Do umbigo à umbigada - por Luiz Ernesto Wanke

Do umbigo à umbigada - por Luiz Ernesto Wanke

DO UMBIGO À UMBIGADA

 

                                                           Por Luiz Ernesto Wanke

 

                        Na história pessoal de cada um o umbigo parece ser apenas a cicatriz no meio do ventre originada pelo corte do cordão umbilical. Mas quem ainda não descobriu uma crosta de sujeirinha dentro dele, que atire a primeira pedra! Ele serve também para limitar duas partes do corpo: a superior, mais nobre, onde ficam a cabeça e a grande maioria dos órgãos vitais do organismo humano e a inferior, principalmente com o aparelho excretor – menos romântico – e as pernas. Isto seria verdadeiro se o sexo não ficasse nesta última região, mais “lá em baixo”, como dizem. E sem sexo, convenhamos, a vida não seria a mesma.

                        As danças populares brasileiras muito antigas transitaram por esses ideais lúdicos e prazerosos explorando a sensualidade da região inferior do corpo humano. Da primeira metade do século dezenove, dois gêneros se destacaram, o Lundu e a Umbigada. O primeiro era a representação mais crua do ato carnal: a dançarina excitava seu companheiro dançando com volúpia. Seu corpo tremia com a música e as cadeiras indicavam o ardor do fogo que a dominava, carregado de um delírio compulsivo até cair desfalecida diante do seu par.

                        Já a umbigada explorava justamente o limite do permitido, fixando-se na região do umbigo, último reduto daquilo que na época seria razoável explorar. Von Martius observando os índios aculturados Purís, descreve como era:

                        “As mulheres remexiam os quadris fortemente, ora para frente, ora para trás e os homens davam umbigadas: incitados pela música, pulavam para fora da fila, para saudar, desse modo, os assistentes. Deram com tal violência o encontrão num de nós, que este foi obrigado a retirar-se quase sem sentidos com tal demonstração de agrado, pelo que nosso soldado se postou no lugar, para dar a réplica da umbigada, como é de praxe. Essa dança, cuja pantomima parece significar os instintos sexuais tem muita semelhança com o batuque etiópico e talvez tenha passado do negro, para os indígenas americanos.”

                        Mais divertido é o relato inédito de um médico francês, Raymundo Henrique de Genettes, que em 1836 viveu a triste experiência de ser forçado a se integrar a um sarau depois de um jantar a que fora convidado. Ele viajava do Rio de Janeiro até Ouro Preto e tinha se desviado da rota para conhecer as nascentes do rio Itabapuano na Serra do Brigadeiro. Depois de atravessar o rio Chopotó, a comitiva de Genette chegou num campo aberto, “onde um mulato de nome Alexandre começa uma arranhação na floresta virgem para ali estabelecer uma plantação”. Após o jantar seu hospedeiro indica-lhe para juntar-se com as mulheres (“cobertas por saias rotas, camisas sujas, com a boca cheia de caldo de fumo, enfim, nojentas” segundo des Genette) e rezar o terço (termo e costume ignorado pelo viajante). Ele relata:

                        “No fim de tal terço, cada um chega à mesa e beija devotamente a imunda toalha do improvisado altar. Eu os imito acompanhados do grande júbilo dos espectadores e como fiz três genuflexões, sou tido como ortodoxo o que me eleva aos olhos desta boa gente. Mas, com a oração do terço ainda não acabou a festa: agora que ela vai começar!.

                        Duas violas desafinadas e um machete principiam um rasgado que muito se assemelha a uma sequilha. Os três cantores entoam o seguinte canto:

                        No caminho do sertão

                        Encontrei um pica pau

                        Aí, minha pirima (por prima)

                        Encontrei um pica pau

                        Pica pau muito belo

                        Vestido de amarelo

                        Aí! Encontrei um pica pau...

                        O canto é acompanhado de batidas de mãos, pés e o final é um ligeiro contato barriga contra barriga, a umbigada. No meio da dança, uma das nojentas deste ballet novo, vem tocar seu umbigo no meu. Alexandre grita:

                        - Saia!

