Dada - o que foi isso? - por Alvaro Giesta

Dada - o que foi isso? - por Alvaro Giesta

"Dada" – o que foi isso?

- mera e curta divagação de movimento cultural.

 

“O que chamamos "Dada" é um pedaço de estupidez do vazio,

no qual todas as grandiosas questões se tornaram envolvidas…”

Hugo Ball, dadaísta de Zurique e iniciador do Cabaret Voltaire

 

 

Aquilo que me disponho a escrever nesta crónica, não aspira, de modo nenhum, a qualquer análise daquilo que não foi, exclusivamente, um movimento artístico, literário, musical, político ou filosófico. É apenas uma mera e curta divagação que não pretende passar disso mesmo. Porque "Dada" não foi aquilo que poderia ter sido se se soubesse aproveitar duma época em que na Europa, e no mundo, mas principalmente na Europa, estava fortemente exacerbado o sentimento do nacionalismo, que era imperioso desmantelar, se tivesse sabido gerir a ascensão dos seus ideais anárquicos.

Porque "Dada" foi todos esses movimentos e, ao mesmo tempo, o seu oposto: foi movimento artístico pela perversão de tudo aquilo que era arte; foi movimento literário pelo provocatório dos seus escritos; foi movimento musical pelo divertido e caricato dos seus espectáculos; foi movimento radicalmente político mas, também, anti-parlamentar. Foi movimento cultural por tudo aquilo que não teve de cultura ao ter ridicularizado tudo aquilo que era manifestação cultural. E, talvez por isso mesmo, ou por isto mesmo, por querer ser tudo e ser nada, por ser um movimento de negação, é que ele morreu quase à nascença. Apenas com quatro anos de idade (1916-1920). O seu próprio criador(?), talvez o mais radical, chega no seu próprio radicalismo a afirmar que o "Dadaísmo" morreu apenas alguns meses após o seu nascimento.

Nascido como reacção à situação política de então, no período da Primeira Grande Guerra – anos 14 a 18 do século XX – que assolou a Europa, pretendia este movimento criar uma nova ordem político-social, valendo-se, os "Dadaístas", da sua habilidade auto-publicista para conduzir as massas em ebulição, a quem criaram grandes expectativas. Ergue-se o movimento, fundado por um punhado de jovens franceses e alemães exilados na Suiça para fugirem ao serviço militar no seu país, com a finalidade de expressar as suas decepções em relação à incapacidade da ciência, da religião e da filosofia para evitar a destruição da Europa. Mas ficaram-se por aí. Acabaram por falhar nos seus propósitos culturais, exactamente porque, de tão altos, acabaram por ruir.

Aquilo que os "Dadaístas" pretendiam impor pela surpresa, pelo choque e pelo escândalo deliberadamente calculados, levou o público e as autoridades a uma reacção de protesto.

E em que pecavam os "Dadaístas"? Exactamente na consequência dos seus eventos radicais que terminavam, quase sempre, em tumultos e distúrbios. Por isso mesmo, e por causa disso mesmo, foram banidas revistas literárias, foram fechadas e confiscadas exposições e artistas presos. O público comparecia a estes eventos de provocação dadaísta na expectativa de se divertir.

Assim se enterraram estas manifestações de cultura – ou incultura – pelo interesse que decai, dia após dia, e o movimento acaba por morrer. "Dada", nos espectáculos perversos que inventa, nas manifestações de (in)cultura que cria, nos tumultos e distúrbios que causa, inverte o riso sarcástico, que pretendia impor ao mundo, contra si, e é a audiência quem ri destes falsos propósitos culturais dadaístas, acabando o movimento por ser vítima do seu sucesso que não soube gerir.

Às convulsões político-sociais da época, pretendia a juventude dadaísta opor-se-lhes com a sua atitude mental específica através de acções que desequilibrassem a ordem preestabelecida, e de reacções com trabalhos artísticos anárquicos, mas também irracionais, contraditórios e literalmente sem sentido. Na arte escultórica, por exemplo, pretendem impor-se pelo contraditório daquilo para que o objecto foi criado. Como exemplo, dá-nos Man Ray o seu ferro de engomar a que lhe prega, no fundo, uma fileira de catorze pregos de cobre. Deixa assim de desempenhar a sua função de engomar, alisar, vincar a roupa para passar a rasgar a peça de vestuário. Nesta manifestação de cultura anárquica, o objecto ao perder o fim para que foi criado, leva o observador a verificar um conflito irremediável entre a sua funcionalidade e o fracasso da sua função.

Nas décadas seguintes, o dadaísmo foi revivido, vezes sem conta, como atitude mental. Os "Dadaístas", ao quererem produzir um efeito no seu próprio tempo, o que de algum modo conseguiram, demonstraram a sua verdade através das suas formulações literárias e artísticas revolucionárias e anárquicas, ocupando uma posição histórica no seu tempo, que veio a servir de ponto de referência para a geração mais nova de artistas que se guiarem por essa verdade dadaísta.

A par do Expressionismo e do Surrealismo, filosofias culturais da primeira metade do século XX, também o "dadaísmo" flutuou na mesma onda de desenvolvimento artístico, acima de tudo porque os dadaístas foram pioneiros nos seus processos criativos. Ao reagirem com terror e repugnância à brutalidade da guerra e à matança mecânica e anónima maciça, os "dadaístas" procuraram, nas suas manifestações anárquicas usar a suposta lógica dos seus argumentos para legitimar a sua política de guerra contra a guerra. Foi neste repugnar de toda a convenção burguesa que fomentava a guerra, que o termo ingénuo “Dada” [Dadá], numa combinação de som onomatopeico com a liberdade de significado interpretado, foi o grito de guerra mais adequado ao assalto às tradições de todas as manifestações culturais até aí manifestadas.

“Dada queria destruir as fraudes da razão e descobrir uma ordem irracional”, no objectivo imposto por Hans Arp. Ora tomando parte no debate político numa tentativa de activar o seu público, ora baseando-se unicamente na ironia, na irracionalidade e no efeito de choque das suas provocações literárias. Os primeiros pertencentes ao grupo de Berlim e os segundos exilados em Zurique. Estes, inventando novas formas de expressão literária em poemas sonoros foneticamente, sem sentido, e nos poemas simultâneos em que todos os intérpretes, presentes em palco, liam os seus textos ao mesmo tempo.

Toda a ordem tradicional das palavras e a interacção entre som e significado eram abolidos; dissecavam-se as palavras em sílabas fonéticas individuais esvaziando, assim, a linguagem de qualquer sentido; recombinavam-se os sons numa nova linguagem sonora, roubando, tais métodos, à linguagem a sua função. E porquê? E para quê? Porque, segundo os "dadaístas", as instruções, os comandos e a transmissão de informações, privavam a linguagem da sua dignidade. E nada melhor, para simbolizar o troar dos canhões e o ruído de fundo das trincheiras contra os quais de debelavam, do que estes poemas sonoros e sem sentido e este atropelo anárquico de leituras simultâneas em palco. Nada melhor do que os “poemas aleatórios”, sem sentido e sem ordem definida, para provar que o dadaísta era igual a si mesmo.

Morte à arte – pretendiam os dadaístas. “Deletantes”, ergueram-se contra a arte. “A arte morreu. Viva Dada” – gritava Walter Serner.

 

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© Alvaro Giesta (poesia e crítica literária) - Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico
 

 

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