Dizer-te - por Francisco Luis Fontinha

Dizer-te - por Francisco Luis Fontinha

Dizer-te

 

dizer-te que as minhas ervas são felizes

como são felizes os sons melódicos das tempestades de areia

orgasmos invisíveis que as plantas constroem na penumbra ilha do amor

dizer-te que os barcos são cinzentos

lentos

como o coração apaixonado

como o corpo em desejo

perdidamente perdido

em ti

no teu beijo

dizer-te que as minhas ervas são tão felizes

que vivem no meu jardim sem o saberem

 

amam

sofrem

fazem amor no silêncio pôr-do-sol

e dizer-te que tal como as minhas ervas

que não o sabem

também tu

nunca saberás se amo

amei

porque também o teu jardim

é escuro

e tem muitas árvores vestida com sobretudos verdes

e sofrem e são felizes porque eu... dizer-te

 

tu

não acreditarás nas magnólias e sem o dizeres

dizes-me que amanhã haverá um barco em regresso

um piano vomitará sons como do terceiro andar descem pingos de sémen

que o vizinho deixa sobre as ervas da querida vizinha

tu

não acreditarás em mim

nem saberás que as minhas palavras

vivem

choram

e dormem no meio de nós

como se fossem um Deus à procura das almas perdidamente perdidas...

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

in “Palavras de Cristal II” - Colectânea de Poesia

Participação de Francisco Luís Fontinha

 

Publicado em 13/05/2014

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