Decepção virtual - por Antônio Eustáquio Marciano

Decepção virtual - por Antônio Eustáquio Marciano

Decepção virtual

 

Já se tinha ido mais da metade da noite e eu estava só em meu apartamento. Eu havia acabado de sair do banho, estava limpo e perfumado. A solidão é ruim, não me acostumo com ela. É difícil ficar em casa, só, mudo, ou mesmo dialogando com a televisão. O dia de trabalho fora intenso. Raiva, tensões, ingratidão, frustração, às vezes algum sucesso. Estou a sentir um aperto no peito, uma tristeza familiar ameaça chegar. Tenho que evitar isto, preciso falar com alguém que me ajude a distrair. Pego o telefone celular, corro os olhos pela lista de contatos. Concluo que nenhum daqueles nomes estaria disponível naquela hora da noite. Ligo meu computador, começo a navegar pela internet. Vejo minha caixa postal, a maioria é spam, os demais não me despertam interesse. Lembro-me dos sites de relacionamentos. Entro em um e em outro, não consigo achar nada nem ninguém interessante. Ah! Sim! Tem um interessante. Conheço umas pessoas lá. Clico no ícone deste site, abre-se uma tela cheia de opções. Vejo fotos, juntamente com textos indicando o perfil daquelas mulheres e homens, todos em busca de companhia ou de uma conversa. Ponho me a pensar em tantas pessoas que vivem só. São solteiros, viúvos, divorciados. O medo das ruas à noite, impede muitos de buscarem um barzinho, uma casa noturna qualquer ou mesmo visitar uma amigo. Estes preferem ficar em casa e recorrer à grande rede. Também eu estou nesta busca de companhia.  Por isto, apelo para a internet. Pelo menos ali existe a possibilidade de alguém responder a uma chamada, mesmo que não venha dar em nada posteriormente - penso. Todos querem alguém para conversar sobre qualquer assunto. Alguns querem algo mais íntimo, mais intenso. Eu desejo uma companhia feminina. Mesmo que seja apenas para trocar algumas palavras. Quem sabe falar de trabalho, de filhos, do mundo, de religião, do que quer que for!  Olho os rostos, um a um. De alguns rostos eu gosto. Digito “boa noite!” Logo vem de volta um “boa noite!” E segue o diálogo: tudo bem? De onde você é? Solteira? Esta é uma rotina de quase todas as noites e que termina com um melancólico “boa noite!”, após alguns minutos de conversa. Hoje, porém, uma das mulheres, a mais bonita, deu-me o prazer de um bom papo. Falamos de literatura, música, religião, política, economia. Falamos de assuntos pessoais: amor, carinho, afeto, sexo. Aprofundamos assuntos sobre nossas profissões, nossos sonhos e anseios. Ela me disse que, como eu, sentia-se, às vezes, só. Ela desejava muito uma pessoa carinhosa e protetora ao seu lado. Falamos da possibilidade de nos encontrar, concretizar um bom, respeitoso e amistoso relacionamento. Tamanha simpatia merecia uma excelente resposta da minha parte. Estava ali alguém deveras interessante, eu estava me convencendo disto. Meu coração fora inteiramente conquistado. Ela disse aceitar trocar muitos dados pessoais entre nós e, naturalmente, ficara convencionado que eu forneceria os meus primeiramente. Eu já ia me abrir com relação a informações pessoais e, assim, demonstrar merecer a confiança daquela mulher. Entretanto, num instante, mudei de ideia. A prudência trabalha em minha mente e eu comecei a, mentalmente, me perguntar: será que aquelas pessoas todas, cujos rostos aparecem naquela plataforma, são verdadeiras? Existe alguém, de verdade, em carne e osso, por traz daquelas fotos? Não será tudo simulação? A razão falou mais alto em minha mente e eu me pus a me perguntar: que garantias eu tinha de que aquela pessoa com quem eu estava me relacionando era do bem? Não poderia ser ela alguém preparada para me fazer mal? Aquele belo rosto não escondia atrás de si a maldade? Enquanto eu pensava tudo isto, continuei a teclar com ela, nada deixando transparecer e, assim, continuamos a simpática conversa. Aos poucos, sutilmente, fui tentando desvendar algum segredo que pudesse existir. Agucei meus sentidos, apliquei toda perspicácia possível, usei de astúcia, mas, apesar das minhas tentativas, eu percebia que ela, naturalmente, interagia comigo, cuidando para que nada me parecesse suspeito. Eu agora estava bastante desconfiado das intenções daquela pessoa. Dei, então, mostras claras de que eu era alguém que prestava muita atenção nos meus amigos virtuais. Recebi um elogio. Por fim, declarando-me muito interessado nela, pela beleza, simpatia e outros atrativos, pedi o seu endereço eletrônico e seu telefone. Ela foi delicada e atenciosa, mas não me atendeu. Indaguei sobre dados concretos da sua pessoa ou trabalho. Dali pra adiante, nossa conversa não progrediu mais. Na verdade, ela foi me deixando, como fumaça que se esvai pela ação do vento. Quando dei por mim, vi que ela tinha saído do sistema. Eu estava falando sozinho. A conversa terminou. A solidão continuou.

 

 

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