Cronica em dois capitulos - por Regina Alonso

Cronica em dois capitulos - por Regina Alonso

CRÔNICA EM DOIS CAPÍTULOS                         

Regina Alonso

                 

 I- SEM SAÍDA

 

Um casal de canário, conosco, há tanto tempo... Certa manhã, ao vê-los na loja, num viveiro, amor à primeira vista: meu olhar magnetizado não conseguia desviar... Resolvi comprá-los. Tinham meses de vida. Nascidos em cativeiro, jamais tinham experimentado o vôo do lado de fora. Eu também prisioneira desse destino, não podia libertá-los como Martins Fontes fazia com os pássaros cativos, pois os “seus” tinham sido aprisionados pelos caçadores de aves, em pleno ar! Assim, já conheciam a vida longe das grades, sabiam defender-se dos predadores... No caso dos “meus”, abrir a porta da gaiola seria entregá-los à morte, com certeza.

Para compensar meu sofrimento (e dos meus canários amarelos), não me esquecia do alpiste, da mistura para aves dessa espécie, do jiló, da folhinha de almeirão ou de couve, de trocar a água, lavando os bebedouros, trocar o papel do fundo... E especialmente, de conversar com eles, quando fazia esses cuidados ou ia à área, por outros motivos. Mesmo desafinada que só, inventava canções que julgava do seu agrado e passei a acreditar que se afeiçoaram, de fato, a mim, à nossa casa, à cuidadosa Bia – sempre espiando os canarinhos, suprindo faltas, mimando-os, enfim!

Certo dia, o papel picado dava indícios de novidades e corremos a providenciar um ninho, logo ocupado pela fêmea. Certa manhã, o presente ansiado: quatro ovinhos, minúsculos, frágeis e a futura mamãe a chocar. Desde então, começa cedo a melodia. Preparando o café, minha manhã enche-se de alegria com o canto do macho, a trinar, dobrando, redobrando. Incansável, acompanha nossos preparativos para o almoço e muitas vezes, cantamos os três: eu, Bia e o canário! Mais tarde, em volta da mesa, a filha e o marido também se deliciam – refeição com música ao vivo, um encanto! Pela tarde a fora, até o entardecer, o canto magnífico da ave incansável no poleiro... E fico a pensar: como pode um prisioneiro só cantar e encantar o algoz?

Sem saída, afino a voz, acompanho o canário e embalo, num dueto os quatro ovinhos e a mamãe a chocar.

 

II-VISITA INESPERADA

 

Vou me aproximando da gaiola. O canário já se pôs a cantar, faz tempo, ainda me encontrava preguiçosa, na cama. Saúdo o meu pássaro e a companheira sobre os ovos, no ninho, com o meu cantarolar, notas desafinadas, mas cheias de amor! Um barulho diferente, esvoaçar de asas do lado de fora... A rolinha foge pela janela aberta e fica a me espiar desconfiada, lá da varanda do prédio vizinho. Conto a novidade quando a Bia chega. Ela não se surpreende. Diz que já tem visto a intrusa, noutros dias. E pela tarde, quando vou ao tanque, detrás da gaiola, novamente foge a rolinha para o mesmo lugar. De lá, controla o movimento de nossa casa, procurando o momento oportuno de voltar... O marido também descobre nossa visitante. Muitas vezes vai à área e procura, olhos ansiosos: onde ela estará? A filha sempre apressada escuta o caso, durante o almoço. Esperançosa, vai comer a sobremesa na área: será que a rolinha vai voltar?

Domingo. Acordo tarde. Vou descobrir os pássaros. No chão, a rolinha comendo alguns grãos de alpiste que escaparam da gaiola... Retenho os passos. Nossos olhos se cruzam. Ela não arreda pé. Nem eu! Desde então, a confiança vai se instalando entre nós, pássaro e homem, convivendo sem medo.

Estou feliz! Nem precisei assinar papéis, preencher protocolos... Sem burocracia, fiz minha adoção...  Gaiola aberta para a vida, grãos dentro e fora... Vôo curto dos canários, vôo livre da rolinha e meu coração sem presilhas enche-se de reverência e gratidão!

 

Revista”Mirante” – 1º lugar – Concurso/Crônicas

                                                Jornal A TRIBUNA-Santos 

 

 

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