                        Hesito, mas não tenho escolha. Como ex-freqüentador de La Chùmiere não se perturba facilmente, saio e danço o melhor cancã possível. Tanto que sou escolhido o melhor e mais animado dançarino do Brasil. Subi muitos furos na estima de Alexandre, mas, sinceramente, com todo o prazer.

                        Cansado, pela madrugada vou procurar descanso lá fora junto ao fogo e deitado sobre uma madeira.”

                        Von Martius veio estudar a botânica do Brasil – juntamente com p zoologo Von Spix - por mando do rei da Baviera. Viu o que pode, deu nomes a muitas plantas, anotou costumes e lendas brasileiras e foi embora. Já des Genette, depois da sua viagem pelo interior de Minas Gerais ficou por aqui mesmo. Foi médico, explorador, pesquisador, descobriu minas de ouro e diamante, exerceu funções de engenheiro, jornalista, advogado e político. O mais estranho é que quando morreu sua segunda mulher, se abateu sobre ele uma profunda depressão, com tal intensidade que aceitou ser sacerdote católico. Trabalhou com padre até o final da sua vida no planalto central de Goiás – hoje Distrito Federal – onde morreu em Goiás em 1889.

                        Quanto às danças populares a dois, há que se sublinhar sua natureza estritamente sensual que juntamente com a explosão de alegria contida nelas, levou a formação do nosso povo alegre e festeiro.

                       

Luiz Ernesto Wanke

 

O ALEMÃO

 

ROTEIRO DE UM DOCUMENTÁRIO PARA A TELEVISÃO

 

Nota: estão previstas três entrevistas para serem inseridas no documentário:

 

A primeiro com um membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, especialista no estudo do Grupo de Nazistas de antes da 2ª. Guerra Mundial.

O segundo com um morador antigo das imediações do Campo do Paraná. Ele conviveu com rapazes que eram membros do Clube dos Planadores.

O terceiro com um historiador da Universidade do Paraná para relatar sobre as perseguições aos alemães a partir de 1942.

 

SEQUENCIA INICIAL: O ALEMÃO E A REPÓRTER

 

                     PRIMAVERA DE 1966

A câmara em panorâmica segue um homem já de idade percorrendo as dependências do Presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro.

Quando se aproxima, chega uma moça que estava observando o velho.

MOÇA

Desculpe-me, mas o senhor está se sentindo mal?

VELHO

A moça percebeu?

MOÇA

Notei que estava chorando.

VELHO

Estou me despedindo... Você sabe, as despedidas são dolorosas.

MOÇA

Vai embora?

VELHO

Descobri que estou com câncer e estou revendo todos os lugares onde vivi... Aqui, por exemplo, deixei mais de dois anos de minha vida.

MOÇA

Esteve preso, não é? Gostaria de saber sua história. Sabe, sou repórter e estava justamente fazendo uma matéria sobre o presídio...

VELHO

Não acho que valha a pena... Mas tenho sim, uma história bem complicada. Coisas da 2ª. Guerra Mundial que me perseguiram a vida toda e só agora tenho coragem para contar porque com a doença me consumindo nada mais espero desta vida.

MOÇA
Puxa, deve ser interessante! Quer dizer, a sua história. Gostaria de ouvir.

VELHO

Então vamos lá para bem mais perto da praia. Assim fico olhando o marzão, tanto como fazia quando aqui estive. Naqueles tempos procurava lá no horizonte a minha Alemanha. E quando via gaivotas voando lá no fundo, ficava com inveja porque pensava que estavam mais perto da minha terra.

 

Os dois caminham para a praia. O velho estende um minúsculo lenço para a moça sentar-se.

 

SEQUENCIA UM: O NÚCLEO NAZISTA DO PARANÀ

 

MOÇA
Alemão? Desconfio que o senhor foi preso político.

VELHO

Acertou! Vim do Paraná em 1942 pelo vapor nacional Itaquera e ficamos presos até 1944 por ordem do Ministério da Justiça do Estado Novo.

