Debaixo dos Caracóis - por Ana Stoppa

Debaixo dos Caracóis - por Ana Stoppa

De conversa em conversa

 I Episódio

Debaixo dos  caracóis.

 

Debaixo dos  caracóis.

 

 - Quando  crescer  viajarei para o outro lado do mundo, bem distante, atravessarei o mar,  muitos dias de navio, não sei o nome do lugar, mas sei que farei este passeio.

A pequena Odete repetia à exaustão esta frase desde os cinco anos de idade, a mãe intrigada punha-se a imaginar – mas de onde será que esta menina tira estas idéias...

Família  de parcos recursos, lavradores que dependiam da mãe natureza para  vingar as esperadas colheitas, causa paupérrima, luz de lamparina, camas com colchões de palha.

- Mãe,  quero ir para a escola,  quando eu crescer viajarei para o outro lado do mundo, preciso aprender a ler e a escrever.

Com muito custo Dona Otília colocou os três filhos na escola rural.  Assumiu com o marido a lida na terra, para que as crianças pudessem aprender. Ao final do quinto ano término dos estudos,  o que para a época  era uma grande conquista. Diante da falta de oportunidades retornaram para a atividade rural, trabalho pesado na roça.

 

Passado algum tempo, a menina já adolescente inventou que queria aprender a cortar cabelos.

 - Mãe, quero estudar para  cabeleireira.

Odete nem pense nisso moramos distante da cidade,  você com pouco mais de 15 anos não pode ficar solta por ai!

 -  Mas mãe, quando eu chegar lá do outro lado do mundo posso trabalhar com isso.

Que lado menina?

Que mundo?

O lugar que viajarei  um dia, fica tão longe mãe!  Sei que farei era viagem.

Não teve jeito, a menina ficou com os sonhos, impossível fazer o tal curso.

No meio do ano, os preparativos para a maior festa da roça – noite de São João.

Odete conheceu o primeiro namorado, que viria a ser seu marido alguns anos depois, em uma festa de São João.

E quem disse que a menina,  que rápido se fez mulher se esquecia do sonho....

Aos dezenove anos, casada,  mudou-se para a cidade, a primeira coisa que pediu para o marido – o curso de cabeleireira.

Dedicou-se com tanto afinco que ao final de seis meses conseguiu o sonhado  diploma.

Improvisou  na  pequena sala de casa onde moravam,  um local para atender a clientela, esperava o primeiro filho.

Nas conversas com o marido dizia do sonho de conhecer outros países, da vontade de  viajar, de trabalhar  um tempo fora ou quem sabe em definitivo.

Por dez anos soube o que era felicidade, marido companheiro, três filhos,  família equilibrada,  financeiramente estável,  o trabalho como cabeleireira  complementava a renda da família.

- Que cara  é essa Geraldo? Nunca te vi assim!

Nem fale comigo mulher acabei de perder o emprego!

Como  sustentar nossos três filhos e tantas contas para pagar, eu sei que você me ajuda, mas  só de pensar no desemprego me desespero.

 - Calma  Geraldo, logo você arranja outro trabalho, temos algumas economias, não se apavore homem, graças a Deus temos saúde, as crianças estudam na escola pública, não se aperreie.

Mas isto não aconteceu, o ócio,  morada das coisas ruins acabou por levar Geraldo para a bebida. Três anos desempregado, diálogo familiar zero,  confusões, desentendimentos, morte lenta da relação.Acabou-se o carinho, o amor o respeito.  As trocas de ofensas tornaram-ser constantes.

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Odete... Bem  Odete  em cada briga do casal  repetia à exaustão  sobre a viagem que faria, que deixaria tudo pra trás, agora, complementava... que se libertaria do inferno. Não foi bem assim. Geraldo acostumou-se a viver da renda do trabalho da mulher, os filhos cresceram se casaram cada um tomou seu rumo.

O fardo sobrou para ela  que compensava o sofrimento da vida pessoal com o lugar de destaque conquistado como profissional.

Todas as noites Geraldo  voltava para casa alcoolizado.  O tempo veloz, algoz  implacável havia carregado perto de 30 anos da vida de Odete.

  - Mãe, o que a senhora fará para comemorar seu aniversário de cinquenta anos?

