Do despertar de uma Artista - por Téia Camargo

Do despertar de uma Artista - por Téia Camargo

DO DESPERTAR DE UMA ARTISTA

 

Por mais de uma década encontrei aquela senhorinha tímida e sorridente nas ocasiões festivas da família de meu marido, de quem sua filha, era amiga de longa data.

Chegava sorridente, cumprimentava a todos com sua gentileza permanente, sentava-se em algum lugar desocupado, de preferência um pouco afastado do burburinho da criançada, e ali permanecia.

Conversava com quem lhe desse atenção. Mais ouvia do que falava. Quando lhe perguntavam alguma coisa, respondia acanhada, com seu tom de voz baixo, pausado, cadenceado, mas sempre com imensa simpatia estampada no sorriso e a delicadeza impressa nos gestos comedidos.

Parecia sempre bem disposta, animada e colaborativa com o espírito festivo da ocasião.Se fosse festa junina, usava, pelo menos, um chapéu de palha na cabeça. Nos jogos de copa de mundo, quando todos se reuniam em torno da televisão para torcer pelo Brasil, comparecia vestida a caráter, com o uniforme brasileiro quase completo, nas mãos uma bandeirinha, um adereço a enfeitá-la a cabeça e muita fé e certeza da vitória da selação brasileira.

Era mais uma dentre os vários convidados. Acostumamo-nos com sua presença constante. Ninguém de nós conhecia nenhum detalhe extraordinário da vida dessa quase octogenária que merece ser motivo de comentário. Nenhum de nós sabia contar sequer uma passagem de seu passado desconhecido.  

Dela sabíamos apesar dizer que se tratava de uma senhorinha simples, interiorana, que criara a filha única com o primor que a transformou numa conceituada e televisiva jornalista, dona de uma consciência ambientalista notável.

Um dia, sem mais nem menos e sem alerde, recebemos das mãos dessa filha, o convite para a vernissage de inauguração da Galeria de Arte daquela senhorinha muito conhecida e pouco notada, onde os quadros confeccionados por ela estariam expostos para apreciação pública.  

E as incríveis e inesperadas novidades a seu respeito não paravam de brotar.

Aos oitenta anos completos, tinha conseguido realizar o antigo sonho de aprender a ler e a escrever. Nenhum de nós, sequer, havia reparado, em todos esse anos de contato, mesmo que  esporádico, que ela era analfabeta, ou que acalentava o desejo de decifrar os códigos incompreensíveis àqueles que não dominam a leitura e a escrita.  

O maravilhoso mundo do conhecimento se abriu a seus olhos, balançando as estruturas de seu viver, até então modesto e obscuro.

Um sacolejo interior a acometeu com tamanha força, colocando-a diante das infinitas possibilidades trazidas pelo novo e acabando por acordar a artista plástica adormecida em seu interior.

Adotou nome artístico. Desenvolveu técnica própria, única, pessoal, resgantando de sua infância o material trivial do tecido de chita e que tão bem reflete sua história de vida.

Assim como ela, o morim simples e tão comum, quase passaria despercebido, não tivesse sido aproveitado com audácia pela criatividade e não tivesse se transformado em instrumento capaz de despertar emoções em que, antes, só enxergava neles a rusticidade.

Tetê não se deixou intimidar pelo tempo. Esse tempo que tantos usam como desculpa para se recusar a enfrentar as dificuldades, realizar seus desejos ou aceitar o óbvio.

Foi desenvolvendo seu trabalho de raro encanto, cortando, recortando, montando, juntando, cada flor, cada pássaro, cada detalhe, num espetáculo de cores e harmonia estética.

Ela usou-o a seu favor e com a serenidade típica de quem não deve nada à vida e dela só tem a aproveitar

 

 

 

 

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