na "secreta vocação da luz" espalhando-se na "planície" do seu ventre com a força de quem ama.
A sua evocação ao corpo é de tal ordem sublime, de tal forma contemplativa que a força do ser amado faz transformar o poeta no corpo que ama - transforma-se o amador na coisa amada - transformando o profano (que canta) no sagrado (que diviniza) "na noite de todos os prodígios". É o acto da entrega que se purifica no absoluto "da raíz" do corpo que é seios, olhos, mãos, saliva, lágrimas, "segredo partilhado e enlaçado" "nas marés do corpo", "ventre (que) toca o céu / numa explosão de gritos, murmúrios e silêncios.".

Selam-se as duas margens da parte principal do corpo da obra - MULHER que canta, MULHER que inventa para cantar, MULHER que diviniza, nunca esquecendo o real enquanto a canta, MULHER que possui, MULHER de quem conhece a alma e o ser, mulher-CORPO que sublima e engrandece, que venera, porque o poeta o constrói na perfeição do seu espaço e no domínio do seu tempo, com o seu rosto que lhe habita o CORPO, que lho consome consumindo-se, - com o plasmarem-se no AMOR (a selar as margens da MULHER-CORPO), símbolo mais alto e nobre da perfeição. Direi, de toda a perfeição da obra. E no outro corpo se transfigura o poeta, que nos diz: "(...) o corpo que me cobre / (...) deixa-me transfigurado num coma de sentidos / partindo para lá de mim, ao encontro dessa mulher", quando ao outro se abraça na "noite como se fora dia." E acrescenta, és "água, (que) desces ao fundo de mim, / para que com a tua sede / possas medir a intensidade / de minhas profundas e inalienáveis águas."

É a MULHER-CORPO, o motivo poético da sua obra: "procuro nos teus seios o mote do meu poema" e o poeta o constrói com "as palavras que o (...) ventre dita." É o corpo feminino tornado na "sintaxe mais perfeita, na (...) gramática reinante (...)" de toda a lírica de Joaquim Monteiro. Uma lírica suave onde se plantam fortes metáforas e significativas imagens que são, afinal, o suporte da obra que se quer literária, que se quer e se preza de ser talhada a rigor no labor da forja oficinal para que, um dia, conste dos anais da literatura contemporânea. 
É que, a não ser talhada com o rigor que o modus literário exige, a obra não iria além de "mais um livrito de versos para entretenimento lúdico do veraneante sentado num banco de jardim à espera que o dia passe". Mas não!
A obra de Joaquim Monteiro, «À Janela do teu Corpo», é isso mesmo: a força das "fontes (...) / sobre o corpo da matéria", quando "o corpo" se transforma em cinzas que "já nem a terra as quer", mas "o oceano purificado do fogo (...) as deseja".
É a força e a perfeição da palavra que canta a MULHER-CORPO em que o AMOR é o elemento aglutinador, é o eixo-força da razão e do sentir, que busca a sabedoria mesmo que esta se esconda nas "trevas".

_________

© Alvaro Giesta (poesia e crítica literária)

Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico
(do) prefácio ao livro "À janela do teu corpo"

 

Conheça outros parceiros da rede de divulgação "Divulga Escritor"!

 

       

 

 

Serviços Divulga Escritor:

Divulgar Livros:

 

Editoras parceiras Divulga Escritor