MOÇA

Qual foi seu crime?

VELHO

Precisava? Meu crime foi ter me envolvido com uns camaradas lá do Paraná que militavam no Partido Nazista...

 

Enquanto o velho fala, passam slides e filmes da época, mostrando em sincronia o material contendo cenas das festas nazistas e filmes com Getúlio, a Gustloff Haus, aviões e carregamento de café, um zoom de um ariano, Plínio Salgado, acampamento da Juventude Nazista e slides do Clube dos Planadores.   

 

VELHO (acalmando a surpresa da moça)

Não se assuste! Antes do Estado Novo, a militância era legal. Em Curitiba existia um núcleo do Partido Nazista, a turma do Ortsgruppe que ficava na Rua Anita Garibaldi onde se instalaram na casa que chamaram de Gustloff Haus. Desfilavam nas paradas de 7 de setembro e faziam festas bombásticas. A alta sociedade alemã cultuava a doutrina nazista, mas tudo era aberto e dentro da lei. Tanto o nosso governador Manoel Ribas como o do Rio Grande do Sul.  Flores da Cunha participavam e colaboravam com aquelas festividades. Antes da guerra, nosso governo brasileiro tinha grande simpatia por Hitler porque o Brasil exportava 25% do seu café para a Alemanha. As rotas aéreas brasileiras estavam entregues para o Condor Sindicato        que era alemão. Lembra-se das famosas fotos com o Zepelim? Eram desse tempo... Para o presidente Getúlio era vantajoso o comércio com a Alemanha porque assim ele fugia de uma triangulação com os Estados Unidos e Inglaterra, o que só fazia aumentar nossa dívida externa... É, antes da guerra o nosso presidente era favorável ao nazismo!

MOÇA

Mas Getúlio era nazista?

VELHO

Nem podia. O nazismo cultuava a hegemonia da raça ariana e estava reservada para os alemães puros... Hoje soa como uma grande besteira, não é? Mas era assim!

MOÇA

E o integralismo?

VELHO

Um nazismo crioulo... Já que o brasileiro não podia ser nazista, Plínio Salgado criou o integralismo, um arremedo de nazismo tupiniquim.

MOÇA

Portanto, o que posso deduzir é que você foi membro militante do Partido Nazista, é um alemão puro!

VELHO

Não era do partido, mas simpatizante do nazismo. Mas depois da guerra mudei muito e me nacionalizei brasileiro. Minha adesão ao nazismo foi mesmo um rompante de juventude. Bem ou mal, era uma ideologia fascinante e entrar na Hitlerjugend foi até natural para um imigrante jovem como eu era na época.

MOÇA

Hitler... o que?

VELHO

Hitlerjugend... Era a juventude de Hitler... Nos reuníamos no centro de Curitiba e íamos marchando até os arredores da cidade e lá acampávamos... Era uma espécie de grupo de escoteiros... Eu adorava.

MOÇA
Não era uma escola de doutrinação nazista?

VELHO

Talvez fosse, mas na época não senti isso. Porque as atividades eram saudáveis e feitas na natureza. Os rapazes e as meninas iam separadamente com seus professores e professoras buscar saúde e praticar esportes. Era vida simples em comunhão com o meio. Produzia cordialidade e franqueza entre alunos e seus mestres...

MOÇA

Puxa, sua conversa é tão diferente do que se divulgou!

VELHO

Naquela época eu era muito ingênuo e acreditava nas boas intenções daquela gente. Só depois conheci a verdade, quando tive que freqüentar a escola de planadores. Aí sim, descobri que o Clube dos Planadores era uma armadilha: aparentava ser um esporte sadio, mas por trás existia uma segunda intenção.

MOÇA

Clube dos Planadores? Onde ficava?

VELHO

Onde hoje é o Centro Cívico, em Curitiba.

 MOÇA
Estranho... Porque planadores?

VELHO

Ali era chamado de Campo do Paraná e existia um barracão que fora construído para guardar aviões planadores doados pelo governo alemão, aparentemente com finalidade esportiva...