Magali, a filha caçula, a única que todos os dia  telefonava para a mãe, indagou-lhe dias antes da data.

Nada minha filha,  não farei nada,  não se preocupe sei que devido a distância você não estará por aqui, seus irmãos já nem conto mesmo.

Mas as  fieis clientes  preparam  uma doce surpresa. Combinaram com Lígia a recepcionista  do salão Odete Estilo & Arte, agora um grande centro de beleza.  Quando chegou no trabalho,  deparou-se com flores, música, violino, dezenas de amigas e um sonoro parabéns  pra você.

No meio da festa Dra.  Encarnacion,  frequentadora do salão desde a abertura fez-lhe um convite.

- Odete  estou me mudando para a Espanha até o final do mês.  Pode esperar, assim que eu me ajeitar por lá envio uma passagem para você me visitar.

O sonho  ganhou asas, a viagem de navio,  ou  avião, a terra distante, tudo isso se misturava na cabeça da aniversariante. Quatro meses se passaram,  janeiro mês de férias, pouco movimento no Centro de Beleza, Dra. Encarnacion telefona.

-  Odete, falei tanto de sua capacidade profissional para as minhas amigas aqui na Espanha que elas querem te conhecer, vem passar uma temporada de pelo menos três meses, assim você viaja e faz seu trabalho, vem! Eu lhe mando a passagem, você vai adorar!

Algo dizia para Odete que seria  aquele era o momento do sonho  começar a se transformar em  realidade.Retornou para casa. Adormeceu antes do costumeiro retorno do marido alcoolizado, pensou em lhe falar na manhã seguinte sobre o convite, pelo menos estaria sóbrio.

Ao relatar o corrido  Geraldo  achou interessantíssima a ideia, mais que isso  incentivou-a dizendo que ganharia muito dinheiro fora do Brasil.

Duas semanas após,  deixou o  Centro de Beleza aos cuidados de Magali, que para ver a mãe feliz mudou-se para a  cidade, disposta a ficar os três meses tomando conta  da empresa.

Odete não cabia em si, só de imaginar que pelo menos  que  teria paz e sossego sentia-se feliz, rapidamente providenciou o passaporte.Comprou um casaco  de frio no brechó,  separou algumas roupas, eufórica preparou a mala.

Pela primeira vez usaria o transporte aéreo.   Seis horas de ônibus até o  aeroporto, mais 12 de voo até chegar ao destino -  Valência, Espanha.

Ao pisar o solo de Cervantes  não  se conteve as lágrimas rolaram aos  borbotões.  Sentia no coração a  materialização dos  sonhos,  um pressentimento maravilhoso de que algo mudaria em definitivo o rumo de sua vida.

Na saída  do desembarque avistou de longe Dra. Encarnacion portando um ramalhete de flores.

Odete foi abraçada como nunca, a amiga não se cansava de dizer para as que vieram fazer as boas vindas, sobre a  sua capacidade profissional. Mais que isso, repetia em meio a alegria do reencontro,  faz mais de trinta anos que confio os meus cabelos  nas mãos de fada desta mulher querida.

Poucos dias após Odete passou a atender as clientes em um salão próximo da casa de Dra. Encarnacion. Ao final de três meses decidiu que ficaria mais, três.... foi ficando...

Magali se deu bem no centro de beleza, administrava-o como a  mãe.

Geraldo  como sempre  nadando na bebida, vez ou outra se contentava com os recursos que Odete  lhe enviava, que  feliz  nem percebera o tempo passar.

Ao final de dois anos montou seu próprio salão,  falava fluente o idioma  espanhol. E pensar que só tinha a quinta série do ensino fundamental.

Odete se deu   conta que se passara quase quatro anos  na festa de seu aniversário – naquela noite completava 54 anos.

Aos finais de semana falava com a família  através do Skype, contava as novidades,  prometia voltar, conheceu  pelo mesmo meio três netos,  via os que  deixou pequenos crescendo rapidamente, matava saudades...

De Geraldo  sabia através dos filhos da mesmice da vida que levava.

 - Odete, na sua próxima folga tem como você ir até o convento cortar os cabelos dar irmãs?