MOÇA

Aparentemente?

VELHO

Veja bem que isso tudo foi antes da guerra... Mais tarde descobri que a finalidade principal era fazer um pré-treinamento para os jovens. Chamava-se de Clube dos Planadores e levantava a possibilidade de que, a baixo custo, os jovens alemães do Paraná tomassem conhecimento de fundamentos da aviação para depois terminar o treinamento na Alemanha. Também, que o destino final da garotada era a Luftwaft (arma aérea) de Göring que compreendia, além da aviação militar, a artilharia antiaérea, grupos de pára-quedistas e enormes contingentes de infantaria. Precisavam, portanto, de muitos soldados qualificados.

 

SEQUENCIA TRÊS: NA GUERRA.

Ilustrado com filmes de ação aérea: um bombardeio Me ll0, filmes de destruição da Londres por bombas, cenas da tentativa de tomada do Palácio Guanabara pelos integralistas e slide mostrando uma réplica de carteira de estudante do Colégio Progresso.

 

MOÇA

O senhor foi para a guerra?

VELHO

Viajei em 1938 quando a guerra já tinha começado e aqui no Brasil estávamos sob o regime do Estado Novo. A Alemanha tinha conquistado os Sudetos e a Áustria, ajudados pelos imigrantes alemães que moravam nesses lugares... Era uma estratégia de Hitler: usar os imigrantes alemães para suas conquistas territoriais. Já em 1933, no começo de seu governo, Hitler tinha declarado que fundaria aqui no sul do Brasil uma Alemanha Antártica e já tinham direito adquirido sobre o sul do Brasil por causa da grande colonização alemã...Influenciado pelo meu instrutor no Clube dos Planadores, resolvemos ir para a Alemanha e nos alistar na Luftwaft. Tudo patrocinado pelo Partido Nazista.

MOÇA

Espera lá: com o Estado Novo a repressão não tinha fechado os partidos políticos?

VELHO

Apesar disso, no começo foi só no papel. Piorou depois que os integralistas tentaram derrubar o governo no mês de maio de 38. Veja bem, não foram os nazistas nem os comunistas que desencadearam a ação que fez o Getúlio criar o Estado Novo em novembro de 1937. Foi sim a ganância integralista que almejava o poder de Getúlio. Mas mesmo pressionado, o grupo de Curitiba continuou a militância clandestina até 1942. Aí sim, quando o Brasil entrou na guerra, abriu-se uma temporada terrível de caça aos alemães. Passamos por perseguições atrozes.

MOÇA

Uma época de muito medo, não era?

VELHO

Até entendo... Mas não houve um período de transição. Num dia tudo estava calmo e no outro, estávamos apavorados fugindo do povo e da polícia.

MOÇA

E como foi sua passagem pela Luftwaft?

VELHO

Na Alemanha recebi treinamento para ser artilheiro num bombardeiro Me 110 e fiz muitas incursões aéreas. Mas em 1940 em plena campanha da França o nosso avião foi abatido. Consegui saltar de pára-quedas e ser resgatado pelo Exército Alemão que já avançava pelo interior da França.

MOÇA
Que sorte! Quer dizer, que sorte para você.

VELHO

A partir de então nunca fui o mesmo. A proximidade da morte somada com as saudades do Brasil fez que eu fizesse um plano de fuga da Alemanha. Porque na verdade eu nunca fui um nazista convicto e sempre fui carregado pelos patrícios... Aí, com a cumplicidade de um comandante alemão de origem espanhola, consegui trocar os meus marcos do soldo de soldado por pesetas que meu chefe recebia regularmente de casa.

MOÇA

Conseguiu fugir?

VELHO

Na volta de uma operação de bombardeio noturno em Londres, consegui pular do avião pela carlinga – quase me arrebentei no leme – e caí num campo de trigo ao sul da Inglaterra. No chão, enterrei o pára-quedas e o uniforme militar – porque  vinha preparado com uma roupa civil por baixo da militar e ainda queimei meus documentos. Fiquei somente com uma carteira do Colégio Progresso de Curitiba, onde fui aluno. Era sim, um colégio dominado pelo Partido Nazista, mas como saber isso na Inglaterra? Aliás, quando eu mostrava o documento ninguém sabia o que era. Só conferiam a fotografia.

MOÇA

Sua história parece um filme de espionagem...

VELHO

Adotei novamente a língua latina, um espanhol misturado com português e para não ser fisgado pela boca – digo, pelo sotaque alemão - reneguei totalmente o idioma. Andei principalmente de noite pelas estradas até chegar numa cidade. Lá troquei minhas pesetas e consegui embarcar num navio grego até Buenos Aires. Depois atravessei a fronteira Argentina- Brasil e fui parar em Curitiba.

MOÇA

Nesta viagem nunca lhe pediram documentos?

VELHO

Sim, mas quebrava o galho com minha carteirinha de estudante e uma boa gorjeta para o fiscal da alfândega.

 

SEQUENCIA QUATRO: A PRISÃO

Com cenas de protesto (slides) contra o nazismo de agosto de 1942.

MOÇA

E depois que voltou?

VELHO

Lá, no meio do ano de 1942 fui preso pelo DOPS, denunciado por meus próprios camaradas que foram detidos antes de mim. Fiquei na cadeia de uma delegacia durante seis meses até ser transferido para cá onde permaneci preso até 1944, já no finzinho da guerra.

 MOÇA
Como foi essa história da denúncia?

VELHO

Sob tortura, a polícia política conseguia tudo. Quando o Brasil declarou guerra aos países do Eixo, houve uma caça aos alemães no sul do Brasil que foi terrível. Confiscaram todos os bens e também o dinheiro guardado no Banco – aliás, nacionalizaram o próprio Banco Alemão Transatlântico - e as firmas daquela gente considerada traidora. Os clubes e sociedades tiveram que mudar de diretoria alemã para uma brasileira e também de nome. O idioma alemão foi proibido... O pior é que a devassa atingiu também aquilo que era o melhor da cultura alemã: as escolas bem organizadas numa época de um Brasil cujo analfabetismo atingia mais de 70% da população.

MOÇA

Não acha natural?... Afinal guerra é guerra!

VELHO

Mas nem todo o imigrante alemão era nazista. Alguns tinham fugido justamente por causa de Hitler... Minha família, por exemplo, era da região do sul da Alemanha, falavam o wenden de origem eslava e que por este motivo sofreu severa descriminação durante o período nazista. Depois, o tratamento foi desigual: enquanto os emigrantes alemães e japoneses eram perseguidos, os italianos – que tinham uma enorme colônia em São Paulo – foram beneficiados. Nem seus clubes – geralmente chamados de Dante Alegieri - foram nacionalizados. Curioso é que os polacos foram penalizados, eles que foram vítimas do nazismo e eram também em grande número no Paraná... Gozado, em Curitiba o nome do seu principal clube polonês passou a ser nominado de Juventus – de tradição italiana. Confesso que nunca entendi.

MOÇA

Coisas dessa gente dominante que sempre mete os pés pelas mãos!

VELHO

Afinal, vim parar nesta ilha: um inferno fincado no paraíso!

MOÇA
Aqui sofreu muito?

VELHO

Não fosse a saudade, até que aqui seria bem legal. Naquele tempo não havia muitos moradores. E tínhamos uma vida comunitária com poucos guardas, já que vivíamos cercados por água por todos os lados. Precisávamos de pouca coisa para nossa sobrevivência porque praticamente produzíamos de tudo, plantando numa horta comunitária e criando galinhas. Esse marzão fornecia todo o peixe que precisávamos. Claro, nunca podíamos sair para pescar, mas o Estado comprava o peixe muito barato dos pescadores locais. Quanto a nossa suposta culpa, por dentro sabíamos que ninguém era bandido ou tinha feito coisas tenebrosas, como matar, explodir ou seqüestrar.

MOÇA

Tiveram um julgamento?