Claro Dra. Encarnacion, irem sim, pode marcar.

Odete acordou mais cedo, segunda-feira de primavera.  As duas auxiliares do salão a acompanharam no  trabalho voluntário.Perto do meio dia término do trabalho.Preparavam-se para sair quando a irmã superior convidou-as para o almoço.

-  Quando se acomodaram no refeitório  Irmã Mercedes fez questão de apresentar-lhes o cozinheiro Sr. Adauto,  natural de Cabo Verde,  dizendo o quanto era competente e dedicado, mais de vinte anos de serviço.

Meu sonho, este lugar estava no meu sonho, este homem....

Não é possível  estou viajando falou consigo mesma. Despediram-se prometendo voltar após três meses.

-  Na terça-feira  trabalho normal, agenda disputada, clientes e mais clientes.

Não atenda mais o telefone Maria, por hoje chega passa das sete da noite, precisamos descansar disse Odete para a recepcionista.

- Mas Dona Odete, pode ser  de sua família no Brasil, está tocando posso atender?

Está bem Maria, atenda.

- Quero falar com a Sra. Odete.

Que é,  por favor?

- Diz para ela que é o Senhor Adauto, cozinheiro do convento.

Ao receber o recado Odete tremia feito adolescente.

Falou algumas palavras, ficou rubra segundo as amigas, poucos minutos se passaram...

- Está bem no sábado, Café Madrid às 14 horas.

Sintonia a primeira vista, Adauto, 58 anos,  divorciado se encantara com Odete. Esta agiu com  sinceridade disse que havia deixado no país de origem o marido, segundo as leis, porque  há muitos anos não tinham vida em comum.

Não sentia estar traindo,  foi racional, apenas um documento dizia que era casada porque de fato  passava de uma década que estava absolutamente só.

No passeio do domingo de Páscoa o pedido...

-   Odete,  quero me casar contigo.

O amor unira com tamanha rapidez aqueles dois corações que já  não se imaginavam separados.

No segundo mês de namoro decidiu  falar sobre o assunto com   Magali, confidenciou o que estava acontecendo.

- Mãe,  te dou a maior força! Você merece ser feliz! Entra com o pedido do divórcio no consulado, aqui  eu cuido dos papeis para você!

Demorou  mas Magali conseguiu uma manhã pegar o pai sóbrio.

- Pai, a mãe quer o divórcio!

O que?

 - É pai,  já faz mais de quatro anos que ela se foi, fez a vida na Espanha não quer mais voltar, depois vocês já estavam separados, você só precisa assinar os papeis.

- Assinar o que? E quanto eu ganho  para assinar os tais papeis disse Geraldo com cara de quem iria se dar bem.

 A mãe precisa pagar é isso pai?

- Não filha,  mas se ela me der um agradinho eu assino.

E quanto é esse agrado pai?

- Uns dois mil  reais ta bom....

Não concordo com isso, mas falarei com a mãe. Magali  não sabia o que dizer, mas como se incumbira de ajudar  telefonou-lhe dizendo o ocorrido.

- Está bem filha, envio esta importância,  diz para seu pai que abro mão de minha parte da casa não quero nada.

 Casamento marcado para o dia do aniversário de 55 anos de  Odete, em 2010.

Decorridos oito anos após sua saída do Brasil, em 2013  veio  rever a família,  filhos, netos e os pais já velhinhos, tomando todo o cuidado do mundo para não reencontrar o com Geraldo.

Ficou apenas uma semana,  que mais se parecia com a eternidade, por estar longe de Adauto.

 

Ana Stoppa

 

 

Nota da Autora:

A Série  De Conversa em Conversa surgiu nas longas horas de espera nas salas de embarques  dos aeroportos nos possibilitam conhecer pessoas e histórias incríveis, do encontro casual no cotidiano, nos supermercados, agências bancárias, festas, hospitais,etc . Dos diálogos com pessoas anônimas surgiram contos, crônicas, relatos. Neste  episódio o personagem principal  compartilhou a incrível experiência  em  março de 2014,  na sala de espera de um aeroporto internacional, ao relatar com riqueza de detalhes a realização de um sonho acalentado desde os tempos de menina.

 

Página da nossa colunista Ana Stoppa

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