VELHO

A polícia política agia em nome do Estado Novo de Getúlio e não precisava de nenhuma justificativa – ou processo – para prender arbitrariamente. Sabe qual foi nosso crime? Permanência ilegal no país, fazer propaganda nazista – que antes era permitido e incentivado – e até o exagero de prender alguém por possuir um rádio ou um mapa. No meu caso, nunca fui filiado ao Partido porque nos meus tempos de Hitlerjugend nem tinha dinheiro para contribuir, já que a mensalidade era alta. O partido era rico porque vivia de contribuições individuais e uma taxa de 5% do lucro das firmas nazistas instaladas no Paraná.

MOÇA

E a questão com os judeus?

VELHO

É certo que na Europa o nazismo bateu de frente com os judeus, levando à catástrofe do holocausto. Mas soube pelos companheiros que o próprio Partido Nazista no Paraná tinha uma atitude discreta a este respeito, procurando não fazer um ataque direto e nem prejudicá-los em respeito aos brasileiros que, como todo o mundo sabe, é um povo acolhedor e aceita a todos, independentes de raça, ideologia e credo.

MOÇA

Isto cheira a demagogia.

VELHO

Mas asseguro que esta era a opinião de todos os presos alemães que convivi e só soubemos da atrocidade contra os judeus depois da guerra.

 

SEQUENCIA FINAL: A DESPEDIDA

Inserção do slide (ou filme) do governador Manoel Ribas

 

MOÇA

O que o senhor fez depois da prisão?

VELHO

Nossa liberdade foi reenvidicada pelo próprio governador Manoel Ribas. Ele  achava que estávamos fazendo falta para o desenvolvimento do Estado do Paraná. Não é o meu caso, mas no meio dos presos existiam grandes investidores da indústria e comércio e também havia muitos intelectuais. Depois da guerra, felizmente a maioria dessa gente foi aproveitada sem rancores no nosso Estado. Sabe, seus descendentes talvez nem saibam que tiveram um avô nazista.

MOÇA

E o senhor? O que fez depois da liberdade?

VELHO

Fui ser açougueiro em Curitiba na Rua Inácio Lustosa. Sempre trabalhei duro e fui progredindo até conseguir meu próprio negócio... Casei-me e tenho dois filhos: a menina é médica formada e o rapaz estuda direito. E o principal é que a partir de 1950 me naturalizei. Hoje sou tão brasileiro quanto você. E mais, me orgulho de ser brasileiro por opção!

MOÇA

Sua história bem que daria um belo romance.

VELHO (levantando-se e virando-se para o continente)

Pode ser... Por isso, sem desrespeitar minha pátria mãe, hoje posso virar meu corpo para este país maravilhoso que apreendi a amar e ver lá longe os urubus – que seja - voando no continente. Perto do meu fim, quero ser enterrado nesta que agora também é a minha terra. Como paga do acolhimento, desejo que meus filhos e meus netos trabalhem com vontade para ajudar a tornar o Brasil cada vez melhor... Ah! E que Deus não permita que surja um novo Hitler! Nazismo nunca mais!

MOÇA (vendo o velho se afastar)

Já vai? Mas, senhor, nem sei seu nome?

VELHO (evasivo)

Meu nome? Não tem importância... Para seus escritos, invente um nome qualquer, de preferência daqueles de som glutal que para vocês que não estão acostumados com a pronúncia alemã, deve ser pronunciado com se fosse necessário colocar uma batata quente na boca!

 

Curitiba, 25.02-2012

 

Dr. Marcos.

Gostaria que visse a parte dos ‘terrenos’ diamantíferos descobertos por Genettes, um personagem que descobri quando achei manuscritos seus, originais e inéditos. Além do livro publiquei um artigo no site do Observatório da Imprensa com o título ‘O SÁBIO QUE FAZIA DE TUDO UM MUITO’ que pode ser resgatado na busca do site, se procurado com meu nome. Penso que o dr.  vá gostar já que é um especialista no assunto

 

Um abraço

Luiz Ernesto Wanke

profwanke@hotmail.com

 

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